Abdução

27 08 2008

Abdução

© DE João Batista do Lago

Os olhos do meu quarto
Espreitam o monstro esférico
– Nele há um mistério de deus e diabo –
A begônia trepadeira me sorri
E me pergunto:
- O que será que ela quer?
- Quererá me ornar?
- Quererá me curar?

[...]

Os olhos esféricos me observam!
A begônia é uma matilha de lobas famintas
Seja jarro; seja carne
Ela me espera com olhares de paixão
Não resisto
Corro em sua direção…

(Alma e espírito foram abduzidos!)





Angústia

25 08 2008

Angústia

 

© DE João Batista do Lago

 

calaram-se:

o criador e a criatura!

o verbo não se lhes fora suficiente

para a tripudiagem da carne

que se lhes emanam de almas vagabundas

 

calaram-se:

o criador e a criatura!

agora tristes e insuficientes

perderam o tino a coragem e a vergonha

- não tenham medo de perder a opinião! -

 

os deuses são assim: feitos de ilusão absoluta

não tenham medo de perder santos e anjos

aqui no inferno vos dareis abrigos

aqui podereis espiar vossas miseráveis felicidades

e podereis ter a justa angústia de si

e a certeza da remissão de pecados

 

vinde, pois, criador e criatura

aqui vivereis com seus humanos

aqui sabereis da virtude dos demônios

seres encantados, mas reais profanos

adoradores das imagens sagradas

dos infernos mais profundos do ser

 

vinde, ó criador… ó criatura…

o vinho da poesia nos confortará

nele dissaparemos todas as dores

dele sairemos embriagados

e depois de torturados pelas ressacas da incompetência

haveremos de bebê-lo

e de novo dele renasser plenos de consciência






Expondo as Vísceras

21 08 2008

Expondo as vísceras

 

© DE João Batista do Lago

 

Tenho escrito, muito vagarosamente, uma tese sobre a coisa poética visceralista, aquilo que entendo como sendo poesia visceral; ou seja, a poesia que surge do instinto do instante (G. Bachelard) em toda a sua brutalidade fenomenal; a poesia que insurge contra verdades exatas ou absolutas, produzidas a partir de um lirismo de tipologia cartesiana ou kantiana; a poesia que se inscreve e escreve a política e a história na “carne do mundo”, onde o real se mistura à realidade, subvertendo assim a realidade dada, ajustando a poesia e o poeta ao campo de mundanidade – (Merleau-Ponty).

 

Evidentemente que enfoco tudo a partir de uma abordagem epistemológico-fenomenológico-existencial (se é que assim posso conceituar), partindo sempre de fenômenos imagéticos, noutras palavras, dos desenhos ou das imagens que “o texto poético” causa em mim: sou, assim, um caçador de imagens ou um arqueólogo de sombras existentes nas carnes poéticas. O que quero inferir com esta minha frase é que, não tenho quaisquer preocupações com “campos psicológicos ou psicanalíticos”. Acho-os, em verdade, representações de puro “significantes vazios”.

 

Neste artigo, e de forma extremamente superficial, tentarei demonstrar este arcabouço epistemológico-fenomenológico-existencial, partindo da poética de dois poetas que “caminham” por este espaço: Marilda Confortin e J.B. Vidal. Dela utilizarei a poesia “Hoje Estou Naqueles Dias…”; e dele, a poesia “Ofertório-Dor”. Ah! Como eu gostaria de ter escrito essas duas poesias! E mesmo sem tê-las escrito tenho a “impressão” que elas foram escritas por mim! E mesmo sem tê-las escrito elas estão em mim “encarnadas” com todos os seus campos de “mundanidade”, com todos os seus “pré” e “pós” políticos e históricos, me levando a cada leitura às imagens já registradas, bem assim, à criação de novas imagens a serem criadas. E é tudo que peço aos leitores: que captem as imagens contidas em ambas: Vejamo-las:

 

HOJE ESTOU NAQUELES DIAS…

 

Marilda Confortin

 

Dias em que o corpo
me castiga
por eu ter exercido
o poder divino
de me negar a dar à luz.

Estou naqueles dias
de terra amaldiçoada
que não fecundou
nenhuma semente
dentre as milhares
que foram plantadas.

 

Estou naqueles dias em que choro…
Como quando Ele se arrependeu
de nos ter dado ventres férteis
e inconseqüentes
e chorou,
chorou tanto que seu pranto
afogou todas as pragas que nasceram
nos dias que antecederam
aqueles dias de dilúvio

 

Hoje estou naqueles dias
em que Deus me usa
para abortar a humanidade.
Me deixe chorar, sofrer e sangrar só.

 

OFERTÓRIO-DOR

 

de jb vidal

 

a dor que ofereço não foi provocada

nem apascentada por mim e a solidão

veio com a chuva, c’os raios

com os aneis de saturno, na cauda do meteoro

fez poeira de lágrimas

e instalou-se nesta podridão

 

soube então da dor de parir

e parido fui,

da dor da fome e fome senti

da dor do sangue e o sangue correu

em minha’lma gnóstica

a dor assumiu e sobreviveu

 

quero então oferecer

esta dor maior que o corpo

mais que desprezo e humilhação

mais que guerras e exploração

mais que almas aleijadas

mais que humanos em farrapas degradação

 

ofereço a dor do amor que amei

da partida sem adeus

da saudade sem sentir

da espera inquietante

do futuro irrelevante

da ânsia divina de morrer

 

*****

 

Convido-te agora, caro leitor, para, comigo, construir as imagens que ressaltam destas duas poesias. Mas, antes levantemos uma questão que se me parece indispensável e fundamental para a pintura deste quadro: em que ponto os dois “sujeitos” que falam na poesia cruzam e se entrecruzam nos seus caminhares? Em qual “casa” eles se “encarnam” para construírem o “equilíbrio” para poder deblaterarem suas dores? Qual a cor e a espessura da tinta que ambos utilizam para pintarem seus quadros ou simplesmente “um” quadro? Qual o enunciado dos discursos desses sujeitos? Quais “nuanças” reside entre ambos?

 

Resgatemos, pois, as imagens que ressaltam destas duas poesias: a) o ponto de cruzamento e entrecruzamento dos dois “sujeitos” que falam nas poesias é, exatamente, o ponto da libertação de suas dores. E com que força eles gritam essa libertação! É tanta e quanta que (penso!) nenhum ser humano escapa ou escapará das palavras vérsico-sálmicas de ambos: (Marilda) - Hoje estou naqueles dias/em que Deus me usa/para abortar a humanidade./Me deixe chorar, sofrer e sangrar só. (Vidal) - ofereço a dor do amor que amei/da partida sem adeus/da saudade sem sentir/da espera inquietante/do futuro irrelevante/da ânsia divina de morrer.

 

Há ou haverá sublimação maior que esta, ou seja, em que os dois “sujeitos” que falam nas poesias se oferecem como como “um cristo” oriundo da mundanidade, para “abortar a humanidade (Marilda); da ânsia divina de morrer” (Vidal)? Que imagem (ou imagens?) fenomenal! Só mesmo os poetas conseguem considerar a imaginação como potência maior da natureza humana.

 

Mas continuemos construindo as imagens que nos sugerem os poetas. Consideremos agora a segunda questão: b) em qual “casa” eles se “encarnam” para construírem o “equilíbrio” para poder deblaterarem suas dores? Eis aqui a questão central: antes de ser “jogado no mundo”, somos “abrigados” na “casa”. Ou seja: antes de tudo – de tudo mesmo – somos “encarnados” na mundanidade das casas. Somente a “casa”, e em especial a “casa natal”, nos fornece os elementos essenciais para o processo de aprendizagem e de apreendidade do mundo. Que imagem fenomenal, caro leitor! Ao ponto de me fazer lembrar daAlegoria da Caverna, de Platão (e traçar uma analogia, aqui e agora, sobre isso tornaria este artigo muito extenso). Quem de nós, porventura, por um instante sequer, não já projetou ou projeta a “sua” casa como “campo de concentração de segurança”? Com certeza todos! Mas, qual é a “casa” dos “sujeitos” que falam nas poesias? É a casa primeira: o corpo. É no corpo que habita a poesia. É no corpo que habita o poeta. É no corpo que a poesia é encarnada. É no corpo que o poeta é encarnado.

 

Você, caro leitor, pode até imaginar que eu estou falando de um campo metafórico. Contudo ouso dizer-te: não! Não estou aqui me referindo a metáforas – muito embora ela se configure implicitamente -; mas à existência dos “sujeitos” das poesias que fazem (e dão) sentido; falo da existencialidade; falo do real e da realidade, desse mesmíssimo real que subverte a realidade, para ser a realidade do real: a casa-corpo no seu pleno movimento de formas que surgem a cada instante do fundo de si: (Marilda) – Dias em que o corpo me castiga; (Vidal) – Esta dor maior que o corpo. Que imagens! Que imagens! Fantásticas! Perceberam o movimento dialético dos versos que são, per se, construtores de novas imagens? Senão vejamos: (Marilda) – corpo X castigo; (Vidal) dor X corpo. Quantas imagens surgem na mente a partir dessa dicotomia dialética!

Passemos para a terceira questão proposta por mim: c) qual a cor e a espessura da tinta que ambos utilizam para pintarem seus quadros ou simplesmente “um” quadro? Muito embora fosse prudente falar dos vários quadros que poderiam ser pintados, sugiro que me acompanhem no raciocínio de apenas uma imagem. Os “sujeitos” que falam nas poesias nos sugerem quadros pintados com a cor vermelha em suas “nuanças” várias. Mas aqui podemos ressaltar (também!) que tais “nuanças” não sejam pura e tão-somente matizes figuradas. Não. A cor vermelha que sobressai da imagem que crio é sangue puro… vivo… correndo por todas as veias e saltando por todos os poros para significar uma matiz existencialista, como nos mostra esta estrofe da poesia “Ofertório-dor”, do poeta JB Vidal:

 

soube então da dor de parir

e parido fui,

da dor da fome e fome senti

da dor do sangue e o sangue correu

em minha’lma gnóstica

a dor assumiu e sobreviveu

 

ou como nos diz a poeta Marilda Confortin em sua poesia “Hoje Estou Naqueles Dias…”:

 

Estou naqueles dias em que choro…
Como quando Ele se arrependeu
de nos ter dado ventres férteis
e inconseqüentes
e chorou,
chorou tanto que seu pranto
afogou todas as pragas que nasceram
nos dias que antecederam
aqueles dias de dilúvio

 

Que imagens! Que imagens! Fantásticas imagens! Fenomenais!

São imagens assim que nos remetem à inferição de Gaston Bachelard: “a Filosofia da Poesia (…) deve reconhecer que o ato poético não tem passado, pelo menos um passado próximo ao longo do qual pudéssemos acompanhar sua preparação e seu advento (…). A imagem poética não está sujeita a impulso. Não é o eco de um passado. É antes o inverso: com a explosão de uma imagem, o passado longínquo ressoa de ecos e já não vemos em que profundeza esses ecos vão repercutir e morrer. (…) a imagem poética tem um ser próprio, um dinamismo próprio. (…) a imagem poética terá uma sonoridade de ser. O poeta fala no limiar do ser. (…) a imagem poética é, com efeito, essencialmente variacional. (…) a imagem não tem necessidade de um saber (…) é uma linguagem criança. (…) Nada prepara uma imagem poética: nem a cultura, no modo literário; nem a percepção, no modo psicológico”.

 

Talvez pensando nessas palavras de Gaston Bachelard foi que C.-G. Jung declarara: o interesse desvia-se da obra de arte para se perder no caos inextricável dos antecedentes psicológicos, e o poeta torna-se um caso clínico , um exemplar que porta um número determinado da psychopathia sexualis. Assim, a psicanálise da obra de arte afastou-se do seu objeto, transportou o debate para um âmbito geralmente humano, que não é de forma alguma específico do artista e principalmente não tem importância para a sua arte”.

 

Quanto às duas últimas questões por mim propostas – Qual o enunciado dos discursos desses sujeitos? Quais “nuanças” reside entre ambos? -, caríssimos leitores, se vocês perceberem bem elas se encontram imbricadas no contexto do texto. Transformaram-se, naturalmente, em questões intertextuais.





Minha Casa Era Um Rio [© DE João Batista do Lago]

18 08 2008

A minha casa era um rio de imensidão

Tão grande… tão grande… tão imenso 

Que todos os rios do mundo

Passavam pelo rio da minha casa

O rio da minha casa tinha algo de humano

Todas as noites ele vinha conversar comigo

Contava-me estórias mágicas… fantásticas

Dessas que a gente nunca mais esquece

Eram tantas as lendas que ele contava

E embalado pelas maravilhas eu navegava em suas águas

E nadava todo o percurso do rio que passava em minha casa

E navegava todos os rios que passam pelo rio da minha casa

A minha casa tinha um rio de águas profundas

Mansas, calmas, perenes e cristalinas

Águas que me abraçavam, que me acariciavam

Que me beijavam e que me amavam afetuosamente

O rio da minha casa quando me via triste

Chamava todos os rios do mundo

E dançavam ciranda ao meu redor

Até que vissem de novo um sorriso no meu rosto

Se por ventura chorasse de fome

O rio da minha casa e todos que passavam por ela

Pescavam o peixe mais belo

E me alimentavam até cessar a fome

Quando em noites escuras e sem luares

Noites que nos infestam de fantasmas

O rio da minha casa murmurava uma canção

E trazia com ela as mais belas princesas

Ah! O rio da minha casa não me deixava em solidão

Brigava com papai… ralhava com mamãe

E enchia suas almas de todos os cuidados

E os transformavam em verdadeiros espíritos de proteção

Assim era o rio daquela minha casa

Hoje vivo ao léu na minha caverna

A minha casa que era um rio de felicidade

Agora nada mais é que pântano. É cidade

Quantas saudades tenho daquele rio

De um rio que juntava todos os rios imensos do mundo

Do rio que passava na minha casa

Da minha casa que era o barco da felicidade





Olhar Cinzento [© DE João Batista do Lago]

17 08 2008

Olhar Cinzento

 

 

© DE João Batista do Lago

 

 

e depois de tanta confusão

deram-me descansos os mestre

aí então pude olhar a janela do meu quarto

deu-me a impressão da porta de um cofre

cá dentro eu-segredo me guardo

e do outro lado da janela

até onde meus olhares se vão

não há revelações

lá fora está minha imagem vendo os quintais

e neles as leiras das dores

e os montes de misérias quantas

e tantas… e tantas e quantas

jorrando o pus

dos desesperados

vistos pelos meus olhos de olhares cinzentos

de um dia claro e ensolarado

melhor mesmo é ficar aqui dentro guardado

fechado no meu cofre

comendo palavras

amargas com doce de marmelada

o resto?

É só uma cagada





Artigo: O BEBÊ QUER CHUPETA… DÁDÁÁ!!! [© DE João Batista do Lago]

16 08 2008

SUGIRO QUE LEIAM, ANTES, O ARTIGO DE GERALD THOMAS; AQUI:

http://colunistas.ig.com.br/geraldthomas/2008/07/19/obvio-que-a-arte-esta-morta-nao-passamos-de-impostores-de-renda-cabideiros-de-emprego-marcel-duchamp-o-urinol-que-deixava-o-artesanato-de-pe-em-seu-proprio-mijo/#comment-139441

 

==========

 

O BEBÊ QUER CHUPETA… DÁDÁÁ!!!

 

© DE João Batista do Lago(*)

 

De tudo o que está dito neste artigo, apenas e tão-somente, um parágrafo deve, de fato, ser destacado: “(…) A Arte está MORTA sim. E faz anos que fazemos teatrinho de representação infantil em torno de seu enterro pra não perdermos emprego. Não passamos é de canastrões de última categoria, com a azeitona na ponta do esôfago, segura ali por algum Nexium, Plexium, Sexium ou Mylanta, Maalox, ou anti-ácido (…)”.

 

Digo isso pela semelhança que o parágrafo tem com a constatação nietzschiana de que “deus está morto!” ou, com a constatação foucaultiana de que quem esta morto é o homem! Tanto num quanto noutro caso devemos entender as “constatações” como “um campo” de desconstrução das “verdades absolutas” geralmente se nos imposta pela cultura burguesa, que jamais pretendera, como não pretende, ver estabelecido o campo da dialética do saber.

 

Junte-se, aqui e agora, a inferição do A. do artigo de que a “arte está morta”.  Temos, então, a formação do corpo trínico: deus + homem + arte. Não há como descartar o campo dialético “inato” (e somente neste caso pode-se pressupor uma tipologia de inatismo, pois, tudo o mais é apreendido) em cada parte dessa trindade. Todos são feitos de matérias contrastantes, sobretudo quando se colocam diante de suas verdades particulares a respeito do saber. É exatamente aqui que ocorre o campo dialético, ou seja, sobressai os contrários das verdades implícitas em cada membro desse corpo trínico.

 

Seja Nietzsche, seja Foucault, seja Thomas – resguardadas as dimensões de tempo e espaço, e de “paidéia” – trabalham o conceito de morte partindo, precisamente, da dialética da “negação” específica de cada parte do corpo trínico, como se cada uma dessas partes fosse o todo. Negam essa verdade “absoluta” que o saber burguês sempre pretendera estabelecer. E por uma razão muito simples: deus não há sem o homem e sem sua arte de criador; o homem não há sem seu deus e sua arte de criação; a arte não há sem seus criadores e criaturas. Todas essas partes são, por natureza, subversivas. E são as suas subversões que são responsáveis pela dialética da vida.

 

Assim sendo, quando se diz que o “deus”, o “homem” ou a “arte” estão mortos, quer-se dizer, de fato: é chegado o momento de subverter o caos; de ter a devida coragem de enfrentar a realidade mais que real das super-estruturas partindo do campo das infra-estruturas; é preciso quebrar as correntes que prendem as mentes; é preciso repensar o saber; é preciso rever e reinventar a episteme… Enfim, é preciso dizer que a única fala e linguagem que “deus” e o “homem” têm são as suas “artes”, e conseqüentemente, que a única fala que a “arte” tem são seu “deus” e seu “homem”. Afora isso tudo será decadência, ou seja: o deus “é” decadente, o homem “é” decadente, a arte “é” decadente, isto é: o deus “é” morto, o homem “é” morto, a arte “é” morta.

 

* * * * *

 

Mas há, ainda, uma “coisa” que gostaria de destacar e que não se encontra explicitada no artigo, isto é, “os verdadeiros dadás estão contra DADA”. Esta enunciação foi dita pelo principal “produtor” do Dadaísmo (movimento de artistas plásticos e poetas, surgido em Zurique, em fevereiro de 1916), Tristan Tzara, que inferiu, também, que “Dada não significa nada”, numa reação contra tudo e todos, posto que, o dadaísmo, pretendia-se exterminador, propunha-se desmantelar todos os valores consagrados – fossem quais fossem -, não para construir algo em seu lugar, algo julgado melhor ou utopicamente desejável, mas pelo simples gosto de por abaixo as instituições estabelecidas, as correntes estéticas em moda, a Burguesia, a Psicanálise, a Filosofia, etc.

 

Em verdade, o dadaísmo, jamais passara de uma tipologia do Romantismo idealista; de um modo de agir anarquista; de um Iluminismo tardio. Isto não quer dizer, sob hipóteses quaisquer, que o movimento não produzira resultados convincentes; e um desses resultados fora, exatamente, Marcel Duchamp. Ao mesmo tempo é preciso inferir que o niilismo implícito no dadaísmo foi o mesmo que o levara à derrocada, dando lugar ao Surrealismo entre outros movimentos mais modernos.

 

Assim sendo, aos meus olhos, o presente artigo dá-nos (também) a impressão de querer resgatar o dadaísmo como se fora A ÚNICA EXPRESSÃO DE ARTE verdadeira ou que, NADA, depois dele, tivera, teve ou tem a mínima importância. Este é o ponto burro do artigo! Contudo quero acreditar que seja, em verdade, mais uma “chamada” do autor para o campo de debate, pois, é Gerald Thomas, aos meus olhos, um dos melhores diretores de teatro do Brasil, e quiçá, do mundo. E sabe-o que pode fazer esta “provocação”.

 

Ora, dizer que depois do dadaísmo tudo é lixo, não seria isso querer (re)estabelecer uma “religião” ou uma “verdade absoluta?” Não seria isso um contra-senso ao próprio dadaísmo? Porventura não seria essa “eternização” de Duchamp ou de Freud, etc…, como “heróis”, uma tipologia de mitologização ou fetichismo-academicista da arte? Não seria isso um retorno à arte burocrática da burguesia dominante?

 

Aos meus olhos, esse desejo incubado do “sujeito” que fala no artigo – “sujeito” que não é o autor, segundo minha percepção, e possivelmente seja esta a provocação – como inferiria o próprio Freud -, poderia ser registrado nos anais da literatura psicanalista como um tipo de manifestação de condicionamento reflexo de uma mente que ainda não se despregou da sua infância latente. Quem sabe(?), para ilustrar essa inferição, Freud diria: “- Não é à-toa que esse “sujeito” vive a repetir dádádá… dádááá… dádádá…”.

 

Em seguida ele (Freud, o herói!) explicaria sua tese mais ou menos com essas palavras de psicanalista:

 

“- A onomatopéia (da.http://queremosportugues.multiply.com/da…) infantil implícita na palavra dadaísmo (dada + ismo) revela o campo lúdico-patológico ou a morbidez de saudades recalcadas. Esse “sujeito” (ainda) vive a sentir falta de um elemento de prazer – a chupeta – sem perceber que ela representa a falseabilidade do real ou a falta de experienciação pessoal da realidade amarga da infra-estrutura do presente; esse “sujeito”, possivelmente está com preguiça mórbida ou talvez queira contestar, por contestar, as formas e os valores dominantes da arte atual”. Seria, assim, “uma explicação” de Freud.

 

A arte, assim como a vida, não precisa de heróis ou deuses. Neste ponto concordo com as constatações: “deus está morto” ou “o homem está morto” ou “a arte está morta”. Mas quando consideramos a questão “quem matou deus e/ou o homem e/ou a arte?”, verifica-se que, antes de matá-las, já a tínhamos como mito ou fetiche. Assim sendo deus, homem e arte jamais serão mortos. Mas, se mortos, só o serão por meio da decadência do “homem” como assinalaria o “velho” Nietzsche.

 

———-

 

(*) João Batista do Lago, 58, maranhense de Itapecurumirim, poeta, escritor, teatrólogo, jornalista e pesquisador – E-mail: joaobatistalagoster@gmail.com





Princípio, Meio e Fim

15 08 2008

Princípio, meio e fim

 

© DE João Batista do Lago

 

 

disse-me el diablo:

- rezo diariamente para o deus

peço encarecidamente

contritamente

que me livre de ti

não te o quero aqui no tártaro…

vai de retro

vai

vai

vai

não me corrompas o inferno

não quero o caos administrado

 

 

…então voltei ao sagrado

disse-me ele:

- penas como quiseres

entre céus e terras (e)

procuras teu reino e trono

acima e abaixo do mar já têm donos

 

 

manifesto:

- absurdo

como não ser como eles

como não ter poderes

vou mostrar a ambos

não sou refém da minha ambição

serei maior que os dois

terra terei por redenção

 

 

agora os dois me suplicam

el diablo: – alma alguma me quer agora

acabaram-se os encantos do tártaro…

o sagrado: – deixe-me os anjos e os santos

não os roube…

ambos então se ajoelham:

- poeta, perdoai nossos pecados

vem-nos completar a trindade

nem o uno

nem o outro

sejamos três: alteridade





Poesia do Aliterado

14 08 2008

POESIA DO ALITERADO

 

 

© DE João Batista do Lago

 

 

meu amigo

teu verso (in)criado é reino

linguagem de ausente fala

vasos de flores sobre túmulos

 

 

tua cabeça de burro

tua pela de leão

\o/

vontade tanta – pra quê?

 

 

tuas leiras de frases

tuas montanhas esquizofrênicas

tremeluzir megalomaníaco

esconde sob pele de leão

ouro Equus asinus

 

 

tua crina

dna de escuridões

adorna

denuncia

falencia

caixa de pandora

vontade tanta

esperança tanta

pra quê?

 

 

teu jardim

comercia excremento

dizes de tudo – o tempo todo –

novos tempos

tu regas (com)paixão

teu é catacumba

tua miséria

entoa tua valsa de sorte

 

 

tua vida atoa

teu carnaval difuso

teu desfile de verborreia

não consegue essência do leão

tua eterna perseguição: \o/

 

 

teu pedido

será configurado

grafado

regristrando eternidade

\O/

sob pele de leão

esquecimento

solidão





SEMIÓTICO

10 08 2008

SEMIÓTICO

 

© DE João Batista do Lago

 

Ali, na taberna, dois homens se encontravam!

 

Diante deles: dois copos.

Sentados estavam em mesas diferentes;

Em cada mesa três cadeiras continuavam vazias.

A quarta eles ocupavam!

 

O homem da direita tinha um copo cheio de vinho;

O homem da esquerda um copo cheio de nada.

Ambos olhavam seus copos e seus conteúdos;

Ambos conversavam com seus objetos.

 

Lá pelas tantas os dois resolveram ir embora;

Ficaram para trás os copos vazios…

As mesas vazias…

As cadeiras vazias…

 

[...r...]

 

O homem da esquerda saiu completamente bêbedo: sóbrio!

O homem da direita saiu completamente sóbrio: bêbedo!





A sincronicidade dos “Movimentos” e das “Mutações” na abertura dos jogos olímpicos

8 08 2008

A sincronicidade dos “Movimentos” e das “Mutações” na abertura dos jogos olímpicos

OU

A HISTÓRIA DA CULTURA DO HOMEM

 

© DE João Batista do Lago()

 

 

Mais de duas centenas de nações tiveram, hoje, a oportunidade de assistir, por intermédio da televisão ou por via internet, a abertura dos Jogos Olímpicos, em Pequim, China. Os “olhos” dos cinco continentes (África, América [América do Norte, América Central e América do Sul], Antártida, Eurásia [Europa e Ásia] e Oceania) estão extasiados. A beleza do espetáculo apresentado pelos chineses deixou todos – literalmente todos! – encantados. Maravilhados! Arrebatados.

A performance do espetáculo jamais poderá ser comparada às anteriores e, com certeza, será difícil haver-se superada: não tão-somente pela beleza plástico-midiática, mas (sobretudo!) pelo conteúdo histórico-cultural implícito na abertura desta Olimpíada. Pode-se afirmar, sem medo de cometer erro ou quaisquer tipos de exagerações que, o evento, foi uma majestosa incursão pelo campo da “arqueologia” do conhecimento e do saber. Realizou-se um profundo resgate da História da Cultura do Homem.

Assim como o mundo todo, “eu-sujeito”, na solidão da minha “caverna”, ia aos poucos – e lentamente – sendo abduzido pela fascinante cosmologia do “Oráculo” olímpico chinês. E quanto mais eu-sujeito me aproximava do “I Ching”, ou simplesmente “I”, mais – eu-sujeito – ia ganhando sabedoria, ou seja, eu-sujeito, ia-me desconstruindo ocidentalmente como ave de rapina e me (re)construindo na cosmogenia oriental como sujeito-camaleão: movimento e mutação.

Não sou sinólogo. Não nutro pretensões de estudar profundamente a sinologia; contudo, devo confessar: assim como tantas e quantas outras almas ocidentalescas, eu-indivíduo, cego pela massificante propaganda ideológico-capitalista, sobretudo aquela que restara pós-segunda guerra, sem nem saber por qual motivo, manifestava um certo delírio preconceituoso contra a China e os chineses. Somente a partir deste ano (2008), e em decorrência dos Jogos Olímpicos de Beijing, resolvi dar-me a oportunidade de estudar esta civilização e sua cultura. Quanta sabedoria me ocorreu tomar esta decisão! Sem falsa modéstia: quanto fui sábio! Esta decisão me levou, naturalmente, a um dos mais festejados literatos da humanidade. Seu nome: Confúcio.

É em Confúcio que encontramos as bases lógico-históricas para o atingimento de um saber sobre a cultura chinesa. É com ele que nos deparamos com o I Ching. É com o I Ching que se localiza a base da cultura que se há desenvolvido na China durante milênios. É com os “olhos” de Confúcio que se deu a abertura da Olimpíada de Pequim. É com a Olimpíada que o Estado chinês quer mostrar-se “para” o mundo partindo do seu próprio mundo. É com esta idéia que o “Ninho de Pássaro” se transformou num autêntico Oráculo, ou seja, num sujeito arqueólogo que devastou por definitivo o lixo que se nos impuseram os colonizadores europeus e norte-americanos, que há aproximadamente 200 anos inferem que as culturas orientais são “atrasadas” e “inferiores”. O que assistimos foi a revelação do contrário: foi um ato ecumênico que englobou antiguidade e modernidade. Antiguidade com olhares de futuro. Modernidade sem os apelos da ideologia capitalista caduca. Pode-se, até!, inferir que o que vimos foi “um” modelo de “um” capitalismo moderno de Estado.

Toda essa arqueologia apresentada hoje resgatou do mais profundo “sítio” as mais belas imagens de uma civilização pujantemente rica, altamente desenvolvida, culta e poderosa. Revelou-nos de forma magnífica a origem remota da escrita chinesa, que lha dá base e a sustenta como a escrita em vigência mais antiga do mundo; ao mesmo tempo fez, aos meus olhos, a mais digna representação da história do homem, ou seja, mostrou-nos que a história chinesa começa, já, com o próprio Homem, ali representado pelos “seres voadores” que desciam do céu para ensinarem aos chineses o que eles precisam, de fato, aprenderem para viver: caçar, pescar, fazer o calendário, estruturar as instituições sociais e de governo.

Em síntese: Como afirma Granet, “A vida das aldeias está submetida ao ritmo das estações. No outono e na primavera, realizam-se as assembléias populares reunindo homens e mulheres que se entregam conjuntamente a brincadeiras e orgias: concursos para tirar dos ninhos os ovos das aves migradoras, lutas, perseguições, danças e cantos, colheita de plantas silvestres, batalhas de flores, justas em que se defrontam moças e moços numa dança ritmada por meio de canções improvisadas etc.; comedeiras e bebedeiras encerram tais jogos, enquanto se concluem trocas e vendas, à semelhança da própria feira. Quando o ano agrícola termina, efetuando-se então a volta à aldeia, os homens festejam entre si o fim da colheita; a celebração é feita com torneios de prendas. A estação morta vai começar; é ela inaugurada pela cerimônia do Grande “No” que anuncia a hibernagem dos homens e dos animais; disto participam apenas os homens; há danças com disfarces animalescos, ao som de um timbale de argila, os exorcistas exibem seus talentos, come-se e bebe-se, fazem-se apostas, adormece-se, enfim, na embriaguez, depois de amplas despesas, cabendo aos anciãos a presidência da agitação geral. A festa de Paqa fecha o período ativo que precede imediatamente o inverno; é celebrada pelos velhos da aldeia que, em vestes de luto e com o bastão na mão, convidam os homens a dar início ao retiro, a fim de preparar a renovação de outro ano” (1930/1979).

Porventura não foi a essa simbologia que assistimos?

Mas a busca incessante por modelos efetivos de subsistência é que articulou, nos tempos remotos, as idéias de uma ciência chinesa primitiva que seria re-sistematizada no tempo das Cem Escolas. Isso resplandece, também, na forte atribuição que as técnicas tiveram no desenvolvimento material da civilização, contribuindo para os avanços inúmeros obtidos no campo da metalurgia, cerâmica, trabalho artesanal, fabril, etc. E todas essas conquistas foram alcançadas tendo por raiz os sistemas cosmológicos naturais, que sobreviveram até hoje na forma de teorias elementares sobre o espaço, o corpo e a natureza; “Com a civilização chinesa, chegamos a um panorama do mundo e da ciência diferente, em muitos aspectos, daquele característico do Ocidente. [...] Mas para entender bem suas realizações devemos ter em mente que, desde os tempos mais primitivos, os chineses encaravam o universo como um vasto organismo, do qual o homem e o mundo natural representam apenas uma parte. Esse ponto de vista influenciou profundamente o modo pelo qual eles explicavam os fenômenos naturais; em alguns casos, isso os ajudou a se antecipar ao Ocidente na busca de explicações para muitos fatos; mas, em outros, impediu-os de achar a verdadeira interpretação para o comportamento do mundo. Um segundo fator que também desempenhou papel importante foi a rejeição – ou sua falta de crença – de toda espécie de divindade pessoal onipotente como um poder mais alto a governar o universo.

Os chineses sempre demonstraram um extraordinário senso prático, uma imensa habilidade em aplicar todos os conhecimentos a fins práticos. Entre os povos primitivos, eles eram cientistas práticos par excellence, [...] como veremos claramente, não foi apenas em tecnologia que os chineses mostraram seu pioneirismo; eles tinham alguns pontos de vista científicos que eram muito avançados para a época, embora freqüentemente os formulassem em termos práticos” – (Ronan, 1986).

João Batista do Lago, 58, itapecuruense (MA), é poeta, teatrólogo, escritor, ensaísta e jornalista

08 de agosto de 2008





Palavra

4 08 2008

 

João Batista do Lago

© DE João Batista do Lago

Tolas, fúteis, fáceis, mentirosas e volúveis são as palavras!

Pensam ser o pensamento perfeito de pensamentos sempre imperfeitos

Ilidem do pensamento o pensamento do ser

Numa constante refutação do nada que pensa pensar significados e sons, 

signos e significantes

Puras representações de pensamentos que falam sem palavras de ser

Entes que se apresentam para nada dizerem

Sujeitos que se constroem como Verdades inacabadas do “sim” e do “não”

Versão imperfeita da linguagem essencial

Justaposição do imaginário mnemônico real

Toda “Palavra” é assim fala e linguagem animal