Sobre o poeta VI

COMENTÁRIOS DIVERSOS

Recebi do poeta e jornalista (no Maranhão primeiramente somos construídos poetas, só depois nos construímos em alguma outra “coisa”) Mhário Lincoln, o e-mail que abaixo vai reproduzido em sua íntegra. Antes, contudo, tomo a liberdade deste micro intróito (que penso até seria desnecessário) sem antes admitir que o faço com o maior temor, pois, as palavras do autor, por si, já revelam as dores de uma nação iletrada, e por isso mesmo, subjugada politicamente por uma canalha – também iletrada -, guardadas as devidas e mínimas (minimíssimas mesmo) exceções a essa abstrusa e incompreensível regra, que por força de um democratismo idiota, permite a eleição de um sem-número de analfabetos.
Mas esses canalhas e analfabetos são homens ilustres!
Já os Poetas, não. Estes são pessoas “que não pensam”, que vivem “no mundo lua” tão somente, a dizer uma bela palavra, carregada de efeito estético, para as suas amadas. Assim, os poetas são pensados por esses ilustres senhores do destino da nação Brasília. Pouco se lhes interessa a arte da poesia…
Por que a poesia ensina, a poesia educa, a poesia conscientiza, a poesia politiza… e isso não interessa aos Ilustres Senhores do Congresso Nacional, não menos diferentes dos Ilustres Senhores do Poder Executivo e do Poder Legislativo. Ah, no dia que esta “manada de bois” condenados ao matadouro do analfabetismo descobrir que pode mudar a regra!…
É por isso que “canto” nesta minha poesia:

A quimera da repetição

João Batista do Lago

…e de repente de novo o povo é convocado para uma nova quimera
…e de repente de novo o povo atende ao apelo mesmamente

estamos diante de uma nova eleição
parece festa de São João
os brincantes meus-bois-bumbás
não percebem que se encontram currulados
nos arraiais da nação
que seus amos estão sempre-alertas
para lhes arrancar a língua
e servir com o pirão da inconsciência
o farto manjar na mesa da dominação

não basta devorar a consciência da população para ser um bom ladrão…
é preciso mais que isso
é preciso comer a palavra da reação
(mesmo que esta reação
seja instintiva
não pensada
imemoriada
não-reativa)
não permitir que o boi entenda que no interior da sua força carrega tanta e tamanha libertação…
é preciso dissuadir
enganar é preciso
votar não é preciso não… com precisão

renovar a dentadura do Mimoso
é preciso
ajuda ruminar o chibé
(pirão feito com água, farinha de mandioca e açúcar ou mé,
e por vezes temperado com cachaça e também com pimentão)

dar novos olhos ao Caprichoso
é preciso
ajuda a enxergar a inação da nação
falsa consciência do democrático
campo real da alienação

…e de repente de novo o povo é convocado para uma nova quimera
…e de repente de novo o povo atende ao apelo mesmamente

e lá se vai o boi
inconsciente
para o matadouro:
manso
tranqüilo
calmo
alienado…
sem língua,
mas com dentadura;
sem visão,
mas com óculos;
feito povo marcado
feito gente desprezada
depositar na urna
o voto da esperança perdida

amanhã…
quem sabe o amanhã!

…e de repente de novo o povo é convocado para uma nova quimera
…e de repente de novo o povo atende ao apelo mesmamente

= = = = = = = = = =

…LÁ DAS MINHAS GERAIS

Encaminhar ao poeta João Batista:

* Regina Maranhão Caldas escreveu:

Atualmente, mais para se ver e descobrir, do que para se comprar e se ler nas bancas e livrarias. Nas bibliotecas, nem pensar. Vê lá se biblioteca, seja de Universidade ou de escolas de ensino médio – é lugar para livros de poetas vivos. Desses que andam e falam pelas ruas da cidade. Que bebem cerveja e outros ingredientes mais fortes. Que perambulam pelos becos, pelas favelas, pelos corredores da universidade, atentos à crise da Argentina, à crise da política brasileira, ao movimento sucessório nacional.
O certo é que os poetas nada faturam. Uma noite de glória no cada vez mais reduzidíssimo círculo de amigos e iniciados. Uma nota nos jornais mais lidos da capital. Algumas notas suplementares.Talvez alguns e-mails. E precisa mais? O que poderia um poeta desejar além disso. Ser reconhecido (pela) como benfeitor da sociedade? Ser aplaudido como um atleta? Ser admirado como uma top-model? Ser famoso como um traficante? Espaço nas faculdades de Letras? Isto já é querer demais.
Professores e alunos, de todos os níveis e idades, estão preocupados mesmo é com os poetas mortos – morto para eles intelectuais ingratos – devoradores de signos, dissecadores de cadáveres. Por mim, sinto-me bem onde estou. Dentro e/ou fora das antologias. Desta ou daquela. Longe dos grupos, das gretas, dos guetos, das guerras, das grutas minerais. Se estou não reclamo. Faço tudo, desde que comecei a literaturar desaforos, por volta dos 12 e 14 anos de idade. Lida diária. Se mereço não sou eu que devo dizer. No mínimo, o editor. É por isto que prefiro ficar quieto.
Saborear poemas em silêncio de quase vertigem como quem mastiga pedras, saboreia frutas silvestres. Doce de leite ou cachaça. Prefiro adivinhar, desde de antes dos gregos, o sem sentido do mundo. Procurar. Reviver, de perto, pássaros e pessoas, antediluvianos. Ficar onde nunca estou. Entre anônimo e anômalo, desfrutar o tempo, como queria Drummond, tal qual se oferece. Viver o desfuturo, o lado escuso do poema. Do planeta. Sua escassa solidez. De passagem. E porque não? Afinal, em país que pouco se lê – e leitura é passar os olhos sobre – e menos ainda se quer ver, a vinda à luz de um livro de poemas é realmente coisa para se festejar. Ainda que seja uma antologia, uma babel, labirinto de espelhos e espantalhos. Literatura à parte, vale mais a vida, a busca de leitores livres para a grande aventura de escalar, perder-se em letras e ruas de palavras a cidade branca, à espera da poesia, o não lugar dos poetas, as antologias.
__________

* Jornalista, poeta e coordenador do curso de jornalismo da Puc-Minas em Arcos, Minas Gerais.

= = = = = = = = = =

marcobastos

 

marcobastos wrote today at 10:19 AM

Li a sua maneira de ver o mundo em suas poesias. Um espírito nobre, leal e rebelde que se debate e se entristece diante das cruciais encruzilhadas da vida dita moderna. Poesia densa de um homem maduro que passa pelas encruzilhadas do existencial, do social e do político sem aceitar dobrar as esquinas. Continue o seu caminho, João, porque o mundo anda mesmo muito cínico, apático e descarado. Moral e ética devem ser mesmo resgatadas, e o caminho é dialético. Um grande abraço. bom dia. Marco..

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patetico

 

DEUS-ME

by João Batista do Lago

O meu divino-deus continua embalsamado

Reclama sua eterna existência dentro de mim

Convoca-me a mostrar-me substancialista

Grita do fundo do poço quanto devo ser artista

Ó deus que dentro em mim quer despregar-se

Dizer-me abertamente que sou sujeito, porém

Demônios angélicos lhe pedem em prece:

– Não forneça o Sol da noite a quem não merece

Desgraçado então a vida assim condenado sigo

Sem ter oportunidade de deus-me ser parido

Complexo defunto: amplo encanto do eu-partido

Eu-deus carrego então a cruz dos vencidos

Pleno do pus pútrido de eterno Homem não-nascido

Calado na sua gênese como a essência do vencido

Mais do que soneto, é uma prece, uma promessa, uma alma em busca de seu «divino-deus embalsamado». Sim, pudera que o encontrássemos como encontramos outra coisa qualquer. Ou estará esse deus, precisamente na pedra do caminho e na urdidura do destino? E até mesmo na «essência do vencido»?
Abraços

Henrique Sousa (Portugal)

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adautoneves

 

adautoneves wrote on Jul 24

” Demônios angélicos lhe pedem em prece:
– Não forneça o Sol da noite a quem não merece”

Mas ao poeta lhe é concedido, tudo, até o “Sol da noite… ”
Caro poeta JB, lindo seu Soneto!
Parabéns!

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valquihelo

valquihelo wrote on May 28

“E agora, já definitivamente condenados, todos – e eu -,

passageiro da própria passagem já não encontro portas de saída

para enfrentar o meu fetiche… Para deitar minha lepra e minha loucura!”
************************
*************************************EMUDECO COM TODA A FORCA, BELEZA E SINCERIDADE DA *PALAVRA*!!!!!!
………………..

“Sou-me – de mim -,

apenas eu – e eu mesmo -,

passageiro da própria passagem.”
****************************************************Ah, DEUS!!!_E’ DE UM LIRISMO, E UMA ENERGIA QUE E’ VIDA E PAIXAO_E…DOR_!!!!!!
……………………BELISSIMO ESTES PRIMEIROS *VERSOS*, AGARRAM, IMEDIATAMENTE O LEITOR!!!!!!

_O ABRACO!
E… O PARABENIZO E PECO AOS CEUS QUE LHE UMENTEM ATE’ AO “IMPOSSIVEL” OS ANOS DE VIDA E SEMPRE< SEMPRE< COM A PRESENCA DAS *MUSAS* QUE O ILUMINAM INSPIRAM E PROTEGEM!!!!

BEM-HAJA!
***************
OBRIGADA POR INEBRIAR A MINHA ALMA!

Heloisa BP (Bath – Inglaterra)

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patetico

 

patetico wrote on May 28

«OBRIGADA POR INEBRIAR A MINHA ALMA!»

Este poema não é apenas mais um poema, é um grito lancinante que fica a ressoar na alma inebriada, tal a pujança com que denuncia:

«Venturosos da nau dos loucos, de poderes moucos,

estabeleceram no campo das açucenas

quermesses de dominações sem quaisquer penas.»

Viva o Poeta! Que se abram as portas!

 

Henrique Sousa (Portugal)

 

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greyselene wrote on Jun 1

COMO PASSAGEIRA DE UM NAVIO ENCANTADO DESEMBARCO *NESTA ILHA POETICA*, PARA ME ENCANTAR E COLHER UMA FLOR NUM VERSO!!!!!
Beijinho.

Grey…… (Inglaterra)
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tefnut

 

tefnut wrote on Jun 16

Ainda bem que me convidou para aqui entrar. É bom saber que além de escrever tão bem, tem essa capacidade de crítica e revolta. Gostaria de comentar ainda mais a sua mensagem de abertura porque é ainda mais paradigmática mas, pelo que percebo, em quase todas elas esse sentimento existe. Também nós aqui, deste lado do oceano, estamos mal, muito mal.
Obrigada.

Luisa (Portugal)

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6 opiniões sobre “Sobre o poeta VI”

  1. E…estou passando outra vez numa das Suas POETICAS AVENIDAS porque a Saudade me traz! E,,, mais palavras (minhas) para que? As Suas, explodindo de raiva e dor pelo “boi” que sempre se deixa matar, sao o que importa porque o VERSO (com rima, ou sem ela) nasceu em SI* e se alimentou no seio de Sua Mae Querida e… foi para a escolar e leu dos seus livros bebeu do elixir da POESIA VERDADE E… POESIA BELEZA!
    Os comentarios que aqui li, sao tambem dignos de muita nota.
    ABRACO AMIGO, meu querido POETA JOAO_POETA DO BRASIL E DE “MUITO MUNDO”!

    Sua muito Amiga,

    Sabina ( ou Heloisa)

  2. EU, PASSO,PARO,ABSORVO E RECORDO!

    SE PASSAR, TAMBEM, RECOLHA O ABRACO.

    Heloisa

  3. Aqui no seu espaço encontramos uma literatura de qualidade.Textos que nos trazem a realidade social e cultural do nosso tempo,escritas por alguém que com profundo senso crítico,questionador,apaixonado,intenso.
    Muito bom estar aqui e desfrutar dos seus escritos.Obrigada!
    Yara

  4. DEUS-ME

    JOÃO, com a sua devida licença..tomo a liberdade de resposta não só pela forma democrática, mas também porque veio até mim…

    Penso, porém existo!
    Concordo com Henrique Sousa(Portugal), embora este é o meu pensamento não o dele…
    ” Deus está precisamente na pedra do caminho”. Posto que, vamos ao longo da jornada,amontoando-as para no tempo certo, construirmos nossos castelos,através de nossas ações, atos,obras e pensamentos que a tudo plasma.
    “Na urdidura do destino”. Revestida da mais perfeita harmonia e equilíbrio entre homem-natureza e Criador!
    ” Na essência do vencido” – Sabendo que o verdadeiro soldado nem sempre é aquele que vence a batalha em si, mas sim aquele que sabe e discerni o momento certo de se calar ou bater em retirada!
    Sim o Deus que habita em nós e em todas as coisas perfeitas e imperfeitas em seu tempo e lugar necessários para a evolução dos seres.

  5. Neste mundo de desprovidos, sofre não só o amor tão esquecido, mas sofre também o amor calado, dorido, apertado….O grito abafado….mas eu creio no amor…e que ele vence todas as barreiras do mundo a nós impostas, para crescimento, evolução do ser carente,alma valente!!!.
    Abraços, parabéns pelo soneto lindo Marco..verdadeiro…

  6. Ambitio

    Marco Bastos

    tanto peca o pecador como o pecado,
    tanto sofre o sofredor como o sofrido.
    nesse mundo divisor, calor mal dividido,
    sofre o homem que inventou o inventado.

    sofro a dor do nascimento ao ter nascido,
    choro o pranto e o pranto é desabrido.
    quem me dera pudesse ser na humanidade,
    a eqüidade, o bom sentido, só bondade.

    olho-no-olho, que não fosse…dente-por-dente.
    fosse o homem outro homem, independente,
    e explorasse bem a Terra, palmo a palmo.

    vivesse o homem só amor e seu trabalho,
    e que o ferro fosse a faca, não o talho.
    fosse calmo o tempo e o vento…fosse salmo…

    (soneto vencedor no concurso que deu origem à Antologia Delicatta II)

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