O ESPÍRITO [© DE João Batista do Lago]

29 11 2008

O espírito

(para Marconi Caldas, Mário Lincoln e Hélcio Silva)

© DE João Batista do Lago

Ele já tinha sentido muitas coisas!
Tantas e quantas que jamais imaginamos.
Nada o fizera fugir das suas convicções:
elas tinham o cheiro da sua pele,
a tessitura das suas carnes,
os olhares da sua visão,
o verbo das suas orações…
e ouvia como um confessor
o lamento ensurdecedor das ruas da cidade.

Viajor de todas as artérias,
de todas as veias,
sentia o fremir dos sangues ebuliços
das almas cansadas e amargas,
que perambulavam entre dias e noites
nos cemitérios profundos de cada ser,
imerso e solitário, ambulante da cidade
condenada ao amante dos ódios,
e guardada no silêncio dum inferno profundo.

Observatório das vidas e das cidades
ia esgrimindo como spadaccino valente
- inda que sujeito ao golpe fatal -,
golpes certeiros nos corações
das víboras humanas, que rastejam qual serpente,
para furtar o ovo da desesperada esperança
que se lança como alimento aos porões dos injustos,
imortais duma pajelança múndica de bestiais humanos,
com seus caninos à mostra: defensa dos ignorantes.

Indomável e crente da sua labuta
seguia navegando o rio caudaloso do humano.
Invencível ao odor do escárnio e do amor-flagelo
guiava o barco-flagelado entre os açoites
dos chicotes de dias e noites de infernos ancestrais,
que fremiam nos umbrais dos mortais,
carniceiros de-si, em suas peles de pérolas e cristais,
máscaras de corpos pútridos sob os vestais
da branca paz, incapaz do beijo na face que não seja falso.

Nenhum ventre se lho era estranho.
Os conhecia a todos: desde os estéreis aos mais férteis.
E mesmo triste ao prenúncio dos proscritos,
os vigiavam, desde os presépios encarcerados
em-si e já desterrados desde os ancestros da vida.
Pretendera por toda eternidade a salvação
dessa conspurcação gerida,
do futuro pré-verbo que receberia da terra,
sob as luzes da escuridão, toda guarida.

Ainda que sob o pranto de lágrimas de fogo
desfilando sua dor por entre ruas, becos e sarjetas;
ainda que se sabendo mutilado pela incompreensão
pensava atingir as profundezas dos corações,
e saia, a cada novo dia, do lodaçal do humano cada vez mais
consciente de sua celestial condenação:
- “minha espada há-de ferir de morte a corrupção,
nenhum mortal merece tão miserável condenação”.
Ele já tinha sentido todas as coisas!
__________
Curitiba-PR
28/11/08





DEVANEANDO NUMA TARDE DE FINAL DE VERÃO

27 11 2008

DEVANEANDO NUMA TARDE DE FINAL DE VERÃO

(para Eliane Marques)

© DE João Batista do Lago

 

Fim de tarde. Início dum verão.
Mais um verão num fim de tarde
no entardecer duns verões sentimentos
de infinitude na tarde lúgubre
dum verão sem fim de tarde.
Na cabeça rolam pensamentos.
Idéias se avolumam aos tormentos
- umas sobre as outras – e vão
caindo como sólidas águas
jorrantes duma cascata
sem tê-la…
Devaneios.
Sonhos?
Não. Apenas devaneio
no teu corpo neste fim de tarde
desta tarde de verão
gelando meu sexo ao imaginário
de dois corpos
- o meu e o teu -
numa confusão interminável e
infernal de gozos entre gritos
dum prazer…
Devaneio!
- Sonho?
- Não.
Devaneios dum solitário
num fim de tarde qualquer,
dum qualquer verão
onde tua imagem
desce pela cascata do meu corpo
e corre entre todas as veias
me levando a mais pura
ereção dentro do teu corpo
já, porventura, formulado.
Sonho?
Não.
Apenas um devaneio não realizável!

————————-
Curitiba – Paraná
25.nov.2008





APRESENTAÇÃO EM .PPT

25 11 2008




HOMENAGEM – Um anjo na minha janela [para Nelson dos Anjos]

23 11 2008

Um Anjo Na Minha Janela

[para Nelson dos Anjos]

© DE João Batista do Lago

De repente ali estava um anjo!

Instalado estava na menina dos meus olhos;

Na janela do mundo estava um ano negro.

Alegre e jovial

Como solus aos angelus compete.

Ali estava um anjo na minha janela!

Falava da alegria e do desejo da porrada…

Da porrada que faz bem.

Falava da fome como se fora Ninguém

– o Ninguém horaciano –

Dando porrada no olho único do grande Leviatã

Que precisava ter seu olho furado

Para poder enxergar a miséria

Parada nos corpus infantis das periferias.

Ali estava um anjo juntando

Trapos de infâncias condenadas

Compulsoriamente ao internato dos grilhões e dos cárceres

Morada construída para abrigar a molecada

Nascida sem perspectiva da solidariedade.

Ali estava um anjo

Mostrando que a pomba da paz pode ser negra,

Chorando nos sorrisos das palavras alegres

Vomitando o desejo de nocautear a incompetência

Comendo palavra por palavra, nome por nome

Todo distanciamento da falta,

Da necessidade de ver e assistir

Toda aquela gente

Vibrando em cada porrada

Todo sentido da dignidade humana.

Ali estava um anjo nocauteando consciências

Insossamente rezando na missa dos abastados

Verossimilmente manipuladas – todas! –

Demoníacas almas dum mercado sem-alma

Onde os vendilhões dos templos sem amor

Negociam espíritos ainda não gerados

À condenação insofismável das misérias.

 

…………………………………………………………

 

Estava, pois, ali,

Na menina dos meus olhos,

Na janela de todos os mundos,

Um anjo sem-nome…

Um anjo negro…

Um anjo Nelson…

Com as luvas calçadas às mãos,

De punhos cerrados e

Pronto para nocautear a

Incompetência, e a

Ignorância dos

Brancos humanos de

Corpos, almas e espíritos brancos,

Carregando no andor a pomba branca da paz,

Enfileirados na procissão dos

Senhores donos dos mundos.

 

…………………………………………………………

 

Acabou-se a miragem!

Fechei a janela.





PARMÊNIDES DE ELÉIA – O Poeta do Ser

22 11 2008

PARMÊNIDES DE ELÉIA

– O Poeta do Ser

 

© DE João Batista do Lago

 

 

João Batista do Lago

João Batista do Lago

Ao iniciar este artigo devo dar conta da apaixonante atração que sinto pelo universo helênico. Trago em mim a concepção, melhor dizendo, a convicção conceitual que, ainda hoje, “sofremos do mal do mundo arcaico” – o mundo Grego -, da conflituosidade do Ser e do não-Ser, assim como todas as suas conseqüências deletérias, insalubres ou mesmo venenosas para o estudo da ontologia ou da metafísica (ambas definem o estudo do ser em geral).

 

Quando digo “sofremos do mal do mundo arcaico” tenho a nítida intenção de dizer, de inferir, que continuamos “atolados” no pântano das incertezas humanas. Ainda hoje nos perguntamos: O quê é que somos? O quê fazemos aqui (no mundo)? Qual a função e o papel que exercemos? Qual a nossa destinação? Enfim…

Ainda hoje não nos contentamos com quaisquer respostas dadas. Ainda hoje continuamos vasculhando o mais profundo de nossas cavernas na tentativa de nos descobrir, de nos desvendar, de nos desvelar, de nos revelar…

E para isso utilizamos, ao máximo, de nossas faculdades mentais na tentativa de sustentar a superioridade da interpretação racional do mundo e, a negar a veracidade da percepção sensível.

É exatamente neste ponto que Parmênides de Eléia, me atrai, pois, ver, ouvir, escutar, não produz certezas, apenas crenças e opiniões. Vale destacar que, já aqui, ele asseverara que erra quem (como Heráclito, por exemplo) deixara-se enganar pelos sentidos e considerara a realidade em devir, pois a transformação – uma passagem do ser a um não-ser – não é em si pensável: o não-ser não é jamais pensável, não mais do que ver a escuridão (o não-ser da luz) ou escutar o silêncio (o não-ser do som).

Neste artigo – insisto – pretendo debruçar-me sobre uma das figuras arcaicas que mais me chamam atenção no universo helênico: Parmênides de Eléia, a quem defino não como um Filósofo – pura e tão-somente -, mas como um Poeta filosófico, portanto, o Poeta do Ser.

É neste poeta eleata que encontramos, ‘primeira e conscientemente’, a origem do pensamento racional e, ainda, é com ele que vislumbramos a elaboração do método. Ouso afirmar, por inferição empírica, que, Descartes e Shakespeare, para ficar apenas nestes dois exemplos, dele se utilizaram. René Descartes é considerado, universalmente, o “pai” da filosofia moderna e, William Shakespeare é considerado, universalmente, o “pai” do teatro moderno. Em Descartes encontramos a máxima conhecida de todos: “Penso: logo existo”. Em Shakespeare encontramos o aforismo: “Ser ou não-Ser, eis a questão”.

Ora, não é, pois, o ser e o não-ser, por excelência, o tema fundamental da poética [discurso] Parmenidiana? Pois sim!

Podemos dizer assim – e disso falam os filósofos, historiadores, críticos e comentadores do passado e do presente -, sem medo de cometer nenhum erro, que o filho de Eléia era de uma grandeza perturbadora. O rigor de suas argumentações e a profundidade de suas análises levaram Platão a defini-lo como “venerando” e “terrível”. Mas não só isso, o filósofo de Atenas – Platão – viu-se obrigado a dedicar um diálogo específico – o Parmênides – ao filho de Eléia; reconhecê-lo como pai espiritual e confessar que ao discordar de algumas reflexões parmenidianas cometeria uma tipologia de “parricídio”.

Fica clara, assim, a imensa admiração que nutro por este poeta-filósofo (e de resto pelo universo grego) que, infelizmente, e apesar dos inúmeros estudos, pesquisas, escavações histórico-arqueológicas, nos legou, da sua obra, tão-somente 154 versos do poema filosófico Sobre a Natureza. Deste poema proponho, neste artigo, as leituras interpretativas dos versos abaixo, nos quais se discutem Verdade e Opinião como fontes estruturantes para a construção do ser e do não-ser, ou, segundo o meu olhar: para a construção do sujeito.

 

VIAGEM EM DIREÇÃO À VERDADE

– A travessia da ignorância em direção ao saber

 

Nas suas investigações filosóficas Parmênides impusera-se, uma questão até então (hipótese de muitos historiadores) não formulada de maneira tão racional: a busca do conhecimento do que “é” Verdade e do que “é” Opinião. Ele fugira, assim, da visão puramente mítica, religiosa ou teológico-teleológica – muito embora utilizara como campo metafórico o abstracionismo dêitico-mítico tão comum naqueles tempos arcaicos – para inferir a racionalidade da sua abordagem poético-filosófica.

É toda essa densidade simbólica introjetada (e abstraída) no pensamento parmenidiano que cria dificuldades de interpretação do poema, sobretudo na parte primeira quando nos remete à metáfora da viagem. Vejamos:

 

As éguas que me levam até onde meu desejo quer chegar me acompanharam, após me conduzirem e me colocarem no caminho que diz muitas coisas,

que pertence à divindade e que conduz o homem que sabe a todos os lugares.

Para lá fui levado.

 

De fato, para lá me levaram as sagazes éguas, tirando meu carro,

e as jovens a indicar o caminho.

O eixo do meão soltava um silvo agudo, incandescendo-se (porque premido entre dois rotantes, círculos de um lado e de outro),

enquanto apressavam o passo, ao me acompanhar, as jovens Filhas do Sol,

após deixar as casas da Noite, em direção à luz, retirando com as mãos os véus da cabeça.

 

Lá está a porta das veredas da Noite e do Dia,

tendo nos dois extremos uma arquitrave e um umbral de pedra;

e a porta, erguida no éter, é fechada por grandes batentes,

dos quais a Justiça, que muito pune, tem as chaves que abrem e fecham.

 

As jovens, então, dirigem-lhe suaves palavras,

e sutilmente a persuadem a que os ferrolhos

sem tardar removessem da porta. E logo esta, ao se abrir,

dos batentes fez uma vasta abertura, fazendo girar

nos gonzos, em sentido inverso, os brônzeos umbrais

ajustados com pregos e com ombreiras. Logo, por lá, através da porta,

direto para a estrada mestra, as jovens levaram carro e éguas.

 

E a deusa benévola me acolheu, e com a sua mão a minha mão direita tomou,

e assim começou a falar, dizendo-me:

“Ó jovem, companheiro de imortais boleeiras, tu, que chegas conduzido pelas éguas à nossa morada, alegra-te, pois não foi infausto o destino que te fez percorrer este caminho

(de fato ele está fora da via seguida pelos homens), mas a lei divina e a justiça”.

 

“É preciso que tu tudo aprendas:

o sólido coração da bem redonda Verdade

e as opiniões dos mortais, nas quais não há verdadeira certeza.

E, no entanto, também isso aprenderás: como as coisas que parecem deviam verdadeiramente ser, sendo todas em todos os sentidos”.

 

Antes de tudo, porém, isto é, antes de definitivamente aventurar-me na análise do poema do eleata, creio que se faz mister aqui introduzir uma questão que é indispensável para a compreensão da poética filosófica de Parmênides: sua poesia decorre de um processo da formação do universo grego, sobretudo no que consiste à Educação, fundamental para o estabelecimento do conceito grego de Paidéia.

Nesse ponto, Parmênides não foge à regra helênica, qual seja, de considerar que a educação é o princípio por meio do qual o universo grego conserva e transmite para o presente (de) então e para a posteridade as peculiaridades físicas e espirituais do sujeito grego.

Parmênides entende, desde logo e sempre, que o homem, como espécie animal, continua sendo sempre “um” e a mesma coisa, mas ao mesmo tempo raciocina que somente o Homem consegue disseminar sua condição de ser social, tendo por base a vontade consciente e a razão. Assim é Parmênides!

E ouso dizer: aos meus olhos é com Parmênides que fica clara a idéia de que a Educação tem que ser um processo de construção consciente, mesmo quando, apesar de ou a partir de, admitimos que ele fosse oriundo da poética homérico-hesiódica, que já trouxera a preocupação com a formação do Homem grego, a Paidéia, por intermédio de um processo educativo. Mas é preciso dizer que as configurações homérico-hesiódicas eram construídas a partir do campo mítico, quero dizer, a Educação era, em síntese, uma dádiva dos deuses. Desse pensamento parmênico, ouso inferir, Platão teria se utilizado para discutir com Glauco e Adimanto a construção da sua cidade utópica, na República, por intermédio dos discursos do ‘seu Sócrates’, principalmente nos livro II, III, V e X.

O Ser, para esses poetas – Homero e Hesíodo – era um não-ser de si, ao contrário de Parmênides que inferiu a idéia do Ser de si. Idéia da construção consciente de si. Idéia do pensar a si. Idéia do pensar-se como “sujeito” (do discurso) responsável da categoria do existir – ou seja: do Ser. Idéia, afinal, do Antropocentrismo.

E, para se inserir nesse campo ontológico, Parmênides, criara sua metodologia de investigação a partir de duas categorias: Verdade (alétheia) e Opinião (doxa), isto é, para ele era indispensável estabelecer um método dicotômico, onde, Opinião não passaria de mera crença que se baseia em dados sensíveis e perceptíveis, enquanto que a Verdade era a convicção baseada em argumentações racionais, mesmo quando essas argumentações parecem em total oposição às evidências sensíveis. Aqui, chamo atenção mais uma vez para a República de Platão, ou melhor, para sua utópica cidade. Nesta, poetas como Homero e Hesíodo não deveriam fazer parte da polis, pois, eram construtores de uma tipológica não-verdade, ou seja, eram “indignos”, posto que, “imitadores da verdade”. 

 

* * *

 

Faço aqui um (novo) recorte para introduzir uma nova e ousada questão conceitual. Aos meus olhos é com Parmênides que vislumbramos (também) a essência do Discurso e da Retórica, que serão utilizados no futuro próximo e posterior. Os sofistas Protágoras (o mais conhecido dos sofistas, após escrever que não se poderia afirmar que os deuses existem nem que não existem, foi acusado de sacrilégio, condenado e banido de Atenas) e Górgias (viajou por toda Grécia exercendo com sucesso a arte da retórica; era acompanhado de reconhecida fama de dialético, capaz de cogitar raciocínios irrefutáveis como “nada existe”, sua tese mais célebre), por exemplo, tornaram-se mestres nessa arte, a ponto de escandalizarem os filósofos da época ao fazer do saber uma profissão, oferecendo aulas (pagas) de retórica e de eloqüência aos jovens da classe dirigente que pretendiam dedicar-se à carreira política.

Mas, ao mesmo tempo, é preciso inferir que o movimento sofista é duma importância histórica fenomenal, pois geraria um cosmopolitismo serial do pensamento e da cultura grega, e em especial da filosofia – em prosa ou verso -, impedindo que o saber grego ficasse, pura e tão-somente, nos limites das províncias helênicas. Os filósofos sofistas tinham por metodologia de ensino o princípio da Razão. Isto lhes valera o epíteto de iluministas gregos.

Pois bem, a poética de Parmênides (também) introduz segundo essa minha observação empírica, o conceito de Verdade no interior do discurso ao propor veemente contestação da corrupção (discordo daqueles que vêm nisso apenas antagonismo) da verdade pela opinião, isto é, ele criara aí a sua dialética meta-ontológica e sustentara (em minhas palavras) que o Ser é o sentido da Verdade e a Verdade o sentido do Ser. Ou seja, o Ser só “é” quando “é” o Ser.

Assim, no seu discurso poético-filosófico, Parmênides introduz uma tipologia desesperada da necessidade de fazer sentido, de dar sentido, de constituir-se, de impregnar-se da “pura” razão, e então, converte a Verdade na principal figura de linguagem, seja objetiva, seja subjetiva; noutras palavras em Sujeito e em não-Sujeito do seu discurso poético-filosófico. É somente por ela – a Verdade – que estabelecemos enunciados e conceitos. É somente por causa dela que nos insurgimos – ou não – contra ou a favor do dito e do não-dito, e do interdito. São somente por sua representação que criamos as linguagens culturais, sociais, políticas, econômicas, artísticas, poéticas…, Etc.

Sem o sentido da verdade ou a verdade do sentido pode-se dizer que tudo o mais não existira. Vida não houvera. E se esta (verdade = ser) não se dera tudo o mais inexistira. Este é o fundamento axiomático antropomórfico do Ser que “é” e do Ser que “não-é”; mas ao mesmo tempo do “Ser que não-é” e do “não-Ser que é”. Essa é a equação complicada do pensamento parmenidiano. Eis a equação! E essa equação virá a ser sustentada ou negada com veemência no futuro por uma plêiade de pensadores – sobretudo por Platão – do mundo antigo, do mundo contemporâneo e do mundo moderno.

Tomando, pois, este axioma como verdadeiro poder-se-á aduzir novos argumentos advenientes – ad valorem – como se fora uma advecção transferencial de um tipo de massa metafísica que se movimenta concretamente em direção a um materialismo não-científico, não-histórico ou historicista, mas metarracional, ou se racionaliza no calor do Logos (saber racional = somente o ser pode ser pensado = Verdade) do locutor e do ouvinte (audiência).

É nisso que compreendo a tentativa desesperada de fazer sentido de Parmênides como práxis constitutiva do real e do não-real, principalmente no caso do discurso da forma (Ser), onde se percebe com mais agudeza essa relação hedonista da verdade como fonte de um determinado tipo de prazer imediato do indivíduo que fala, isto é, do sujeito do discurso verdadeiro, real.

Os primeiros versos de Sobre a Natureza – poder-se-á inferir – são o Prólogo do discurso poético ontológico e antropomórfico de Parmênides, inserido nessa perspectiva a tentativa desesperada de fazer da Verdade o sentido do Ser. A verdade é, metaforicamente falando, uma esfera: homogênea, compacta, única e sempre igual a si mesma. A verdade não pode ser pensada como um corpo oval. Ela é, necessariamente, para o eleata, um corpo redondo… E tudo o que estiver fora dessa imagem não é verdadeiro. Seria, no caso do discurso parmenidiano, uma representação, ou seja, uma imitação da verdade, isto é, uma opinião. E sendo apenas opinião não faz sentido.

Se tomarmos como verdadeira essa minha conclusão empírica veremos que, na outra ponta, por assim dizer, do lado oposto à verdade, ocorre a opinião, que ali se encontra presente dentro de um substrato ideológico (não-verdade), mas que pretende desconstruir a verdade para se dar sentido de verdade. Mais uma vez chamo atenção para o complicado e hermético pensamento parmenidiano, sobretudo nessa parte do poema, onde o autor grego pretende constituir metaforicamente, por definitivo, a verdade como o Ser verdadeiro e imutável, portanto Absoluto, Uno. E é exatamente deste ponto que surge a idéia do monismo parmenidiano.

O complicado jogo de imagens mentais que Parmênides cria para inferir todo o seu conceito de Ser é algo que defino, do ponto de vista estético-semântico – refiro-me especialmente a certo tipo de grafismo visual que permite a audiência “n” significados – de uma beleza incomensurável e está mesmo concentrado dentro do seu rigor meta didático: é homogêneo, compacto, único e sempre igual a si mesmo; noutras palavras, é mono, é um, é único, é absoluto. Portanto a Verdade É.

Leiamos (novamente) o que ele se nos apresenta:

 

E a deusa benévola me acolheu, e com a sua mão a minha mão direita tomou,

e assim começou a falar, dizendo-me:

“Ó jovem, companheiro de imortais boleeiras, tu, que chegas conduzido pelas éguas à nossa morada, alegra-te, pois não foi infausto o destino que te fez percorrer este caminho

(de fato ele está fora da via seguida pelos homens), mas a lei divina e a justiça”.

 

Temos, nesta estrofe, uma técnica de criação da imagem abstrato-metafórica parmenidiana que se fixa impressa no nosso cérebro como foto, donde se vêm os retalhos de uma construção arquitetônica minuciosamente elaborada para valorizar mais a forma que o conteúdo do Ser.

 

“Ó jovem, companheiro de imortais boleeiras, tu, que chegas conduzido pelas éguas à nossa morada, alegra-te, pois não foi infausto o destino que te fez percorrer este caminho…”

 

Essa abstração metafórica permenidiana é primorosíssima! Esse artifício é para construir o significado-significante doutra questão (que veremos com mais vagar à frente): a Verdade com Justiça, pois,

 

“É preciso que tu tudo aprendas:

o sólido coração da bem redonda Verdade

e as opiniões dos mortais, nas quais não há verdadeira certeza.

E, no entanto, também isso aprenderás: como as coisas que parecem deviam verdadeiramente ser, sendo todas em todos os sentidos”.

 

E essa “forma” vem da inspiração que recebeu de Homero, Hesíodo e das tradições órficas. Contudo, poder-se-á concluir que há aqui (também) certa influência pitagórica: a esfera como figura representacional do Ser verdadeiro. Mas, já aqui, devemos parar para auscultar, imaginar, perceber, sentir e pensar. E, já aqui, implica perguntar: não seria isso incoerência com o discurso parmenidiano?

Pois é! Assim é Parmênides!

Ele nos forçará – desde logo e desde sempre – a nos imbricarmos com a contradição (Ser e não-Ser) entre a Verdade e a Opinião, e dirá mais à frente que nem todos são capazes de atingir a verdade, ou seja, nem todos irão constituir-se em “Ser”, pois continuarão como “homens de duas cabeças” (crentes, sensitivos, perceptivos).

 

“É necessário dizer e pensar que o ser é: de fato, o ser é,

o nada não é: te exorto a que consideres isso.

E, portanto, desse caminho de busca te conservo distante,

Mas, depois, também daquele sobre o qual os mortais que nada sabem seguem vagando, homens de duas cabeças:

De fato, é a incerteza que ao seu peito conduz uma desatinada mente.

 

Estes são arrastados,

Surdos e cegos ao mesmo tempo,

Estupefatos, raça de homens sem juízo,

Para os quais ser e não-ser são considerados a mesma coisa

E a não-mesma-coisa; e, portanto, para todas as coisas, há um caminho que é reversível…”

 

Decodifiquemos: poucos se constituirão em “sujeito”, ou, muitos continuarão sendo meros crentes do senso comum, ou seja, niilistas do Ser. Estes são “homens de duas cabeças”; são conduzidos a lugar nenhum pela opinião que não gera saber e tampouco agrega conteúdo ao Ser, ou seja, é preciso lutar contra o rio de correntezas de meras opiniões, no qual “estes [homens] são arrastados, / surdos e cegos ao mesmo tempo”, como se fora uma “raça de homens sem juízo”, isto é, afastar-se da escuridão do senso comum, da pura opinião; para atingir toda a claridade do Sol, e da luz do dia, ou seja, toda Sabedoria por intermédio do pensamento racional. Mas isso só pode ser alcançado depois de atravessar as portas que dividem os dois caminhos: o caminho da verdade e o caminho da opinião ou “a porta das veredas da Noite e do Dia”.

Enfim, podemos dizer desta primeira parte do poema Sobre a Natureza, de Parmênides, o seguinte: levado num carro em corrida vertiginosa, o herói percorre um caminho que se situa fora das trilhas originais dos seres humanos. São virgens, filhas do Sol, que tomam conta dele em seu percurso para a luz. Abre-se a porta que separa “a estrada do Dia e a estrada da Noite”, e o iniciado chega recebido pela deusa bondosa que o toma pela mão e informa-o de um oráculo duplo: ele saberá tudo da verdade e da crença dos mortais. Por certo se deve ter em mente a aventura do conhecimento que, para além das normas da experiência corriqueira, realiza-se e exprime-se enquanto exprime seu objeto num discurso bem estruturado e corretamente concatenado.

Favorecido assim pela revelação, o herói fica sabendo que existem duas estradas, noutras palavras, dois procedimentos, dois métodos ou dois estilos para o (seu) discurso.


Este texto é, puro e tão somente, a primeira parte deste artigo-ensaio.

O autor é colunista deste site. Escreve semanalmente.





A CEIA [© DE João Batista do Lago]

19 11 2008

A CEIA

 

© DE João Batista do Lago

 

Vindes. Ó criaturas do meu tempo! Vindes.

Vindes e sentai-vos comigo à mesa.

Chegada é a hora de saborear os mortos (e)

Beber o sangue defuntal dos nossos corpos.

Não temeis os sabores do que são vossos

Nenhuma dor será mais doce em vossas bocas

Nenhuma gota de sangue se esgotará…

 

Senteis ao meu lado – lado direito do pai!

E sem medos recebei o pedaço da carne

Matéria que vos ungireis entre anjos e demônios

Hóstia que vos transformareis em sagrados

Não temereis, pois, o beijo do escárnio

Saboreareis no altar das oliveiras

Da oliva mais pura o óleo da vida

 

Porém, ficai atentos, ó convivas deste prato

Comereis de todas as carnes e bebereis de todos os sangues

Contudo, nem mesmo isso vos garantireis a salvação

E quando estiverdes na soleira das tumbas

E quando sentirdes a dor de barriga das sombras

Há-de virdes o teu corpo enterrado

Alimentando todos os vermes da terra

 

Só então percebereis os sabores temperados

Que guardardes nos balaústres de todas as guerras

Para assim cozerdes os corações dos humanos

Só então sabereis da solidariedade defuntada

Da solidão macabra de todas vossas orações:

Tiranias que efetivaríeis entoando cânticos de louvores

Rasgando entre dentes todas as carnes das almas





SALMO DA ANGÚSTIA [© DE João Batista Lago]

18 11 2008

Salmo da Angústia

© DE João Batista Lago

Corpo! Corpo! Corpo!

Infra-estrutura do existir;

dialética dos desejos;



forma da matéria médica;

metafísica da justiça;

igreja de toda semiótica.



Um corpo tão assim:

prenhe de significados (e)

de significantes…



estética da beleza, do amor e da virtude

revela em toda sua vicissitude

o infortúnio duma morada ignota



Ó corpo, único real do existir

corpo que me encorpa a ossatura

num corpo que me mora como casa…



quanto tempo restará da desventura

da poeira concentrada?

Da astúcia dum viver sem ter morada?



Ó corpo!

Corpo que me arrasta pelo espaço (e)

que me tem como leme vagabundo



na proa dum tempo sem sentido

funde esta nau de condenados

no espectro do mar dos desesperados



Não te quero mais sentir,

ó corpo meu… meu corpo – minha casa

Afasta de mim esse cálice



Faz com que meu corpo cale-se

da angústia de todos os desejos…

Faz com que ele alce a taça da virtude





A IDEIA [© DE João Batista do Lago]

17 11 2008

A Ideia

 

 

© DE João Batista do Lago

 

 

Um homem é um hominis

que é um homo

nada mais que homem:

Andrógino.

Um homem é um devir

que poderá ser hominis

nada mais será que homo:

Homem.

Um homem é um sentido

que é um homem

nada mais do que é, nada mais do que será:

Homem – apenas uma ideia.





*METAPHYSICAL DIALOGUE*

14 11 2008

© By João Batista do Lago/Trad.: Heloisa B.P. (Sabina Vassalo),

poeta e escritora portuguesa residente em Bath, Inglaterra.

 

 

Poeta e escritora Heloisa B.P. (Sabina Vassalo) é portuguesa. Atualmente reside na cidade de Bath, Inglaterra. É autora do licro de poesias *DIVAGANDO*, entre outras obras.

Poeta e escritora Heloisa B.P. (Sabina Vassalo) é portuguesa. Atualmente reside na cidade de Bath, Inglaterra. É autora do licro de poesias *DIVAGANDO*, entre outras obras.

The philosopher asked the poet: 

- Which is the nature of life?

- “To exist.”

- Which is the nature of existing?

- “The desire.”

- Which is the nature of the desire?

- “The necessity.”

 

[...]

 

 

Off went the philosopher, ruminating thoughts…

Remained the poet pregnant with verses.





DIÁLOGO METAFÍSICO [© DE João Batista do Lago]

14 11 2008

DIÁLOGO METAFÍSICO

 

© DE João Batista do Lago

 

 

Perguntara o filósofo ao poeta:

- Qual a natureza da vida?

- “O Existir.”

- Qual a natureza do existir?

- “O desejo.”

- Qual a natureza do desejo?

- “A necessidade.”

 

[...]

 

Fora-se o Filósofo ruminando pensamentos…

Ficara-se o Poeta prenhe de versos! 





A CASA [© DE João Batista do Lago]

12 11 2008

A CASA

 

© DE João Batista do Lago

 

Desde sempre

Habitaram-me numa casa…

Numa casa de todos os mundos

Numa casa de todos os seres

A casa não tem porão

Nem sótão a casa tem

É uma casa temporã:

– serôdica e tardia! –

Quando me escondo

A casa sem porão me segrega no ventre

Quando me exponho

A casa sem sótão me pariu e revela

Habitaram-me assim

Numa casa sem porão

Numa casa sem sótão

Numa casa de todos os mundos

Numa casa de todos os seres

Numa casa só de mim:

Espelho!





PLEASED TO MEET YOU!

11 11 2008

Pleased to meet you!

 

© DE João Batista do Lago

 

Pleased to meet you!

Sou filho/a dos mangues

Nascido/a das entranhas das gangues

Feitas de vermes cagados

Pelas douradas bundas

Reformadas por silicones

Comercializadas em cobras

Branca-negra serpente das noites cariocas…

 

Sou prince and pricess dos morros

Cidades dos deserdados

Pilhas de carnes cruas

Vendidas no asfalto branco

Consumo da burguesia

Beauty dos mares do sul

Cassino de gozos múltiplos

Depósito de férias dos absolutos…

 

Sou wonderful: maravilhosa cidade

Lamento de toda miséria

Sustento da família e da mocidade

“We spent the summer at the beach

Para sustentar o turismo sexual

Capaz de enganar a falta da carne

Carne que inexiste na mesa

Branca-negra mesa das noites cariocas…

 

Pleased to meet you!





CLOUDS (NUVENS) [de João Batista do Lago]

9 11 2008

CLOUDS

© by João Batista do Lago

Heloisa B.P.*

 

From my room’s universe 

I can see the Universe’s infinitude!

There, far away, the clouds are dancing

A magnificent “ballet” of nature

Enabling my mind to create

The figure of the loved woman,

Which remained in me as a teenager. 

A scarce moment of phenomenal aesthetic, but 

The wind – jealous and atrocious – banned 

The loved woman from my mind, and

To make me feel even more indignant

It painted in the skies, clouds of monsters, 

Where, before, was the image of the genial Themis,

Now remains – solely – the present reality.

———-

* Tradução para o inglês da poeta Heloisa B.P (Sabina Vassalo) – Bath, Inglaterra.

 

 

Nuvens

© by João Batista do Lago

Do universo do meu quarto

Vejo o infinito universo!

Lá ao longe as nuvens dançam

Num ballet magistral da natureza,

Capaz de criar em minha mente a

Figura da mulher amada que

Ficara quando me fora adolescente.

Instante de estética fenomenal, mas o

Vento – ciumento e atroz! – baniu a

Amada da minha mente, e para me

Indignar ainda mais, pintou nos

Céus nuvens de monstros, onde

Antes era a imagem genial de Themis,

Agora resta – tão-somente! – a realidade presente.





A POESIA ENTRE A REALIDADE E O REAL

7 11 2008

 

A POESIA ENTRE A REALIDADE E O REAL

 

© DE João Batista do Lago

 

João Batista do Lago

João Batista do Lago

Talvez a questão mais complicada para a maioria dos atores da Poesia esteja na complicada equação filosófica de realidade e real. Mesmo aqueles a quem se podem considerar os mais evoluídos são, quando em vez, traídos por essa matemática do pensamento universal. O Poeta, como um pensador do (seu) mundo, isto é, fundamentado nas suas percepções oníricas, intuitivas e sensitivas, não foge a essa regra calculatória. Ele é resultado dessa imbricação fenomênico-escatológica, ou seja, o poeta sempre está a pensar entre dois campos imanentes e latentes na poesia: a Filosofia e a Teologia. Mas isso, contudo, é muitíssimo pouco – ou quase nada mesmo! – compreendido entre os principais agentes da Poesia: poetas, escritores e críticos. Aliás, pode-se mesmo inferir, que são raríssimos os que teriam essa compreendidade. Muitos entendem que, são poetas, somente pelo fato de saberem, habilidosamente, concatenar frases e rimas.

Que se me perdoem os puristas cheios de pruridos de literatura áulica. E que são muitos espalhados por aí afora! Mas o que se vê, e lê, por aí são, para dizer o máximo, uma certa tipologia de prosa poética ou historietas contadas em formas vérsicas. Mas saímos dizendo por aí que esses escritos são Poesias (!), posto que, a sonoridade, a métrica e a rima, ou mesmo nenhuma destas – muitas vezes -, nos agradam e nos elevam a alma e o espírito. É exatamente neste ponto que erramos, ou seja, quando nos deixamos levar e enlevar pelo simplesmente belo ou pela simplória estética musicálica que balança no campo da nossa imaginação palavras, frases e versos condicionados e condicionantes de efeito factível. E quando nos perdemos nessa imaginação criadora, inerente em cada ser humano, por mais humilde que o seja, perdemos a capacidade consciente e ciente de analisar, compreender, sentir, e de, sobretudo, “pensar” a Poesia como uma fonte de águas mais claras que a Filosofia ou a Teologia.

O que ouso, neste ponto, é salientar um posicionamento político, ou seja, dizer com todas as letras que o conjunto de conceitos e práticas que orientam a Poesia não se reduz, nem se traduz, tampouco re-traduz, pura e simplesmente, ao estádio cognoscitivo do pensamento do poeta. Tudo isto não passaria de um paradigma metodológico, isto é, tudo isto não é mais que um obstáculo para o processo consciente e ciente da construção da Poesia. O que afirmo é que, aos meus olhos, a Poesia não pode e não deve ser condicionada somente ao campo da realidade, mas deve, sobremodo, ser criada, ou ser fazida, a partir do campo do real. Realidade é Filosofia; é Teologia. Real é o e-xistente; a práxis do ente no e-xistir do ser, ou seja, é o real do sujeito na sua infra-estrutura. O que afirmo é que, o poeta e a sua poesia são o resultado do pensamento da intuição do seu instante. Ele abstrai duma realidade qualquer a fazedura do seu real: eis aqui o resultado da equação.