ESTÉTICA

28 04 2009

ESTÉTICA

© DE João Batista do Lago

Trazes no ventre
Espermas idolátricos
Da tua insensatez divínica
Produtora de palavras fáceis
Disléxicas…

Retratos da tua imagem
Que enfeitam os salões
Numa valsa única
Onde só os vilões
Merecem a tua simpatia

Quantas são as mentiras
Que vestem tua ossatura
E te fazem bonito
No espelho do teu
Escárnio mais profundo?





GLOBALIZAÇÃO

7 04 2009

GLOBALIZAÇÃO

© DE João Batista do Lago

Do consenso saiu a máxima:
“É preciso globalizar os mercados”.
Daí em diante disseram mais:
“Derrubem tudo…
Todas as barreiras derrubem. Façam cair todos os muros.
Não poderá haver limites para o capital.
Os lucros são mais importantes que homens”.

E assim deu-se a Globalização!
Criou-se para toda nação
um deus-mercado…

Mito sagrado da dominação
Aos poucos foi espalhando pelo mundo
O credo da igreja de Washington
Pecado agora é desobedecer o mercado
Portanto juntem-se todos numa só oração:
Louvai o deus-mercado
Somente ele é capaz de livrar da escravidão…

Quanta enganação deste mandamento!

O miserável povo
No enredo de miseráveis procissões
Vai transferindo dos infernos
Da pobreza…
E da fome
Para os céus das grandes nações
Almas escapeladas
Ungidas pelo fogo dos senhores donos do mundo
Num ritual macabro de miseráveis crucificações…
E nada pode aplacar a fúria do deus-mercado
Que cobra cada vintém
Mesmo daquele que nada mais tem
Para comprar o pão nosso de cada dia
Que alimentaria
O filho seu…

Ó sina das sinas!

Até quando este povo deserdado
Há-de suportar quanta e tanta subjugação?
Até quando!?

Há uma profecia que nasce do espírito das nações vencidas:
“Para vencer a necessidade existe apenas a necessidade de vencê-la”
Este terço precisa ser dobrado no coração de cada fiel
Somente assim
Sob o manto dessa contrição ao Deus puro
Comum e solidário
Todo o povo alcançará o céu





LAVRADOR DE OUTONOS

2 04 2009

LAVRADOR DE OUTONOS

© DE João Batista do Lago

Chegado é o tempo da colheita!
Há muitos frutos para se colherem
Depois dum verão causticante (e)
Antes que o inverno de águas torpes
Carregue para o leito das correntes
Toda beleza das rosas e das flores.

Venho dos campos de terras tombadas
Ardidas e calcinadas por mãos assassinas
Onde se plantaram o fogo do madeiro
Hoje a cruz de cinzas que volatiza a vida
Transformando todos os frutos em carvão
Enferrujando a lavoura e a água e o sal.

Lavrei-me de todas essas rudezas (e)
Diante do altar de todas as plantações
Viscerálgico como carpideira solitária
Fui carpindo uma a uma minhas dores
Plantando em cada semente visionária
A possibilidade de me ser toda floresta.

Todo o fruto da terra que ainda me resta
Colho-o com as mãos duma criança
Para comê-lo com o sabor da esperança
Visceral diante do altar da vida
Como se fora a última hóstia dos mortais
Para queimar o fogo dos dias finais.

Talvez assim – quem sabe! – o fogo pagão
Aprenda a arar a terra de todos os campos
Salvar todas as nascentes de qualquer Jordão
Capaz de banhar a vida com todos os encantos
Gerados do ventre da terra… E ao final
Cantar o terço numa oração de bem-aventurança.