Dialética da sarjeta
© DE João Batista do Lago
As palavras estão nas sarjetas
Escorrem fazendo pequenas ondas
Olas que se confundem em si mesmas
Num breve instante onde o tempo
Disseca o vilipêndio dos discursos
Eivados do niilismo de todas as gentes
Quantas elucubrações prestadas
Na divina ceia dos que calam (e)
Não se assemelham na fala
Que veem das poses dos discípulos
Instalados nos púlpitos dos poderosos
Bem-aventurados do verbo-nada
Há que se juntar cada palavra
Arrastada pela lama que corre nas veias das cidades
Já transformadas em antros de sacerdotes podres
Que uivam versículos num latido frenético dos mercados
Onde um só deus assassina santos e demônios
Para consumi-los como hóstia do deus-mercado
Há que juntá-las para a criação única do obreiro
Para que se possa em procissão tributá-la ao oleiro
Sustento de luzes que não se apagam com quaisquer lamas
Nem se arrastam como cobras d’águas
Vilipendiando a palavra com o doce da maçã (ou)
Com o mel de promessas vãs

Olá caro poeta João Batista do Lago, saudações! De profunda sapiência – Dialética da Sarjeta – puxa a fórceps das trevas para a luz de um sol iluminado com fecundo saber-pensar capaz de fazer medrar helianthus anus girassóis. De escorreito alinhavo, o poeta cerziu de modo conciso uma diagnose sobre um tema que é visto e debatido de diferentes formas a partir da corrente filosófica que a emprega. Senão vejamos: Se Platão define dialética como o método de assimilar idéias pessoais com as universais. Aristóteles a define como a lógica daquilo que pode ocorrer. Se Kant define dialética como a lógica da aparência, da ilusão. Hegel a define como um movimento que transpõe contradições. Já Karl Marx e Engels definem dialéticos como o movimento que transpões contradições utilizando a materialidade.
“Se outrora o animismo havia dotado as coisas de alma, agora, com a conversão do esclarecimento em aparato tecnológico, o industrial ismo leva a retificação das almas”… O preço da dominação tal como argumentam “não é meramente a alienação dos homens com relação aos objetos dominados; com a coisificação do espírito, as próprias relações dos homens foram enfeitiçadas, inclusive as relações de cada indivíduo consigo mesmo…” assim, concebe o pensamento filosófico de T.W. Adorno e M. Horkheimer.
Parabéns! IProfundo e instigante poeta.
Um fraterno abraço de Manoel Serrão.