ILUMINAÇÃO

31 12 2008

ILUMINAÇÃO

 

© DE João Batista do Lago

 

As visões que eu tive

Foram sonhadas

Em ondas marítimas.

Mas, quando o mar secou

Foram segredadas

No ventre da terra,

Ovário que me gerou.





SALMO DA MODERNIDADE

26 12 2008

SALMO DA MODERNIDADE

 

© DE João Batista do Lago

 

qual Leviatã não é

avant-garde?

 

no cume da montanha social

a dominação do sopé de serras

instala-se num mercado fenomenal!

 

regras e Leis não têm limites!

 

nenhuma, porém, debulha o milho

da esperada liberdade dos mortais,

agora cativados pela ânsia mortal

da pós-modernidade fractal…

 

os Leviatãs não mais precisam

da força para o atingimento do encarceramento!

 

as janelas prendem com suas telas mágicas

todos os exércitos de trabalhadores

– surfistas de ondas fragmentárias! –

nos cárceres-casa sob a dosagem de folhetins

que se lhes prefiguram um final feliz,

no intervalo da ruminação

dum ovo com arroz e feijão,

complemento da cachaça e da lingüiça…

 

entre uma coisa e outra

uma nesga de educação se põe à mesa:

ela será chocada como ovo podre

na linguagem do professor

de parcas misérias,

velhas e esclerosadas,

dum saber de antigas e mesmas dominações

cagadas nas latrinas de jovens mentes…

 

não há mais remédio para a cura!

 

os senhores donos de corpos

– corruptos de bata branca –

assaltam, sem vergonha nenhuma,

as sobras dos vinténs de forças corporais vendidas

nos mercados das abastanças, que

sustentam a dominação das máfias brancas,

tentáculos de polvos de gerações famélicas

enfileiradas na procissão de formóis receituários…

 

nem mesmo a fé produzirá quaisquer curas!

 

enclausurados estão, todos, às desventuras

da oblação dos condenados:

se não pagarem a dizímica dose do deus-mercado,

uno de dominação,

verão suas almas torrarem no fogo dos infernos

pela eternidade dos confins da pós-modernidade

– oração feita de fome e miséria –

no ofertório de hóstias feitas com o trigo e o fermento da indignidade…

 

Qual Leviatã não é

Avant-garde?





CONCERTO PARA SAUDADES

25 12 2008

CONCERTO PARA SAUDADES

 

© DE João Batista do Lago

 

 

Joao Batista do Lago

Joao Batista do Lago

Que harmonia de sons é esta

Que ressoa da minha carne

Se da carne minha

Foram tirados

Pedaços da alma?

A fúnebre alegria de mim

Ser-me da eterna possibilidade

Um movimento do real

Na irrealidade da presença

Onde não-ser é todo o Ser…

Na inércia do vazio profano

Os acordes duma sinfonia assíntota

Não encontram a esfera do meu corpo

Que deseja a Ópera do Encontro

Ou apenas uma valsa para dançar…

Fico-me então com as notas musicálicas

Reverberantes de sonoridades fractais

Na imensa solidão do salão universal

Onde as teclas dum piano cerebral

Produzem sinfonias de saudades…





HOMENAGEM PÓSTUMA À MINHA MÃE: Júlia Lago

20 12 2008

 

Júlia Martins Gomes do Lago

Júlia Martins Gomes do Lago

Carta para D. Júlia

© DE João Batista do Lago

07:15h. Acabas de tomar o trem para a eternidade. Fiquei-me aqui nesta estação parado. Pasmado com esse real verossímil, transformado agora em puríssima realidade. Deixaste-me literalmente só e sozinho. Partistes antes da última despedida porque bem sabias que não a queria. Sabias o quanto abomino as despedidas. Elas são como fábulas: sempre mentirosas ou fantásticas. Até mesmo nisso sabias reconhecer-me!

 

Ainda ontem imaginei um possível milagre: que estaríeis conosco na ceia deste Natal! Ora, nada mais que sutilezas do meu pensamento. Nada mais que uma representação pessoal da minha mente. Sim! Sabia da gravidade imanente da patologia que se te fora imposta. Tinha consciência plena. Mas, ainda assim, pensei naquele milagre!

 

Agora percebo e sinto a real realidade: neste Natal não estarás entre nós, mas vivendo-o na seara da imortalidade. Imortalidade que cultivastes ao longo de 79 anos aqui na terra. Imortalidade que semeastes com o Bem e com a Virtude. Imortalidade dedicada à preservação da tua espécie, onde, amor, Ética e Moral foram, sempre, tuas bandeiras que se desfraldavam a cada passo que dávamos – eu e meus irmãos – em cada direção ao mundo desconhecido.

 

Fico-me aqui calado nesta estação. Atônito! Agora sem eira nem beira. Tonto! À minha frente muitos são os caminhos. Nenhum, contudo, me ocorre segui-lo. Meus pés estão presos ao perplexo deste fenômeno… A estenúmeno, realidade existente na sua mais crível forma pura, ou seja, neste em-si da morte, apenas como “Coisa” percebida, mas não entendida pela cognição do humano…

 

Ocorre-me prognosticar o reencontro na realidade dessa tua (e de meu pai) imortalidade. Ocorre-me de novo ser em-ti gerado. Ocorre-me de novo de ti ser parido. Ocorre-me de novo ser o teu filho… E de novo flagro-me nas teias das representações duma realidade que, jamais, será, de novo, real.

 

Tantas e quantas palavras gostaria de deixar aqui inscritas… De imprimi-las na carne do mundo como se fosse uma ferradura, para que jamais se esqueça da nobreza, da virtude e da dignidade que tanto e quanto primastes…

 

Mas, neste instante, Ó Mãe querida, resta-me apenas um imenso vazio… Um buraco negro que me engole – corpo, alma e espírito. Corpo feito da tua carne. Alma criada da tua natureza. Espírito revelado e gerado pelo Bem, pela Dignidade e pela Virtude que te fizeram Verbo, e que espero me assegurem um naco de toda essa tua cultura.

 

Neste instante, Ó Mãe querida, recebe deste teu filho um beijo neste teu corpo frio, agora estirado sobre a pedra da imolação…

 

E, se porventura não soube dar-te o valor em vida, que pelo menos aceite este meu contrito e solitário pranto, como prova de todo meu carinho, meu afeto, minha paixão e meu amor por ti. Para, além disso, Ó Mãe querida, aceita os meus vários pedidos de perdões jamais ditos… Sempre silenciados – quem sabe! – por força de um orgulho bestial…

 

Obrigado, Ó Mãe querida, pela vida que me destes… Pelo leite que me alimentou… Pelos afagos nas minhas tantas e quantas angústias de noites claras… Pelas palavras de esperanças que sempre brotavam de ti com uma força descomunal…

 

Obrigado, Ó Mãe querida, pela tua santa e eterna bênção.

 

Deste teu filho que carrega de ti toda poesia…

 

João Batista do Lago

Curitiba-Paraná-Brasil

19/dez/2008

* * * * *

 

REVELAÇÃO

 

© DE João Batista do Lago

 

Estou ao seu lado

Tentando uma palavra-mãe

Na mudez do corpo-ovário

Que me fizera

Descendente de Deus

Ou do macaco.

Digo palavras-coisa

Feito máquinas des-humanas

No silêncio do espaço

Entre outras máquinas

Que presumem

Sustentar uma vida.

A máquina não fala

O corpo se cala

E eu me esforço na fala

Brigando com tubos

Que entubam a alma calada

Da mulher que me pariu.

E o homem-deus…

Ou o homem-macaco

Repete baixinho

Que ela precisa vencer

Essa agonia monológica

De sua noite escura.

Sinto então que as trevas

Não se fazem presentes nela

Mas em mim que sou o gerado

Prestes a bezerro desgarrado

Das tetas que me sustentam

Com o único leito da vida.

Seria possível morrer-me

Para que dela fosse possível vida?

Não! Infelizmente não há saída…

Apenas a impotência dum ser

Que espera vencer o medo de perdê-la

Para sempre e toda a eternidade

Nada mais justifica minha presença

Se nela há toda ausência dela.

Estou perdido no labirinto das teias

Tentando deste instante a resposta

Para entender o sangue das veias

Que se esvai e se lava no rim artificial

E retorna ao seu leito normal

Como possível alma matricial.

Ó, como é possível morrer assim?

Esses tais mistérios da vida

Que nada revelam em cada fim

Continuam o desfilar do nada

Na versão suprema de cada ser

Que retornará para a reciclagem.

Ainda assim preferiria a mim

Fosse primeiro que ela…

Minha passagem é tão inútil

Que não me permite tomar este trem

– nele não há poltrona para João-ninguém –

De eternos viajantes da Virtude e do Bem.

Mas, se fores mesmo agora

Terás de mim única promessa:

Tua presença será eterna

E a quantos possíveis for aqui na terra

Dir-se-á de toda tua grandeza

Numa só palavra de revelação: MÃE.