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Escrito por joaopoetadobrasil em Abril 26, 2008
APAGOGIA
© DE João Batista do Lago
Ora a minha solidão
No vazio inerte das igrejas
Busca encontrar na pedra sagrada
A hóstia já sangrada
Pelo vício da palavra.
O verbo está velho e cansado
Não mais atinge a essencialidade
A alma revoltada cancela o oratório
Feito de silêncios:
A pia batismal é seca e rachada.
Procura o confessionário perfeito
Contudo não encontra ouvidos atentos:
Ficaram surdos com a procissão dos gritos
Que soam das cavernas mais torpes
Ecos solenes que vagam nos tempos do Ser.
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Escrito por joaopoetadobrasil em Abril 22, 2008
O Fim do Homem
© DE João Batista do Lago
Finda o Homem!
E finda na sua essencialidade
Quando atinge a capacidade
Do excesso…
E quando atinge a incapacidade
Da falta…
Finda pois, assim,
O Homem.
Nada mais há por Ser
Já que tudo existe no não-Ser.
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Escrito por joaopoetadobrasil em Abril 5, 2008
Veleja(dor)
© (DE João Batista do Lago)
sempre sempre
venho volto solto
no fato dos atos
sinto sinto sinto
desacatos velhacos
ser desprendido
rugindo vazio
calafrio
alma alma
nunca calma
depois da calma
gritos dores
silêncio
vazio…
velo velo
veleiro
sem leme
sem navegador
carregas dor
só dor
lamento do vento
sustento do ser
que não quer ser
ser ser ser
faca de dois gumes:
direito esquerdo esquerdo direito
mar de estrumes…
navego ego
cego cego cego
nau de loucos
mortos dos meus cemitérios
condenados todos
loucos loucos loucos
velejam rezas
procissões desejos
pesco versos inconfessos
diversos dispersos
mares de peixes perdidos
sepulcro do ser
ser não-ser ser
nasceres mal-resolvidos…
findo fim enfim
mal-resolvido:
ser não-ser ser não-ser
dizer o quê?
viver morrer:
não-ser ser não-ser ser
ondas sem volume
não-ser ser do lume
topo de águas
volume de mágoas
ser-me não-ser-me
navegante navegador navegado
singrante singrador singrado
mar sujeito desprendido
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Escrito por joaopoetadobrasil em Março 23, 2008
Compreendidade
© DE João Batista do Lago
Disse-o a todos um dia na eterna juventude
Quanto e tanto amo-te pela vida afora
Entretanto, tu, jamais a saberias
Fostes só silêncio! Não sei o que dizer agora
Amo-te, assim… Assim, eternamente
Amo-te por toda vida só em mim
Jamais pude ter-te junto ao peito solenemente
Falar-te do fogo que me queima a alma em paixão
Ebulição tamanha rasgando as veias das minhas emoções
Dilacerados os meus pensares estão
Agora, passado tanto e quanto tempo
Vejo: resta-me de tanto amor apenas solidão
Mas se pudesse dizer-te agora o quanto a amo
Faria deste meu ocaso uma eterna declaração
Diria: sou mais leve agora nesta juventude de ancião
Sou-o mais sábio silenciosamente em mim
Compreendo, pois, o teu eterno silêncio
Mar revolto que me banha o ser sem tormento
Sou-o eterno na eternidade do silêncio do tempo
Compreendido desde a primeira paixão ao último amor
Sou-o, sim, a compreensão do silêncio por toda vida só em mim
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Curitiba/2008
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Escrito por joaopoetadobrasil em Março 22, 2008
OUTONAL© DE João Batista do Lago
As minhas folhas caducas
Começam a desfolhar-me
É chegada a hora de virar planta seca
Preciso desnudar-me
Amarelar-me
Avermelhar-me
Tenho que fechar os poros
Das poucas folhas que se me teimam ornar
Desambiguado na nordestinação
Tornar-me seco feito chão rachado
Ainda que a morte seja meu presente
Preciso reter nas minhas entranhas
Sustentar nas minhas raízes - e na minha mente -
A água da vida que, totalmente,
Gerará no futuro novas primaveras
Que se há de transformarem em novos frutos…
E novas sementes
Preciso desfolhar-me
Dessas folhas verdes, caducas
Promover o mimetismo do meu ser
Só assim poderei sobreviver nesta selva de pedras
Onde não há árvores floridas - e nem Homens! -
Onde a falta de oxigenação me perecerá
De toda água da vida
De toda primavera florida
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Curitiba - Paraná - Brasil
20 de março de 2008
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Escrito por joaopoetadobrasil em Fevereiro 22, 2008
Poema Louco
© DE João Batista do Lago
Durante todo esse tempo
tenho procurado alcançar
um não-sei-quê de divinal
tenho andado atarefado
tropeçando nos meus ais
acordes da canção de uma só nota
venho dos velhos mundos
sem nunca saber do novo
sou filho do moderno
sem a essência do passado
Sou cigano
vagabundo deste mundo
inconfesso
de mim nada sei
nem se sorri
nem se chorei
apelei ao meu sacrário
nele ser guardado
tornei-me mostruário
dessa vida miserável
agora meus velhos ontens
choram a insensatez de meus hojes
Já não existem cristais
que possam quebrar meus olhares
já os feriram tanto
nas sextavadas noites de luares
de negras nuvens
nem mesmo sonhos brilham
diante do meu pranto
Se vago tanto
Inexistente
oro como vagabundo penitente
tento encontrar o inascido
do que só em mim se há gerado
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Escrito por joaopoetadobrasil em Fevereiro 16, 2008
Velório
© De João Batista do Lago
No meio da sala velo minh’alma
Que me olha com dentes escancarados
Abrigada nos quatro cantos do mundo
Donde sorri das minhas dores
E qual punhal que sangra ventos
Rasga o meu profundo nada
Donde as vísceras jorram todo escarro
Da hóstia nunca sagrada do homem puro
“És nada!” – grita a alma pois então morta –
Nasceste do miserável sagrado sem Deus.
Como há-de me querer velar como eterno
Se tens apenas teu féretro como única posse?”
E lá do meio da sala onde velo minh’alma
Nada posso fazer para alcançá-la…
E ela se esgarça zombeteira em cada gargalhada
Enquanto eu no meio da sala tramo matá-la
E assim me dano feito cão vagabundo
Que nem mesmo a lepra de Lázaro tem para a lamber
Já que sou única testemunha deste infeliz velório
Da minh’alma que se me sorrir à-toa
[…]
No meio da sala velo minh’alma que aos poucos se afasta…
E de mim voa.
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Escrito por joaopoetadobrasil em Fevereiro 9, 2008
Do Tempo e do Ser
(Para Henrique Sousa e Ashera)
© De João Batista do Lago
Está-se aproximando o Tempo do regresso
é preciso retornar aos caminhos
juntar cacos do Ser espalhados por aí.
É preciso juntar os pedaços dos olhares
deixados nos Tempos de miseráveis dores
e transformá-los em Ser: buquê de flores.
É preciso alinhar os pensamentos
abandonados pelos caminhos dos lamentos
resgatar o espírito do Ser sem tormentos.
É preciso sentir o pulsar do coração
ouví-lo em silêncio como quem faz oração
ao Ser que corre nas veias de toda geração.
É preciso dar-se as mãos sem pejo de amá-las
juntar os afagos deixados ao Tempo nas velhas estradas
perdidos pelos caminhos dum Ser de mágoas.
É preciso reinventar os passos das caminhadas
fazer deles o Tempo de um novo Ser
pisar com os pés de rosas os espinhos do alvorecer.
Enfim…
Está-se aproximando o Tempo do regresso
é urgente tirar de suas entranhas velhas companhias
deixar florescer em sua plenitude toda virtude do Ser.
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Escrito por joaopoetadobrasil em Fevereiro 9, 2008
Minha Solidão
De João Batista do Lago
Carrego como massa da minha ossatura
a leveza interna do meu espelho
guardado no mais puro sacrário da minh’alma.
É de lá que vem minha hóstia
- seja sagrada; seja maldita -
mas a tomo como alimento de toda vida.
Ah, solidão! Solidão que de mim cria
universos de representações sonâmbulas
contigo levas às almas minha imagem de alegria.
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Escrito por joaopoetadobrasil em Fevereiro 4, 2008
CICLO
© De João Batista do Lago
Mato-me quando findo dia
Mato-me quando findo noite
E neste ciclo de me morrer
Nasço na morte do dia
Nasço na morte da noite
Nascer do dia! Nascer da noite!
E de cada morrer-me
E de cada nascer-me
Espero o tempo da semente
Que me há na eternidade
Dum espírito superior
__________
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