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A FONTE DO RIBEIRÃO NÃO É PASSARELA…

© DE João Batista do Lago

A transformação da Fonte do Ribeirão – uma das mais importantes peças históricas da cidade de São Luis – em passarela de blocos tradicionais, para dizer o mínimo, é a mor expressão da incompetência latente de uma galera que faz cultura pelo viés do processo político da aculturação, mas também, com um formato modernista duma abordagem sob o foco duma erudição ilhoa voltada para dentro de si, ou mais precisamente, como se fora de si, a “coisa” sui. O pior de tudo é constatar que toda essa ignorância está vestida com o manto oficial do Palácio de La Ravardière.

Quando tomei conhecimento dessa iniciativa tive o cuidado de procurar informações, junto ao órgão patrocinador, sobre o Estudo de Impacto de Vizinhança (EIV) e sobre o Estudo de Impacto Ambiental (EIA), que respaldassem a efetivação da farra, agora elevada à condição de folclore (o que é outra aberração). Para minha decepção ninguém – mas ninguém mesmo – daquele órgão promotor, tampouco da estrutura da prefeitura, soube informar, o mínimo que fosse, sobre a minha especulação. Aliás, por onde passei, o que pude constatar foi cara de espanto (!) das pessoas, que, no geral, nem sabiam do que se tratava.

Assim sendo, tomo a liberdade de concluir, isto é, de inferir: que a transformação pura e simples da Fonte do Ribeirão em solene passarela de blocos (carnavalescos) tradicionais é um desrespeito, jamais uma homenagem como se pretendeu publicizar, ao patrimônio público da cidade de São Luis. Uma afronta à história e à historicidade, bem assim à ludovicensidade marânhica.

Com isso, pode-se, ainda, dizer: os atores ou agentes promotores e produtores desse evento são “sujeitos insuficientes” para conduzirem atos e fatos da cultura ou da culturalidade maranhense, posto que, sequer conhecem a Lei 10.257/2001, denominada Estatuto da Cidade, que dirime as dúvidas sobre tais situações. Suas conclusões [do Estatuto da Cidade] podem não apenas viabilizar como também impedir empreendimentos que comprometam o meio ambiente urbano. Também é um instrumento de mobilização popular, visto que a comunidade é chamada à discussão, evitando-se que empreendimentos sejam “consagrados” à revelia do interesse público.

Por conta própria tomei a iniciativa de fazer uma enquete, junto aos moradores da área, para saber se alguma pessoa estava sabendo do evento ou se fora convocada para discuti-lo… Infelizmente a resposta foi negativa. Ora, sendo assim, conclui-se – por definitivo – que a iniciativa não passou pelo crivo de qualquer estudo de viabilidade, seja EIV ou EIA. E muito menos obteve, da população, quaisquer respaldos.

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Aculturados pelo boi(-ismo)

Por João Batista do Lago

Aprendi com o professor José Nascimento de Moraes Filho (falecido em fevereiro deste ano) que o folklore maranhense é, possivelmente, se não o mais rico, mas aquele que guardaria a sua identidade mais próxima das raízes populares. E dentre todas, a mais forte manifestação floclórica do Estado é o boi bumbá. Até aí está tudo bem; tudo perfeito.

Infelizmente já não o tenho para um bate papo a respeito deste assunto. Infelizmente! E tenho certeza que, assim como eu, Nascimento de Moraes, também, não iria ficar calado diante de um processo de aculturamento da Cultura maranhense, sobretudo da Literatura.

Ninguém está aqui a negar o valor dos folguedos juninos que tem no bumba boi sua manifestação mais expressiva. Mas reduzir a Cultura e a Literatura maranhenses a essa corrente de boismo é algo desproposital e demonstra que os seus “pregadores” são sujeitos despreparados para o encaminhamento de políticas culturais.

Esse boismo, tipologia de aculturamento, é avassaladoramente prejudicial para o campo das Artes maranhenses.

Aos meus olhos é a reedição pósmoderna do “Pão e Circo” romano: dê-se comida… bebida… e brincadeira para todos…

As outras manifestações artísticas, como a Literatura e a Pintura, por exemplo, estão subsumidas no “campo patológico” desse boismo nefasto.

A maior expressão literária de São Luis, e consequentemente da Cultura maranhense, para se ficar apenas neste exemplo, é a Poesia, mas esta está enterrada nas toadas de bois (infelizmente!), agora elevadas à condição do gênero poético. Quanta enganação! Quanta burrice! Quanta pataquada!…

Urge, pois, a retomada da identidade da culturalidade marânhica. Há que surgir movimentos capazes de represar esse boismo reducionista imbecil e produtor duma geração de analfabetos funcionais.

Penso que, se vivo estivesse, Nascimento de Moraes encamparia mais esta luta por intermédio do Comitê de Defesa da Ilha de São Luis, hoje jogado às traças e carrapatos dos imcompetentes.

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João Batista do Lago é poeta, escritor e jornalista; fenomenólogo e pesquisador cultural. Contato: joaobatistalago@hotmail.com

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NÃO SE CRIAM MAIS BEBÊS COMO ANTIGAMENTE

© DE João Batista do Lago

Hoje em dia, segundo recente pesquisa

feita pelo site The Baby Website,

com 2000 mães britânicas,

dois terços delas preferem cantar

músicas pop do que canções de ninar

na hora de acalmar ou colocar os bebês

para domir.

Eu sou duma geração que ia pra cama embalado por estórias e cantigas de ninar ou cantigas de roda. Elas foram tantas e quantas, que marcaram definitivamente toda a minha história de vida. Ainda hoje sou capaz de lembrar plenamente de muitas delas: Boi da cara preta, Bicho papão, Dorme neném, Dorme filhinho, Nesta rua, Terezinha de Jesus, Entrei na roda, Atirei o para no gato, Pirulito que bate-bate, O cravo e a rosa, Escravos de Jô, Pai Francisco, Se essa rua fosse minha, Marcha soldado…

Muitos de vocês, sobretudo aqueles que nasceram antes dos anos 80, com certeza, devem estar lembrando, neste exato instante, de suas reminiscências. Chego mesmo a devanear sobre isto e imagino ver o rosto de cada um abrindo um largo sorriso ao lembrarem de suas tenras infâncias… Dum tempo e dum espaço onde se era feliz. Simplesmente feliz! Dum tempo em que essas estórias, cantigas de ninar ou cantigas de roda não eram analisadas sob o manto de um tal psicologismo barato da pós-modernidade ou duma modernidade tardia, envolto sob o prisma de preconceitos aculturantes e escatimosos, ou mesmo escatológico.

Já se escreveu por aí na rede “A Inocência perdida das canções de ninar, texto que pretendera desconstruir esse folclore nacional, partindo de argumentos chulos e eivados de preconceitos ou, pior ainda, abarrotado de uma tipologia de aculturalismo tupiniquim, que muitas dessas canções teriam sido as responsáveis pelas agruras da miséria e da pobreza brasileiras, entre outras coisas. O texto da autora (ou do autor) peca pela grosseria analítica – seja do ponto de vista denotativo, seja do ponto de vista conotativo.

As nossas estórias, canções de ninar ou canções de roda, antes de serem demonizadas pelos arautos e defensores dum certo aculturalismo pós-modernista, com o apoio de uma certa corrente xiita de ecologistas, bem assim de certa corrente psicanalítica, e mais ainda, de um certo número de intelectuais indiferentes à cultura da formação do Homem (homem/mulher) brasileiro, todos sacerdotes da igreja do modismo mercadológico da hora presente, deveriam ver nessa nossa fenomenológica manifestação popular, a partir do campo da arqueologia histórica, o florescimento da formação cultural da nação pau brasil, mesmo que se admita o viés político-econômico dos colonizadores, das elites e das burguesias dominantes, essa fenomênica manifestação está sim, na nossa raiz, não como o caldo cultural de um povo de baixa estima, mas como um povo que traduz, desde as suas raízes, todas as manifestações fenomênicas das estratégias e projetos dos colonizadores e dominadores, e que eram denunciados por intermédio dessa argamassa folclórica.

Quanto às canções pop de ninar das mães britânicas pouco, ou mesmo nada, tenho a comentar. Mas habita-me uma preocupação latente no corpo social brasileiro, ou seja, nós que tanto gostamos e admiramos de tudo que é estrangeiro e dos estrangeirismos, ainda que vulgares, haveremos de substituir nossas estórias, canções de ninar ou canções de roda pelas músicas pop para adormentar nossos pimpolhos? Ou será que passaremos imunes por esse paradigma de aculturação?


João Batista do Lago é jornalista, poeta, escritor e teatrólogo.

Texto publicado no Boletim da Rádio CBN, em 2 de outubro de 2003.

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PARMÊNIDES DE ELÉIA – O Poeta do Ser

(Parte I)

by João Batista do Lago

Ao iniciar este artigo devo dar conta do apaixonante amor que sinto pelo universo greco-helênico. Trago em mim a concepção, melhor dizendo, a convicção conceitual que, ainda hoje, “sofremos” deste mundo arcaico – o mundo Grego: a conflituosidade do ser e do não-ser, assim como todas as suas conseqüências deletérias, insalubres ou mesmo venenosas para o estudo da ontologia ou da metafísica (ambas definem o estudo do ser em geral).

Quando digo sofremos tenho a nítida intenção de dizer, de inferir, que continuamos “atolados” no pântano das incertezas humanas. Ainda hoje nos perguntamos: quem somos? O que somos? O que fazemos aqui? Qual a função e o papel que exercemos? Qual a nossa destinação? Enfim… Ainda hoje não nos contentamos com quaisquer respostas. Ainda hoje continuamos vasculhando o mais profundo de nossas cavernas na tentativa de nos descobrir, de nos desvendar, de nos desvelar, de nos revelar…

E para isso nos utilizamos, o mais que podemos, de nossas faculdades mentais na tentativa de sustentar a superioridade da interpretação racional do mundo e a negar a veracidade da percepção sensível.

É exatamente neste ponto que Parmênides de Eléia, me atrai, pois, ver, ouvir, escutar, não produz certezas, apenas crenças e opiniões. Vale destacar que, já aqui, ele assevera que erra quem (como Heráclito, por exemplo) deixa-se enganar pelos sentidos e considera a realidade em devir, pois a transformação – uma passagem do ser a um não-ser – não é em si pensável: o não-ser não é jamais pensável, não mais do que ver a escuridão (o não-ser da luz) ou escutar o silêncio (o não-ser do som).

Neste artigo – insisto – pretendo debruçar-me sobre uma das figuras arcaicas que mais me chama a atenção no universo helênico: Parmênides de Eléia, a quem defino não como um Filósofo – pura e tão-somente -, mas como um Poeta filosófico, portanto, o Poeta do Ser.

É com este poeta eleata que encontramos, ‘conscientemente’, a origem do pensamento racional e, ainda, é com ele que vislumbramos a elaboração do método. Ouso afirmar, por inferição empírica, que, Descartes e Shakespeare, para ficar apenas nestes dois exemplos, dele se utilizam. René Descartes é considerado, universalmente, o “pai” da filosofia moderna, e, William Shakespeare é considerado, universalmente, o “pai” do teatro moderno. Em Descartes encontramos a máxima conhecida de todos: “Penso: logo existo”. Em Shakespeare encontramos o aforismo: “Ser ou não-ser, eis a questão”.

Ora, não é, pois, o Ser e o não-Ser, por excelência, o tema fundamental da poética Parmenidiana? Pois sim!

Podemos dizer assim – e disso falam os filósofos do passado e do presente – desse pensador eleata – Parmênides -, sem medo de cometer nenhum erro, que o filho de Eléia era de uma grandeza perturbadora. O rigorismo de suas argumentações assim como a profundidade de suas análises levou Platão a defini-lo como “venerando” e “terrível”. Mas não só isso, o filósofo de Athenas – Platão – viu-se obrigado a dedicar um diálogo específico – o Parmênides – ao filho de Eléia; reconhecê-lo como pai espiritual e confessar que ao discordar de algumas reflexões parmenidianas cometeria uma tipologia de “parricídio”.

Fica clara, assim, a imensa admiração que nutro por este poeta-filósofo que, infelizmente, apesar dos inúmeros estudos, pesquisas, escavações histórico-arqueológicas, nos legara, da sua obra, somente 154 versos do poema filosófico SOBRE A NATUREZA, estruturado em hexâmetros (versos de seis pés) e dividido em duas partes: Verdade e Opinião.

EM BUSCA DA VERDADE

Nas suas investigações filosóficas, Parmênides impõe-se, a si, uma questão até então (hipótese de muitos historiadores) não formulada de maneira tão racional: a busca do conhecimento do que é Verdade e do que é Opinião. Ele foge, assim, da visão puramente mítica, religiosa ou teológica – muito embora utilize como campo metafórico o abstracionismo dêitico-mítico tão comum naqueles tempos arcaicos – para inferir a racionalidade da sua abordagem poético-filosófica. É toda essa densidade simbólica introjetada no pensamento parmenidiano que cria dificuldades de interpretação do poema, sobretudo na parte primeira quando nos remete à metáfora da viagem. Vejamos:

“As éguas que me levam até onde meu desejo quer chegar me acompanharam, após me conduzirem e me colocarem no
caminho que diz muitas coisas,
que pertence à divindade e que conduz o homem que sabe a todos os lugares.
Para lá fui levado.

De fato, para lá me levaram as sagazes éguas, tirando meu carro,
e as jovens a indicar o caminho.
O eixo do meão soltava um silvo agudo, incandescendo-se (porque premido entre dois rotantes, círculos de um lado e de outro),
enquanto apressavam o passo, ao me acompanhar, as jovens Filhas do Sol,
após deixar as casas da Noite, em direção à luz, retirando com as mãos os véus da cabeça.

Lá está a porta das veredas da Noite e do Dia,
tendo nos dois extremos uma arquitrave e um umbral de pedra;
e a porta, erguida no éter, é fechada por grandes batentes,
dos quais a Justiça, que muito pune, tem as chaves que abrem e fecham.

As jovens, então, dirigem-lhe suaves palavras,
e sutilmente a persuadem a que os ferrolhos
sem tardar removessem da porta. E logo esta, ao se abrir,
dos batentes fez uma vasta abertura, fazendo girar
nos gonzos, em sentido inverso, os brônzeos umbrais
ajustados com pregos e com ombreiras. Logo, por lá, através da porta,
direto para a estrada mestra, as jovens levaram carro e éguas.

E a deusa benévola me acolheu, e com a sua mão a minha mão direita tomou,
e assim começou a falar, dizendo-me:
‘Ó jovem, companheiro de imortais boleeiras, tu, que chegas conduzido pelas éguas à nossa morada, alegra-te, pois não foi infausto o destino que te fez percorrer este caminho (de fato ele está fora da via seguida pelos homens), mas a lei divina e a justiça.

É preciso que tu tudo aprendas:
o sólido coração da bem redonda Verdade
e as opiniões dos mortais, nas quais não há verdadeira certeza.
E, no entanto, também isso aprenderás: como as coisas que parecem deviam verdadeiramente ser, sendo todas em todos os sentidos.’

* * * * *

Antes de tudo, porém, creio que se faz mister aqui introduzir uma questão que é indispensável para a compreensão da poética filosófica de Parmênides: sua poesia decorre de um processo da formação do universo grego, sobretudo no que consiste à Educação. Nesse ponto, Parmênides não foge à regra helênica, qual seja, de considerar que a Educação é o princípio por meio do qual o universo grego conserva e transmite para o presente de então e para a posteridade as peculiaridades físicas e espirituais.

Parmênides entende, desde logo e sempre, que o homem, como espécie animal, continua sendo sempre um e a mesma coisa, mas ao mesmo tempo raciocina que somente o Homem (homem/mulher = Uno/Múltiplo) consegue disseminar sua condição de ser social, tendo por base a vontade consciente e a razão. Assim é Parmênides!

E ouso dizer: aos meus olhos é com Parmênides que fica clara a idéia de que a Educação (= Paidéia) tem que ser um processo de construção consciente, mesmo quando, apesar de ou a partir de, se admite que ele seja oriundo da poética homérico-hesiódica, que já trazia a preocupação com a formação do Homem grego por intermédio de um processo educativo. Mas é preciso dizer que as configurações homérico-hesiódicas eram construídas a partir do campo mítico, quero dizer, a Educação era, em síntese, uma dádiva dos deuses. O Ser, para esses poetas era um não-ser de si, ao contrário de Parmênides que inferiu a idéia do Ser de si. Idéia da construção consciente de si. Idéia do pensar a si. Idéia do pensar-se como “sujeito” responsável da categoria do existir – ou seja: do Ser.

E, para se inserir nesse campo ontológico, Parmênides criou o seu método de investigação a partir das categorias Verdade (alétheia) e Opinião (doxa), isto é, para ele era indispensável estabelecer um método dicotômico-dialético, onde, Opinião não passaria de mera crença que se baseia em dados sensíveis e perceptíveis, enquanto que a Verdade era a convicção baseada em argumentações racionais, mesmo quando essas argumentações parecem em total oposição às evidências sensíveis.

* * * * *

Faço aqui um (novo) recorte para introduzir uma nova e ousada questão conceitual. Aos meus olhos é com Parmênides que vislumbramos (também) a essência do Discurso, ou seja, da Retórica, que será utilizada no futuro próximo e posterior.

Os sofistas Protágoras (o mais conhecido dos sofistas, após escrever que não se poderia afirmar que os deuses existem, nem que não existem, foi acusado de sacrilégio, condenado e banido de Athenas) e Górgias (viajou por toda Grécia exercendo com sucesso a arte da retórica; era acompanhado de reconhecida fama de dialético, capaz de cogitar raciocínios irrefutáveis como “nada existe”, sua tese mais célebre), por exemplo, tornaram-se mestres nessa arte, ao ponto de escandalizarem os filósofos da época ao fazer do saber uma profissão, oferecendo aulas (pagas) de retórica e de eloqüência aos jovens da classe dirigente que pretendiam dedicar-se à carreira política.

Esse movimento é de uma importância histórica fenomenal, pois geraria um cosmopolitismo serial do pensamento e da cultura grega, e em especial da filosofia – em prosa ou verso -, impedindo que o saber grego ficasse, pura e tão-somente, nos limites das províncias helênicas. Os filósofos sofistas tinham por metodologia de ensino o princípio da Razão. Isto lhes valera o epíteto de iluministas gregos.

Pois bem, a poética de Parmênides (também) introduz, segundo essa minha observação empírica, o conceito de Verdade no interior do discurso ao propor veemente contestação da corrupção (faço aqui duas observações que não vêm ao caso sua discussão neste artigo: 1º. discordo daqueles que vêm nisso apenas antagonismo; 2º. jamais li qualquer escrito de Marx em que, este, mencionasse, mesmo de longe, o filósofo eleata; contudo, aos meus olhos, no interior do conceito de “Verdade” que Marx busca estabelecer em sua teoria da economia política, está latente o pensamento parmediniano) da verdade pela opinião, isto é, ele criara aí a sua dialética meta-ontológica e sustentara (em minhas palavras) que o Ser é o sentido da Verdade e a Verdade o sentido do Ser. Noutras (minhas) palavras o Ser só “é” quando “é” o Ser.

Assim, no seu discurso poético-filosófico, Parmênides introduz uma tipologia desesperada de necessidade de fazer sentido, de dar sentido, de constituir-se, de impregnar-se da “pura” razão, e então, converte a Verdade na principal figura de linguagem, seja objetiva, seja subjetiva; noutras palavras em Sujeito e em não-Sujeito. É somente por ela (Verdade = Idéia) que estabelecemos enunciados e conceitos. É somente por causa dela que nos insurgimos – ou não – contra ou a favor do dito e do não-dito. É somente por sua representação que criamos as linguagens culturais, sociais, políticas, econômicas, artísticas, poéticas, etc.

Sem o sentido da verdade ou a verdade do sentido pode-se dizer que tudo o mais não existira. Vida não houvera. E se esta (Verdade = Ser) não se dera tudo o mais inexistira. Este é o fundamento axiomático antropomórfico do Ser que “é” e do Ser que “não-é”, mas ao mesmo tempo do “Ser que não-é” e do “não-Ser que é”. Essa é a equação complicada do pensamento parmenidiano. Assim é Parmênides!

E essa equação virá a ser sustentada ou negada com veemência no futuro por uma plêiade de pensadores (sobretudo por Platão) do mundo antigo e do mundo moderno.

Tomando, pois, este axioma como verdadeiro poder-se-á aduzir novos argumentos advenientes – ad valorem – como se fora uma advecção transferencial de um tipo de massa metafísica que se movimenta concretamente em direção a um materialismo não-científico, não-histórico ou historicista, mas metarracional, ou se racionaliza no calor do Logos (saber racional = somente o ser pode ser pensado = Verdade) do locutor e do ouvinte (audiência).

É nisso que compreendo a tentativa desesperada de fazer sentido de Parmênides como práxis constitutiva do real e do não-real, principalmente no caso do discurso da forma (Ser), onde se percebe com mais agudeza essa relação hedonista da verdade como fonte de um determinado tipo de prazer imediato do indivíduo que fala, isto é, do sujeito do discurso verdadeiro.

Pois bem, esses primeiros versos – assim podemos defini-los – são o Prólogo, ou seja, o proêmio, do discurso poético-ontológico e antropomórfico de Parmênides, inserido nessa perspectiva e tentativa desesperada de fazer da Verdade o sentido do Ser. A Verdade é, metaforicamente, uma esfera: homogênea, compacta, única e sempre igual a si mesma. Se tomarmos como verdadeira essa minha conclusão empírica veremos que, na outra ponta, por assim dizer, do lado oposto à verdade, ocorre a Opinião (= Ideologia), que ali se encontra presente dentro de um substrato ideológico (não-verdade = ideologia), mas que pretende desconstruir a verdade para se dar sentido de Verdade (= Ser verdadeiro = Real = Uno).

Mais uma vez chamo atenção para o complicado e hermético pensamento parmenidiano, sobretudo nessa parte do proêmio, onde o autor grego pretende constituir metaforicamente, por definitivo, a Verdade como o Ser verdadeiro e imutável, portanto Absoluto, Uno. E é exatamente deste ponto que surge a idéia do monismo parmenidiano. (Mesmo não sendo o espaço fecundo para se falar a respeito é, contudo, prudente que se diga que essa “idéia” de Parmênides vai dar – ou redundar – de certa maneira no cristianismo que surgirá no futuro).

O complicado jogo de imagens mentais que Parmênides cria para inferir todo seu conceito de Ser é algo que defino, do ponto de vista estético-semântico – refiro-me especialmente a certo tipo de grafismo visual-mental que permite a audiência “n” significados – de uma beleza incomensurável, e está mesmo concentrado dentro do seu rigor metafórico: é homogêneo, compacto, único e sempre igual a si mesmo; noutras palavras, é mono, é um, é único, é absoluto, é uno. Vejamos o que ele se nos apresenta:

“E a deusa benévola me acolheu, e com a sua mão a minha mão direita tomou,
e assim começou a falar, dizendo-me:
‘Ó jovem, companheiro de imortais boleeiras, tu, que chegas conduzido pelas éguas à nossa morada, alegra-te, pois não foi
infausto o destino que te fez percorrer este caminho
(de fato ele está fora da via seguida pelos homens), mas a lei divina e a justiça’.”

Temos, nesta estrofe, uma técnica de criação da imagem abstrata parmenidiana que fica impressa no nosso cérebro como foto, donde se vêm os retalhos de uma construção arquitetônica minuciosamente construída para valorizar mais a forma que o conteúdo do Ser. Essa abstração permênica é primorosíssima! Esse artifício é para construir o significado de outra questão (que veremos com mais vagar à frente): a Verdade com Justiça, pois

“É preciso que tu tudo aprendas:
o sólido coração da bem redonda Verdade
e as opiniões dos mortais, nas quais não há verdadeira certeza.
E, no entanto, também isso aprenderás: como as coisas que parecem deviam verdadeiramente ser, sendo todas em todos
os sentidos”.

E essa “forma” vem (hipoteticamente analisando) da inspiração que recebeu de Homero, Hesíodo e das tradições órficas.

Contudo, podemos concluir que há aqui (também) certa influência pitagórica: a esfera como figura representacional do Ser verdadeiro. Mas, já aqui, devemos parar e auscultar, e imaginar, e perceber, e sentir, e pensar: “Mas não será isso incoerência com o discurso parmenidiano?” Pois é! Assim é Parmênides!

Ele nos forçará – desde logo e desde sempre – a nos imbricarmos com a contradição (Ser e não-Ser/Uno e Múltiplo) entre a Verdade e a Opinião, e dirá mais à frente que nem todos são capazes de atingir a Verdade, ou seja, nem todos irão se constituir em “Ser” (= Sujeito), pois continuarão como “éguas” (opiniões) velozes que servem apenas para abrir os caminhos para as jovens filhas (pensamentos impregnados do saber verdadeiro do Ser) do Sol. Decodifiquemos: poucos se constituirão em “sujeito”, ou, muitos continuarão sendo meros crentes do senso comum, ou seja, niilistas do Ser, sujeitos de senso comum: opinião. Estes são éguas; são conduzidos a lugar nenhum pela opinião que não gera saber e tampouco constrói conteúdo ao Ser, ou seja, é preciso abandonar “as casas da Noite, em direção à luz”, isto é, afastar-se da escuridão do senso comum, da pura opinião; para atingir toda a claridade do Sol, e do dia, isto é, toda Sabedoria.

Mas isso só pode ser alcançado depois de atravessar as portas que dividem os dois caminhos: o caminho da Verdade e o caminho da Opinião.

Enfim, podemos dizer desta primeira parte do proêmio o seguinte: levado num carro em corrida vertiginosa, o herói (não o herói mítico, mas o Ser de si, o homem) percorre um caminho que se situa fora das trilhas originais dos seres humanos comuns que vivem apenas da opinião, noutras palavras, da crença que se baseia em dados sensíveis e perceptíveis, mesmo quando estes parecem certos e evidentes. São as virgens, filhas do Sol, que tomam conta dele em seu percurso para a luz. Abre-se a porta que separa “a estrada do Dia e a estrada da Noite”, e o iniciado chega recebido pela deusa bondosa que o toma pela mão e informa-o de um oráculo duplo: ele saberá tudo da verdade e da crença dos mortais.

Por certo se deve ter em mente a aventura do conhecimento que, para além das normas da experiência corriqueira, realiza-se e se exprime enquanto exprime seu objeto num discurso bem estruturado e corretamente concatenado.

Favorecido assim pela revelação, o herói fica sabendo que existem duas estradas, noutras palavras, dois procedimentos, dois métodos ou dois estilos para o (seu) discurso (= caminho).

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3 opiniões sobre “Artigos”

  1. Estou pasmo!
    Confesso que nem ser o dizer neste instante.
    O professor Nascimento de Moraesfoi um ícone para mim. Se hoje sou poeta… O sou pelo muito que recebi dele, sobretudo o incentivo que nunca me faltou. Ele gostava da minha poesia, muito embora a “remendasse” (como dizia ele), com carinho e afeto didáticos e literários, para torná-la mais crítica e mais audaciosa.
    Tenho em conta que, do muito que sei, veio-me por intermédio de José Nascimento de Moraes Filho.
    Aceite meus pêsames pela morte dele.
    Fraternalmente.
    João Batista do Lago

  2. José. N. M. Neto disse:

    O poeta José N. Moraes Filho (15/07/1922 -21/02/2009) faleceu hoje na cidade de São Luís – Ma aos 86 anos, após uma rápida parada cárdio respiratória às 07:45 no Hospital UDI, S. Luís – centro. O poeta era cardiopata, mas mantinha-se com saúde estável. Hoje em sua residência às 07h00min da manhã ao acordar, sentiu um leve mal estar, sendo encaminhado ao hospital por familiares, faleceu no transcurso. Ao chegar ao hospital, submeteu-se aos procedimentos de rotina…sem retorno…! O velório acontece na sede da Pax União – centro. O enterro ocorrerá dia 22(domingo) às 10h00min da manhã no Cemitério do Gavião (centro). Em conversas familiares (referido por uma das filhas) ele queria morrer sem sofrimentos prolongados, em dia claro, ensolarado e festivo…
    Transcendental, católico, em sua linguagem quântica escreve em seus poemas como concebia vida e morte:

    “a luz projetou-me no infinito
    e cosmovisionou-me até a origem das origens!
    e me vi gerar!… e me vi nascer!..
    – antes dos universos!
    Livre!…Livre!…”

    “… eu não nasci para mim!
    – nasci para a humanidade!…
    eu não nasci para aqui:
    – nasci para o universo!”

    Descanse em Paz poeta!
    Só o fato de ressuscitar a primeira romancista negra do Brasil, foi uma de suas maiores missões neste plano!
    Obrigado J. Batista pela homenagem em vida que prestastes ao poeta com a belíssima “METONÍMIA”!
    Atenciosamente,
    J. N. M. Neto.

  3. me llamo Romina Ines Passaggio googleando mi nombre y apellido aparezco en esta página me dirias en que sección y por que?
    Gracias

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