ILUMINAÇÃO
© DE João Batista do Lago
As visões que eu tive
Foram sonhadas
Em ondas marítimas.
Mas, quando o mar secou
Foram segredadas
No ventre da terra,
Ovário que me gerou.
As visões que eu tive
Foram sonhadas
Em ondas marítimas.
Mas, quando o mar secou
Foram segredadas
No ventre da terra,
Ovário que me gerou.
qual Leviatã não é
avant-garde?
no cume da montanha social
a dominação do sopé de serras
instala-se num mercado fenomenal!
regras e Leis não têm limites!
nenhuma, porém, debulha o milho
da esperada liberdade dos mortais,
agora cativados pela ânsia mortal
da pós-modernidade fractal…
os Leviatãs não mais precisam
da força para o atingimento do encarceramento!
as janelas prendem com suas telas mágicas
todos os exércitos de trabalhadores
– surfistas de ondas fragmentárias! –
nos cárceres-casa sob a dosagem de folhetins
que se lhes prefiguram um final feliz,
no intervalo da ruminação
dum ovo com arroz e feijão,
complemento da cachaça e da lingüiça…
entre uma coisa e outra
uma nesga de educação se põe à mesa:
ela será chocada como ovo podre
na linguagem do professor
de parcas misérias,
velhas e esclerosadas,
dum saber de antigas e mesmas dominações
cagadas nas latrinas de jovens mentes…
não há mais remédio para a cura!
os senhores donos de corpos
– corruptos de bata branca –
assaltam, sem vergonha nenhuma,
as sobras dos vinténs de forças corporais vendidas
nos mercados das abastanças, que
sustentam a dominação das máfias brancas,
tentáculos de polvos de gerações famélicas
enfileiradas na procissão de formóis receituários…
nem mesmo a fé produzirá quaisquer curas!
enclausurados estão, todos, às desventuras
da oblação dos condenados:
se não pagarem a dizímica dose do deus-mercado,
uno de dominação,
verão suas almas torrarem no fogo dos infernos
pela eternidade dos confins da pós-modernidade
– oração feita de fome e miséria –
no ofertório de hóstias feitas com o trigo e o fermento da indignidade…
Qual Leviatã não é
Avant-garde?
CONCERTO PARA SAUDADES
© DE João Batista do Lago

Joao Batista do Lago
Que harmonia de sons é esta
Que ressoa da minha carne
Se da carne minha
Foram tirados
Pedaços da alma?
A fúnebre alegria de mim
Ser-me da eterna possibilidade
Um movimento do real
Na irrealidade da presença
Onde não-ser é todo o Ser…
Na inércia do vazio profano
Os acordes duma sinfonia assíntota
Não encontram a esfera do meu corpo
Que deseja a Ópera do Encontro
Ou apenas uma valsa para dançar…
Fico-me então com as notas musicálicas
Reverberantes de sonoridades fractais
Na imensa solidão do salão universal
Onde as teclas dum piano cerebral
Produzem sinfonias de saudades…
07:15h. Acabas de tomar o trem para a eternidade. Fiquei-me aqui nesta estação parado. Pasmado com esse real verossímil, transformado agora em puríssima realidade. Deixaste-me literalmente só e sozinho. Partistes antes da última despedida porque bem sabias que não a queria. Sabias o quanto abomino as despedidas. Elas são como fábulas: sempre mentirosas ou fantásticas. Até mesmo nisso sabias reconhecer-me!
Ainda ontem imaginei um possível milagre: que estaríeis conosco na ceia deste Natal! Ora, nada mais que sutilezas do meu pensamento. Nada mais que uma representação pessoal da minha mente. Sim! Sabia da gravidade imanente da patologia que se te fora imposta. Tinha consciência plena. Mas, ainda assim, pensei naquele milagre!
Agora percebo e sinto a real realidade: neste Natal não estarás entre nós, mas vivendo-o na seara da imortalidade. Imortalidade que cultivastes ao longo de 79 anos aqui na terra. Imortalidade que semeastes com o Bem e com a Virtude. Imortalidade dedicada à preservação da tua espécie, onde, amor, Ética e Moral foram, sempre, tuas bandeiras que se desfraldavam a cada passo que dávamos – eu e meus irmãos – em cada direção ao mundo desconhecido.
Fico-me aqui calado nesta estação. Atônito! Agora sem eira nem beira. Tonto! À minha frente muitos são os caminhos. Nenhum, contudo, me ocorre segui-lo. Meus pés estão presos ao perplexo deste fenômeno… A estenúmeno, realidade existente na sua mais crível forma pura, ou seja, neste em-si da morte, apenas como “Coisa” percebida, mas não entendida pela cognição do humano…
Ocorre-me prognosticar o reencontro na realidade dessa tua (e de meu pai) imortalidade. Ocorre-me de novo ser em-ti gerado. Ocorre-me de novo de ti ser parido. Ocorre-me de novo ser o teu filho… E de novo flagro-me nas teias das representações duma realidade que, jamais, será, de novo, real.
Tantas e quantas palavras gostaria de deixar aqui inscritas… De imprimi-las na carne do mundo como se fosse uma ferradura, para que jamais se esqueça da nobreza, da virtude e da dignidade que tanto e quanto primastes…
Mas, neste instante, Ó Mãe querida, resta-me apenas um imenso vazio… Um buraco negro que me engole – corpo, alma e espírito. Corpo feito da tua carne. Alma criada da tua natureza. Espírito revelado e gerado pelo Bem, pela Dignidade e pela Virtude que te fizeram Verbo, e que espero me assegurem um naco de toda essa tua cultura.
Neste instante, Ó Mãe querida, recebe deste teu filho um beijo neste teu corpo frio, agora estirado sobre a pedra da imolação…
E, se porventura não soube dar-te o valor em vida, que pelo menos aceite este meu contrito e solitário pranto, como prova de todo meu carinho, meu afeto, minha paixão e meu amor por ti. Para, além disso, Ó Mãe querida, aceita os meus vários pedidos de perdões jamais ditos… Sempre silenciados – quem sabe! – por força de um orgulho bestial…
Obrigado, Ó Mãe querida, pela vida que me destes… Pelo leite que me alimentou… Pelos afagos nas minhas tantas e quantas angústias de noites claras… Pelas palavras de esperanças que sempre brotavam de ti com uma força descomunal…
Obrigado, Ó Mãe querida, pela tua santa e eterna bênção.
Deste teu filho que carrega de ti toda poesia…
João Batista do Lago
Curitiba-Paraná-Brasil
19/dez/2008
* * * * *
REVELAÇÃO
© DE João Batista do Lago
Estou ao seu lado
Tentando uma palavra-mãe
Na mudez do corpo-ovário
Que me fizera
Descendente de Deus
Ou do macaco.
Digo palavras-coisa
Feito máquinas des-humanas
No silêncio do espaço
Entre outras máquinas
Que presumem
Sustentar uma vida.
A máquina não fala
O corpo se cala
E eu me esforço na fala
Brigando com tubos
Que entubam a alma calada
Da mulher que me pariu.
E o homem-deus…
Ou o homem-macaco
Repete baixinho
Que ela precisa vencer
Essa agonia monológica
De sua noite escura.
Sinto então que as trevas
Não se fazem presentes nela
Mas em mim que sou o gerado
Prestes a bezerro desgarrado
Das tetas que me sustentam
Com o único leito da vida.
Seria possível morrer-me
Para que dela fosse possível vida?
Não! Infelizmente não há saída…
Apenas a impotência dum ser
Que espera vencer o medo de perdê-la
Para sempre e toda a eternidade
Nada mais justifica minha presença
Se nela há toda ausência dela.
Estou perdido no labirinto das teias
Tentando deste instante a resposta
Para entender o sangue das veias
Que se esvai e se lava no rim artificial
E retorna ao seu leito normal
Como possível alma matricial.
Ó, como é possível morrer assim?
Esses tais mistérios da vida
Que nada revelam em cada fim
Continuam o desfilar do nada
Na versão suprema de cada ser
Que retornará para a reciclagem.
Ainda assim preferiria a mim
Fosse primeiro que ela…
Minha passagem é tão inútil
Que não me permite tomar este trem
– nele não há poltrona para João-ninguém –
De eternos viajantes da Virtude e do Bem.
Mas, se fores mesmo agora
Terás de mim única promessa:
Tua presença será eterna
E a quantos possíveis for aqui na terra
Dir-se-á de toda tua grandeza
Numa só palavra de revelação: MÃE.