EU SIMBÓLICO

28 02 2009

EU SIMBÓLICO

 

 

© DE João Batista do Lago

 

Resta-me da ossatura a

Carne de todos os símbolos
Perambulando entre os
Apriscos da floresta
Pictórica de muitas moradas
São meus alimentos os
Instintos selvagens dos
Instantes angustiados…
Sou fera rara! Tão rara
Quanto temporais de sonhos
A vida – minha catacumba! -
Encorpa minha alma de espíritos
Hora puros… Outras impuras
Sob o açoite de vergastas
Que me movem em direção aos nadas
Selo com meus símbolos a
Diáspora de todos os povos
Encarcerados nos andaimes dos
Caminhos para Babel:
No final da jornada não há céus
Todos os demônios unem-se
Numa desesperada oração onírica
E entoam hinos sufragantes
E choram choros lamuriantes
- gritos das minhas alcatéias! -
Oh! Sensações de ondas em espirais
Que me fazem vibrar no umbral de
Loucuras santas – tantas e quantas! -
Perdoa o corpo que te abriga as dores
Salva-o dos chicotes das representações
E me revelas o sonho real
Gerado nas profundezas da carne imaterial
É lá onde desejo ser toda Possibilidade dos
Sonhos mais sublimes e perfeitos e
Matizar minhas cores na ossatura do eterno





CAMINHARES

23 02 2009

CAMINHARES

(dedico este poema,
in memoria,
ao poeta
José Nascimento de Moraes Filho,
que faleceu no último dia 21/02/2009)

© de João Batista do Lago

Não me queiras tu indicar-me caminhos,
Todos os traçaste com pés de porcos.
Não. Não queiras tu impor-me teus santos;
Teus cânones – pérolas que brotam das lamas –,
E se instalam no altar da sacristia
Onde se rezam orações profanas ao
Deus dos mercados que te encanta…

“Não, eu não vou por aí”.
– já dissera um poeta Régio –,
Mas tu insistes com ar de vitória
Conquistada com o vintém dos bajuladores
Que tomam tua obra como hóstia sagrada
Para em seguida cagá-la no colo ilustre
Da tua bem-aventurada sapiência burocrática.

Afasta de mim o cálice das canonizações fáceis,
Não me pretendo entre mortos das velhas escolas
De sabedorias guardadas nos armários das velhacarias,
Donde soam vozes e signos dos vampiros
Que sugam a alma do povo trabalhador,
Vilmente esquecido pela tua ânsia de atingir estrelas
Com versos de galanteador.

Não. Não me convides para seguir este teu caminho…
Meus pés não suportariam os mármores da tua igreja!
Por certo me aleijariam… E sangrariam até a morte…
Prefiro o calvário da dor… E da fome… E da miséria,
Que o banquete da pajelança dos curadores e dos ímpios
Versejadores que desfilam na corte da ignomínia;
Que vendem sua alma ao diabo como anjos de sabedoria.

De que me adianta seguir o teu caminho,
Se nele apenas se compraz a reprodução do visível?
Não. Não pretendo seguir o teu caminho.
Prefiro dar visibilidade ao não visível,
Àquilo que se esconde por detrás do teu versejar,
Mesmo que me acuses de incompreensível
Meu desejo é rasgar o verbo até ele sangrar.

Este, sim! Este é o meu caminho.
E nada me fará mudar este destino
– de escrever no pergaminho da vida
a sólida robustez da miséria e da fome,
da insensatez do homem,
do deus perdido no aquário do ser,
do sujeito obra da natureza entre Deus e diabo.





A CONCHA E SUA IMENSIDÃO

21 02 2009

A pérola negra

A pérola negra

A CONCHA E SUA IMENSIDÃO

 © DE João Batista do Lago

 

Da imensidão da concha

Recrio-me da pequenez

Invado minha floresta

À cata do rio mais limpo

Para garimpar a perolo negra

A mais sublime pedra

Gerada pela concha

Que só revela seus segredos

À sua imensa floresta

 

 

No interior da floresta

Guardada pelas águas dum rio livre

A concha jamais aborta suas pérolas

Ela recria-se com tanta imensidão

Deixa de ser pequena habitação

Para se tornar palácio de todas as pérolas

E ser o ventre de toda natureza

No movimento mais sublime da criação

Do molusco perfeito que se arrasta pelo chão

 

 

Assim é a imensidão da minha concha

Quando se lha tem guardada pela floresta e pelo rio

Não há nada mais sublime; e nem divino

Nada maior existe que sua própria dimensão

Pérola e molusco vagam a mesma floresta

E navegam no mesmo rio de águas livres

Rompendo rochedos; furando pedras

Abrindo caminhos com a força do furacão

Rasgando a imensidão da terra para nova habitação

 

 





SONHO

19 02 2009

SONHO

 

© DE João Batista do Lago

 

Ontem sonhei com a minha morte!

Jamais vivi tamanha sensação

Deste lado de cá.

Pena foi só um sonho:

Tristonho, agora me encontro.

Embalsamado pela vida

Que, vai minhas feridas

Ferindo pela eternidade.

Lá, depois de morto,

Toda paz fazia do meu corpo

A aura que me guiava

Por entre arvoredos de felicidades.

Agora,

Choro a infelicidade de

Todas as dores…

Do lado de cá não há arvoredos,

Só os degredos

Guiam minha carruagem

Que não encontra

A porta da passagem

Para a eternidade…

Ah!

Como seria bom

Se a morte me abrandasse

Todas as noites,

Que me morresse num

Abraço de eterna felicidade!

…………………………………

Hoje à noite estarei pronto para a morte.





INTUIÇÕES DO INSTANE I

16 02 2009

Intuições do Instante I

 

© DE João Batista do Lago

 

Canto minha doçura

Serena e leve

Como a brisa

Do mar que me habita

Na insensatez da vida

Querida

Por ser miséria

Que aniquila minha vida

De torpeza alegre[no vazio do q

Não sei dizer

Nem de mim[nem de ti

Amo

Desamo

Bebo

Desbebo

Como

Descomo

...

e assim me vou

como o frete

mal pago

do dízimo

que nunca me alcançou

cobrado

nas latrinas

das igrejas

onde eu-cristo

sou

diária [mente] crucificado





Responses to “A POESIA – De Platão a Ayres Britto”

9 02 2009

Brilhante esta análise de João Batista Gomes do Lago, ilustre poeta, jornalista e cronista maranhense, na qual se mostra inconformado com a simples retransmissão, repetição ipsis literis das palavras do ministro do Supremo Tribunal Ayres de Britto, sem que tenha havido uma digestão de suas palavras.

“Incompetência, indiferença e omissão” não multiplicam, fecundam pensamentos. Como podem os “atores-sujeitos” aos quais se referiu João Batista lerem nas entrelinhas, ressignificarem a frase do Sr. Ministro se lhes falta o conteúdo individual e social de uma paidéia, se a formação dos cidadãos é relegada a segundo plano nas três esferas? Não é de se admirar que faltem argumentos para um comentário crítico, fecundo, multiplicador…

Platão definiu Paidéia como “a essência de toda a verdadeira educação(…), é a que dá ao homem o desejo e a ânsia de se tornar um cidadão perfeito e o ensina a mandar e a obedecer, tendo a justiça como fundamento”.

O que é muito interessante na leitura que João fez das palavras do ministro é a referência a um dos Diálogos de Platão (A República). O juiz, de seu alto posto, ao propor a Poesia, socratiza Platão ao incitar que governem juntos os “poetas” e os “sábios” (para Platão os poetas deveriam ser mantidos à parte do governo, pois como loucos, não se prestavam a tão grande responsabilidade). Ao lado “estável” e inalcançável das idéias platônicas, Ayres propõe a fluidez e o intercâmbio de um Heráclito, quase uma maiêutica a interrogar o status do juiz. Diz para um Platão teórico que ao mais sábio, à Sabedoria deve-se unir a Beleza, a sensibilidade para que se persiga o ideal da Justiça; para que se diga o Direito (a palavra juiz vem do latim iudex, aquele que julga e deriva de ius, direito e dicere, dizer) é urgente e condição necessária a inserção no contexto social, real de cada postulante.

O ministro Ayres, um humanista, é um ardoroso defensor de um pensar dialético da realidade do direito, da prestação jurisdicional justa, imparcial, consciente e célere. São suas as palavras “Não sou ácaro de processo, sou um ser de vida. Abro a janela do Direito para a vida”.

Consciente do papel dos magistrados, da responsabilidade de um bem julgar pessoal e instransferível, da responsabilidade embutida em cada sentença, Ayres vê na jurisprudência um instrumento de reforma sócio-jurídica, donde sua preocupação com a formação dos jovens juízes.

Propõe-lhes que, paralelamente à formação acadêmica, cultivem a sensibilidade (Poesia), ilustrem-se e sonhem também com textos não jurídicos (Romances), mergulhem nas mazelas sociais e conheçam a sociedade (Jornais), tenham consciência do seu papel de significantes – “não vazios” -, como bem disse João (o signo linguístico juiz compõe-se de um significado -um conceito – e um significante – uma imagem acústica ou gráfica).

Em perfeita sintonia com o pensar de Ayres, João propõe, como se o magistrado a falar, que a “superioridade” do pensar “poético” não deve estar associada ao status social ou à arrogância, prepotência demiúrgica dos que se acreditam donos do Direito, ao dizê-lo. É indispensável que a superioridade advenha da formação paidética, essa a única a conceder a licença a ele outorgada pela convicção, pela constatação dos seus pares…

João Batista termina sua análise das palavras do ministro com uma poesia…e que poesia…Como é difícil analisar o pensamento complexo de João! São-nos permitidos apenas alguns recortes devido à profundidade dos termos que insere. Pareceu-me que, nesta poesia, ele colocou no seu cadinho de idéias seu lado filósofo, cercado da mitologia e arquétipos gregos, para expor um profundo desencantamento, uma frustração com aqueles que alçou ao status de deuses…Desce-os do pedestal e ensimesmado, pergunta-se porque os colocou lá…

Tal como os gregos antigos, quando em suas viagens marítimas se aperceberam de que seus seres mitológicos nem existiam, nem habitaram os locais que imaginavam, o poeta João sente que seus “deuses”, por trás da persona, são homens…e se desencanta com eles, por tê-los elevado ao cume do Olimpo que, visto de perto não carrega vestígios arqueológicos de deus nenhum…

O poeta João se apercebe de sua responsabilidade na criação de um deus, um mito perfeito – e por isso, digladiam-se os deuses, cópias humanas de sua imperfeição. Carregam-lhe os traços de imperfeição que seu Criador possui…

O criador de um deus deve alimentá-lo com o alimento que o torna perfeito e esse, o João não tem para ofertar, pois que humano é…Daí, sua angústia em descobrir-se de “espada em riste” a defender abstrações de um nada…

Ao mesmo tempo, o poeta renega esses deuses tão lhe assemelhados que convivem no seu âmago, encarcera-os em seu subconsciente como para lembrar-se do “lado sombra” de si mesmo…E, mais uma vez, como analista de si mesmo, tenta entendê-los e vencê-los com o golpe da razão, e espalha dúvidas ao seu poder com as sementes (diálogos) que planta em si e no outro (o campo seminal).

Termina magistralmente, qual juiz, a comparar a angústia de olhar seus mitos (leia-se dirigentes, governo, homens que mitificamos) ao suplício de Prometeu . Tal qual este,”roubou” dos deuses o “fogo” do discernimento e, viu-lhes o segredo que estava em si mesmo! Por isso, sofre por co-responsabilidade. Mas agora, sacrílego consciente, Édipo às avessas, apodera-se da esperança que guarda Pandora e, é nela que antevê uma promessa de organização. Afinal, na amorficidade do Caos (leia-se na confusão das idéias, na arguição, nos porquês, na crítica, no cair de vendas) está implícita a característica fecundante, criadora…

Como em toda poesia, é impossível interpretar completamente, dissecar o pensamento do poeta. Mesmo este, ao relê-la, nela verá novas nuances que não tinha se apercebido. Esta é uma característica das poesias e dos poetas – serem humanos numa hora e deuses noutra…Para se compreendê-los é preciso ser o mesmo…Sou apenas humana…Leninha

 

Leninha

(Graduada em Medicina Veterinária e Psicologia pela UFU;cursei metade dos cursos de História e Direito… amo estudar…; sou fascinada por pessoas sinceras, que têm a coragem e a leveza de serem elas mesmas…cativam-me olhares transparentes; membro colaborador do Greenpeace e WWF;adoro as músicas e a tradição gaúcha, o samba e a música sertaneja – ambos de raíz; amo falar com o jeito simples das pessoas de Minas…Admiro pessoas fortes, batalhadoras e que “não perdem a ternura…jamais”!)

Fevereiro 8, 2009





CORDEL – A estória de “Zé-meu-filho”…

3 02 2009

A estória de “Zé-meu-filho”, com que nem o diabo pode, caboco do sertão nordestino comedor de peixe-pedra com arroz-de-cuxá e farinha de puba

 

© DE João Batista do Lago

 

êta mundinho escrachado

mundinho do faz-de-conta

por lá não se tem vergonha

de enganar a nação inteira

virou o Congresso cocheira ?

Pelo sim; ou pelo não

êta desgraça brasileira

 

elegeram “Zé-meu-filho” !

vixe maria mãe de deus

enganaram os filhos teus…

Não é “coisa” do demo, não !

pode ser do bita barão:

terecô a noite inteira

mandinga de cumieira

 

das terras do pinheiro

ele veio lento e fagueiro:

primeiro mudou de nome

zé-de-riba num ía pegá

adotou um estrangeiro

pra pudê assim enganar

todo povo brasileiro

 

tava certo “Zé-meu-filho”

disso niguém pode duvidá

engabelou todo mundo

negando ser ribamá

daí atravessou a baía

foi se instalá na capitá

donde sua fama corria

 

moço, bonito, faceiro !

de nome pra ingrês vê

com verve de palavreiro

só num fazia chuvê

o povo então encantado

viu “Zé-meu-filo” crecê

dizendo acabá cum miserê

 

sabia ser bom sofista

chegou a ser comunista

depois foi bossa nova

e quando a casa caiu

e a dita cuja assumiu

abandonou a casa véia

logo traiu tudo e partiu

 

êta menino travesso !

bom de papo e poesia

cantô em prosa e verso

mesmo que controverso

a revolução da burguesia

a ele só importava

manter da croa a chefia

 

matutô… e matutô…

após muita matutação

resolveu o golpe aplicá:

tinha que vestir um fardão

pra lograr os milico

donos da revolução

pra chegá na croa da nação

 

tiro certeiro ele deu:

riu da engabelação

era hora de mais traição

e assim se escafedeu

urdiu a trama sem medo

vendeu a alma pro cão

acabou rei da nação

 

depois de ser coroado

intentou uma revolução

logo o povo descobriu

era tudo uma armação

mas então já era tarde:

saco de gato venceu

tudo que é rato apareceu

 

“Zé-meu-filho” foi caído !

enganou-se o opositor

feito a fênix se alevantô

sacudiu toda poeira

pediu pro pai-de-santo

fazer logo louvação

num tardô: veio a solução

 

agora tá de novo

depois de parir o ovo

da novíssima traição

sofista e prosélito

pr’acabar cum a oposição

dignidade e razão

- palavras soltas ao vento ! -

 

quem mais história quiser

não fale comigo não

pergunte lá pros cão

num me meta nessa não

“Zé-meu-filho” é tinhoso

capaz de invocar o barão

fala dum novo tempo: