CLAMOR
(Dedicado ao poeta russo Maiakóvisky)
© DE João Batista do Lago
Estranhamente acordo pensando Maiakóvsky!
Coisa estranha!
Ou talvez nem tão estranha assim!
Sinto-o dentro da minha carne
Como alma prenhe de versos inacabados…
Por onde andas, ó grande irmão?
Por que te fostes me deixando tão só?
Sinto tua presença nos meus versos
Eles são tão angustiados quanto os teus:
“Levantei-me como um atleta,
levei-o como um acrobata,
como se levam os candidatos ao comício,
como nas aldeias se toca a rebate
nos dias de incêndio.
Clamava:
“Aqui está, aqui! Tomai-o!”
Quando este corpanzil se punha a uivar,
as donas
disparando
pelo pó, pelo barro ou pela neve,
como um foguete fugiam de mim.
- “Para nós, algo um tanto menor,
algo assim como um tango…”
Não posso levá-lo
e carrego meu fardo.
Quero arremessá-lo fora
e sei, não o farei.
Os arcos de minhas costelas não resistem.
Sob a pressão
range a caixa torácica.”
Eis-me, aqui, personagem da tua poética
Carregando o meu velho fardo:
Agonia que não me transcende
Que não me permite arremessá-lo
Para além da minha caixa torácica
A pressão de me viver é tanta e quanta
Tanto e quanto é o desejo de me arremessar
No vazio da eternidade profana
Onde poderíamos fazer um poema universal
Próprio do mundo imaterial, mas sem os valores espirituais das seitas
Garbo, assim, ó grande irmão
Nas fileiras de homens sem hoste. Sem coração.
De homens condenados a inanição
De gentes que rangem entre costelas
A falta do emprego que lhe garanta o pão
(- “Para nós, algo um tanto menor,
algo assim como um tango…”)