Sobre o poeta III

APRESENTAÇÃO

Margarita de Cássia Viana Rodrigues*

pescador-capa1.jpgÉ com imenso prazer que faço a APRESENTAÇÃO do livro de João Batista do Lago. Na verdade devo confessar que o convite, para apresentá-lo, me deixou meio “fora do ar”, pois uma mescla de sentimentos de temor, prazer, surpresa e vaidade se misturaram dentro de mim!
Temor, porque de literatura não entendo nada! Prazer e surpresa, porque muito embora já conhecesse a preocupação e o interesse dos textos desse jornalista com o social, com a educação e a filosofia, não esperava que esses temas fossem capazes de despertar e se transformar em tão profundo sentimento de lirismo! Vaidade, porque dentre as inúmeras pessoas bem mais credenciadas sobre o assunto, fui escolhida para tão gratificante tarefa.
Seus poemas são frutos de reflexões profundas sobre a vida de alguém que não apenas “vai levando” a vida. Ao contrário, eles representam a cristalização do viver uma vida cotidiana como uma relação entre pensar o Eu pessoal e seu papel social, e que eu chamaria de uma dialética rebelde. Ou seja, uma vida pensada e vivida inserida na cotidianidade desse nosso mundo construído por uma cultura hegemônica, que apresenta fraturas sociais incomensuráveis, mas que ao mesmo tempo se rebela a ser mais um do rebanho.
Sua rebeldia fica muito clara, por exemplo, quando se nega a se enquadrar no “quadrado mágico da ordem estabelecida”, ou mesmo quando se questiona sobre um possível medo que anestesia a sociedade brasileira em “quem são?” esses corruptos que envergonham a política brasileira. E alerta que “é chagada a hora da ação, o “espírito” da nação reclama: revolução”. Na educação essa rebeldia também se manifesta ao questionar a ordem das filosofias que a guia, e que tolhe o verdadeiro conhecimento.
Sua sensibilidade reconhece ambigüidades e inseguranças da nossa atual temporalidade, batizada de pós-modernidade, como a causa da desistência do homem pela buscar pelo “ser imanente” existente em si próprio, e que prefere se acomodar numa visão “religiosa” de vida e que os transformam em “pobres humanos inconscientes”. Porém, em “Esse Homem” sua preocupação e rebeldia retornam com força quando afirma que só se alcança o verdadeiro equilíbrio, quando as necessidades da vida material provocam uma revolução interior. Por isso se revolta e afirma: “não me venhas enfim com ideologias; todas são iguais, consciências falsas, simulacro de todas as deidades”.
Em “A quimera da repetição” retorna à suas origens de nordestino e através das figuras representativas do folclore – os Bois bumbas Mimoso e Caprichoso – nos leva a pensar da importância do despertar a consciência coletiva para não sermos apenas mais um “boi inconsciente” que manso, inocente e tranqüilamente segue em direção ao matadouro.
Um nordestino do Maranhão e como ele mesmo diz, saiu pelo mundo a perambular e que hoje se sente um “desenraizado”, “multicultural”, “sem língua… sem pátria…” que se considera um “anarquista babélico”, mas que na verdade sente saudade e nunca esquece de sua pequena Itapecurimirim.
“Libertação” e “Autocídio”, não posso negar, são minhas preferidas! Mais que poemas são um presente, um brinde à sociologia crítica brasileira. Poemas sínteses de revolta sobre a sujeição do povo brasileiro, à dominação da classe hegemônica.
É nessa perspectiva sociológica que entendi os textos do João e comentei apenas alguns, aqueles que mais são representativos para mim. Com o João compactuo dessa rebeldia, e me deixa imensamente feliz ver a minha amada sociologia na forma de poesia, longe do discurso acadêmico. Mas o leitor com certeza, além da possibilidade de desencadear um processo de rebeldia ao “status quo” social em que vivemos, encontrará jóias belíssimas que lhe falarão ao coração.
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* Margarita de Cássia Viana Rodrigues – MS. Em Comunicação, Doutoranda em Ciências Sociais.