Cidades Multiculturais (II)
Identidades Culturais
Por João Batista Lago

O artigo anterior, muito embora não intencionado, fixa-se como intróito desta produção imagético-empirista. Penso que ele era necessário para poder, a partir de então, desenvolver toda esta temática: cidades multiculturais, aqui proposta.
Evidentemente que, com o avanço do conhecimento e da informação, tecnologias por certo, – inclusive tecnologia do saber – que se pautaram a partir de Século XVIII com o advento do Iluminismo, têm contribuído para as mudanças estruturais e conjunturais em todos os campos da atividade humana. E com certeza, o impacto dessas mudanças nos campos de governos, governantes e governados foi dos mais estudados até os dias atuais porquê afeta o ator principal desta tragédia: o ser humano, em toda a sua diversidade e busca de identificações culturais.
A construção da identidade – aqui retorno mais uma vez ao sociólogo Manuel Castells – é “o processo de construção de significado com base em um atributo cultural, (…) constituem fontes de significado para os próprios atores, por eles originadas e construídas por meio de um processo de individuação (…) são fontes mais importantes de significados do que papéis, por causa do processo de autoconstrução e individuação que envolvem, (…) organiza-se em torno de uma identidade primária (uma identidade que estrutura as demais) auto-sustentável ao longo do tempo e do espaço”.(4)
É precisamente aqui que se dá o majestoso problema de construção da identidade “da” e “nas” cidades. Por quê, então, isso acontece? Porquê o Príncipe tende a impor sua identidade pessoal, personalista mesmo, monopolista, onde seus, e apenas seus, objetivos são privilegiados, desintegrando, assim, toda cultura identitária; desconstruíndo, pois, outras culturas pessoais, mas com uma forte orientação para o igualitarismo e quaisquer processos de alteridade, ou seja: o reconhecimento do outro, o reconhecimento do diferente.
Ora, esse status quo ou conservadorismo, leva, com certeza, a governos despóticos, autoritários e nunca democráticos, posto que, a democracia (que perpassa hoje por muitos conceitos significantes) implica na construção das diferenças que, per se, é a identidade coletiva onde se estabelece o jogo das tensões culturais, sociais, políticas e econômicas.
Não é, pois, nenhuma exageração, aduzir que os novos prefeitos e todos os gestores – públicos ou privados – devem, ou deveriam, imiscuir-se no saber das cidades para, a partir daí, aprender-a-desaprender-para-aprender-de-novo. Esse modelo é muito pouco utilizado por razões até simplórias, por exemplo: a) falta de conhecimento e informação; b) desejo imanente de construir dominações; c) medo do novo. Surge, aqui, então, um tipo de paradoxo: o multiculturalismo implícito no corpo social é o principal responsável pela ascensão do seu algoz. Aqui surge, em meu entendimento, dúvida epistemológica: seria o multiculturalismo fonte de produção de dominação? Não arriscarei quaisquer respostas a esta hipótese, aqui e agora, por entender que não tenho estudos e pesquisas que me levem à emissão de qualquer tese. O importante mesmo é entender-se que os novos príncipes devem – ou deveriam, no mínimo – procurar compreender suas cidades a partir de uma visão, de um posicionamento, de um discurso e de uma imagem altamente multifacetados, permitindo dessa forma a introdução desses novos conceitos em cada Estado-Local. Sem isso, as tensões que muitas vezes são essenciais para fazer sentido, criar novas identidades e significados, não passam de senso-comum. (CONTINUA)

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