BIG BANG

26 09 2008

 

 

BIG BANG

 

 

© DE João Batista do Lago

 

 

Deu-se em mim o big bang

Sou a origem do universo

Diverso

Disperso

Na solitária poeira da explosão

Sou-me, de mim, toda revolução

Desde o meu nada ao meu real

Sou a ordem incriada

Sou divino… Sou profano

Ufano minha loucura:

Sarcófilo viajo

– seja no tempo; seja no espaço –

Diásporo

Origino-me do não-ser

Orgasmo reprodutor de cada ser

Cosmópole que me cumpre ser um em todos

 

 

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Fonte da Ilustração: http://www.outsideinthemovie.com/images/Big-Bang.jpg





TUA NUDEZ

20 09 2008

http://luminescencias.blogspot.com/Estudio%20de%20mujer%20desnuda%20inclinada%20hacia%20atras.jpg

Clair de Lune – Claude Debussy

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TUA NUDEZ

 

© DE João Batista do Lago

 

Tua nudez passeando pela casa

Faz de mim expectador de toda beleza.

 

Teus pés pisam o chão com tanta ternura,

Que chego a sentir ciúme dele!

Passo em passo, pela casa, nas pontas dos dedos,

Revelas o salto alto de um sapato imaginário

Que desfila para a procissão dos meus olhos

Tua sântica imagem corporal.

Quando passas por mim, bela e sensual,

Sinto-me cada vez mais teu devoto

Oblata da liturgia do teu corpo

Fiel adorador da tua beleza

Capaz de pagar todos os dízimos

Ficar a esmo como qualquer mendigo

Só não quero ficar sem o pão da tua sacristia:

Teu corpo, vinho e hóstia, meu alimento.

 

Tua nudez passeando pela casa

Faz de mim expectador de toda pureza.

 

Teus tornozelos carnudos e arredondados

Que pouco a pouco vão sendo revelados

São como prenúncios de desvelos segredados

Véus, como nuvens, descortinam tuas curvas:

Pernas torneadas; serpenteadas de volúpias,

Dobram-me em oração quando me enlaçam!

Dão-me nós inquebrantáveis quando me abraçam

Deixando meu corpo submisso ao suplício

Ternura agônica sem qualquer sacrifício

Vou-me rendendo, aos pouquinhos, como Tântalo

Quando já quase louco quer a bebida e fruto do teu corpo

Insuperável alimento que produz o teu horto

Jardim das Oliveiras de todos os meus gozos

Terra da minha condenação! Sou teu cristo: aceito a crucificação.

 

Tua nudez passeando pela casa

Faz de mim um expectador de toda singeleza.

 

Tuas coxas! Sinfonia do equilíbrio do universo!

Sustentam o sacrário de toda procriação

Guardam e segredam a mais pura flor de lótus

Donde toda espiritualidade nasce em profusão

Tuas coxas! Colunas que sustentam eternidade

Igreja de Lakshmi – a deusa da prosperidade –

Caminho que me conduz ao princípio do ser

Oráculo de raiares de sóis a cada amanhecer.

Venero-te quando me prendes ao teu eixo

Quando me ofereces à flor no mais puro beijo

Quando me pedes, qual zangão, para ungir o teu mel

Quando nos tornamos um no alvéolo sagrado do amor

Quando me tiras do corpo todo amargo do fel

Quando tatuas em mim, do teu gozo, todo odor.

 

Tua nudez passeando pela casa

Faz de mim um expectador de toda clareza.

 

Teus seios! Cristais que emolduram teu busto!

Vênus, por certo, de ti sentiria ciúme

A Zeus trataria de fazer queixume

Ao ver tanta perfeição no teu peito robusto

Teus seios são mais que protuberâncias

Também são fontes de enlaçaduras

Ondas que levam meu sexo às loucuras

Quando nos amamos sem quaisquer discrepâncias

Teus seios subjugam minha boca

Seduzem minha língua à presteza de todo carinho

Arrancando de ti frêmitos e loucos gemidos

Teus seios quando tocam em meu corpo

Dá-me uma vontade louca de nos querermos mortos

Para nos perdermos na eternidade sem sentidos

 

Tua nudez passeando pela casa

Faz de mim um expectador de toda grandeza.

 

Tua boca! Ah, como é quente tua boca!

Ela não precisa de palavras para falar de sentimento

Di-lo, com a força de um beijo, sem qualquer ressentimento

Todo amor mais profundo que, porventura, sufoca

Tua boca me lambe… Me beija… Me come

Me vira do avesso… Me faz ver estrelas… Me instala no céu

Transforma meu corpo num verdadeiro fogaréu

Tua boca me cala… Me fala… Me grita… Me consome…

Ah! Tua boca diz ao meu corpo o instante do gozo

Mas, teimosa insiste e palpita dentro de mim

Regaça minha razão… Floresce minha paixão…

Tua boca grita: “Não! Não paremos agora…

A sinfonia ainda não acabou! Dancemos…

Há tempo, muito tempo ainda para o amor.”

 

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The Julie Cheek Group





PRELÚDIO

18 09 2008

 

PRELÚDIO

 

© DE João Batista do Lago

 

Sei-te senhor da sabedoria

Sei-te ordenador das luzes

Sei-te fonte de toda caloria

 

Sabes tão pouco do meu ódio

Sabes tão pouco da praga que te jogo

Quando surges, a leste, no teu exórdio:

Ladras manhãs que me roubam.

 

Prefiro teu epílogo quando queda no oeste!

 

Neste instante todas luzes brilham

Todas as estrelas cintilam e bailam sob os telhados

Todos os astros se acomodam

 

É quando surge minha aurora:

Desnuda!

Voa em minha direção e me abre os braços

- e as pernas! –

E num só enlaço me leva ao mais profundo dos mundos

Sol de todas as fontes de felicidades…

 

Mesmo que na manhã seguinte renoves teu discurso

- ainda assim –

Aguardarei o poente da tua sabedoria

Donde surgirá em beleza esplêndida

Nua

Carnuda

Desnuda

Trazendo-me todos os louvores e augures

A mais bela amante da minha alegoria…

 

(E cantamos na inteira noite o prelúdio das cigarras!)

 

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Fonte da Ilustração: http://www.clips-poemas.com/imagens/em_noites_top.jpg

 





BUSCA

17 09 2008

BUSCA

(Dedicado a Maria Tereza [mitucha], com todo meu afeto)

 

© DE João Batista do Lago

 

As vozes da minha natureza

Ressoam as melodias dos hinos sânscritos

Que se avolumaram pelos tempos

Agora ressurgem em todos cânticos de meus deuses

Que me moram e de mim fazem igrejas

– ora sagradas, ora malditas! –

Onde procissões de mim(s)

Constroem na profundeza dos meus infernos

A mais rubra torre de pedras que me levam aos céus

Que vergastam minha mente

No silencio do meu mais profundo

Dharma sem deus

Da minha maior profundeza

De me saber-me nada





FRAÇÕES

16 09 2008

 

FRAÇÕES

 

 

 

© DE João Batista do Lago

 

 

A noite está fria

Meus pés estão frios

Meu corpo está frio

Meu cérebro está frio

Meus pensamentos… Congelados!

 

 

Sou um móvel.

Tantas são as gavetas!

Penso abri-las:

Tenho medo.

Há muita desordem…

Não quero limpar nada agora.

Prefiro este caos…

 

 

Sinto medo dos sujeitos que as gavetas guardam!

Não sei se eles são melhores ou piores,

Assim como não sei se sou melhor ou pior.

Acredito mesmo que todos são iguais.

Até mesmo a cor ocre do móvel

Equivale à cor ocre do meu espírito

 

 

Cada gaveta, um sujeito.

Cada sujeito, um segredo.

Cada segredo, um medo.

Cada medo, um eu.

 

 

Não! Hoje não!

Abrirei a gaveta…

Sim! Abrirei…

Mas, somente quando eu voltar.

Somente quando o sol esquentar.

 

 

 

 

 





HOMENAGEM AO POETA JOÃO BATISTA DO LAGO

13 09 2008




ODISSÉIA

12 09 2008

 

Odisséia

 

 

© DE João Batista do Lago

 

 

dois em mim: sou uno.

e quando me refaço: trino!

do Pai nada sei,

do Filho quisera saber,

do Espírito sou tão-só o demônio.

sou espólio da mansão de mim

vergastado pelas paredes do tempo.

poeira só! Pó atritado do vazio

imenso jogado no buraco negro.

minha cruz tem três madeiros:

pai… filho… espírito… 

 

 

Ilustração: http://www.planetaeducacao.com.br/novo/imagens/artigos/odisseia_02.jpg





O SUMO

11 09 2008

O SUMO

 

© DE João Batista do Lago

 

O vazo que se me resta de asco

Já não mais agride o objeto do ser

Pereniza-se num semblante…

A dicotomia do asco e do ser

Juntam-se para um último trago dialético

E assim bebem o vinho do escarro

Sou-me de mim a uva pisada

De entrededos escorregam sucos

Ficam unhas impregnadas de sementes





TRADIÇÃO E RUPTURA: A Lírica Moderna de Nauro Machado

10 09 2008

 

 

 

Desde que ganhei um exemplar deste livro – TRADIÇÃO E RUPTURA: a lírica moderna de Nauro Machado –, que me foi ofertado pelo protagonista do mesmo, o poeta maranhense Nauro Machado, esta é a quinta leitura que acabo de realizar. Leitura e releituras que me renderam significativas notas! Há tempo queria sobre isto falar alguma coisa, mas sempre relegava para o futuro sem me dar conta de que, escrever sobre este livro é uma exigência; mas, ao mesmo tempo, uma operação difícil de executar, pois, o seu autor, Ricardo Leão, se não esgotara o assunto deixara muito pouco por ser dito. A pesquisa feita por Ricardo Leão é de uma profundidade epistemológica insuperável, além do que, a metodologia da sua analítica me soa bem ao espírito e a alma: a fenomenologia, que reduz ao máximo os enfoques psicologistas.

 

Tenho em conta ser o ludovicense Nauro Machado o maior poeta da língua portuguesa brasileira. Maior que seus conterrâneos Sousândrade, Gonçalves Dias ou Ferreira Gullar, por exemplo; maior que seus compatriotas Carlos Drumond de Andrade, Manuel Bandeira ou Affonso Romano de Sant’Anna, por exemplo. Isto não significa dizer que estes não tenham valor literário. Ao contrário: têm-no até demasiadamente. Contudo significa destacar e enfatizar que a poética de Nauro Machado supera quaisquer dos citados. E o livro de Ricardo Leão [aos meus olhos] vem provar exatamente isto.

 

Para além do resgate que faz da obra poética de Nauro Machado, Ricardo Leão restabelece “uma” verdade que, ainda hoje, está escondida sob o domínio de uma aculturação imperativa e imperialista do eixo Rio-São Paulo. Aculturação que produz e reproduz o conceito do colonizador sobre o colonizado, do ponto de vista da literatura brasileira. “Esse trabalho de Ricardo Leão é de significativa importância não só porque representa, para a cena crítica acadêmica e para o leitor da boa poesia, um poeta de larga produção qualificada, como Nauro Machado, mas também porque recoloca a reflexão, um tanto adiada, do fazer poético da contemporaneidade” [grifo meu] – (Valdelino Soares de Oliveira, professor de Teoria Literária da Universidade Estadual Paulista).

 

Ricardo Leão não mediu a extensão do fôlego. Não teve medo. Fez imersão na obra nauriana de tal profundidade que desconheço trabalho idêntico. E digo sem medo de, aqui e agora, fazer qualquer exageração que TRADIÇÃO E RUPTURA: a lírica moderna de Nauro Machado é um livro indispensável para quem quer, honestamente, estudar a literatura brasileira sem apelos de regionalismos ou submisso a uma indústria cultural bajulatória e concentradora de mesmisses que conspurcam a inteligência, o pensamento e as artes literárias daquilo que “eles” chamam de “o interior do Brasil”. Afirmo que qualquer estudo que se realizar no campo da literatura nacional e não se fizer menção a este livro, nada está (ou se considerará) completo, posto que, faltará sempre esta verdade sobre a poética de Nauro Machado.

 

E para finalisar resgato uma questão levantada pelo autor de  TRADIÇÃO E RUPTURA: a lírica moderna de Nauro Machado: “que fato de natureza literária ou não, explica a ausência de consagração absoluta em torno da obras de Nauro?” (p. 224). Ricardo Leão enumera e discorre sobre algumas nuanças para responder

 a esta pergunta. Todas factíveis. Todas prenhes de respostas ainda não dadas. Pessoalmente tenho outras tantas nuanças que poderiam ou podem ser enumeradas (o que não é o caso presente), mas a principal delas [aos meus olhos], não tenho qualquer dúvida, reside no seguinte fato: Nauro Machado jamais baixou a cueca

 

 para o eixo Rio-São Paulo, construtor de mitos de barro… de igrejinhas… de curriolas… Enfim, Nauro Machado, jamais quis sair do seu torrão, da sua São Luis,  da sua Atenas, para integrar os círculos de

 comensais circulatórios e circundantários de uma indústria cultural voltada para si mesma.

 

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FICHA TÉCNICA

 

Martins, Ricardo André Ferreia (Ricardo Leão)

Tradição e Ruptura: a lírica moderna de Nauro Machado / Ricardo André Ferreira Martins (Ricardo Leão. São Luis: Fundação Cultural do Maranhão, 2002.

 

388 pp.

 

Livro impresso pela Indústria Gráfica e Editora LITHOGRAF. End.:  Av. Ferreira Gullar, 40 – São Luis – Maranhão.

Fone: (0xx98) 3235-2082





As Flores da Cidade

7 09 2008

As flores da cidade

 

© DE João Batista do Lago

 

Não me interessa o perfume da flor azul

Prefiro o odor dos vômitos

Nascidos das entranhas mais escuras

Dos ébrios de mim ventriculados

Nos esgotos e nas esquinas das cidades

 

Não me interessa o pensamento enformado

Prefiro o significado do real

Nascido das sarjetas dos horrores

Manifestados pelos mendigos inebriados

Habitantes contumazes das cidades

 

Não me interessa o teu olhar enamorado

Prefiro as putas mundanas e esculhambadas

Vendidas nos supermercados familiares

Estas – sim! – são flores perfumadas (que)

Inebriam meu sexo em direção às cidades

 

Não me interessa a sutileza da tua bondade

Prefiro os canalhas com suas dolorosas verdades

Punhais que rasgam corações de purezas (mas)

Tratam o ser com toda dignidade (e)

Deixam na saliva o sabor do escarro das cidades

 

Enfim… Não me interessa o teu verso belo

Prefiro-os viscerais – das entranhas mesmo! – e brutos

Capazes de me levarem à loucura insana (mas que)

Falam do sujeito em toda sua literaridade

Incrustados nas paredes… ruas… becos… e nas sarjetas das cidades