Viva! Viva! Viva! Vida longa aos senadores “Sem-voto”.

31 01 2008

De João Batista do Lago
 
 
Viva! Viva! Viva!
Mil vezes viva!
E viva mais uma vez!
 
Vida longa aos senadores sem votos
Vida sortida aos párias da pátria
Vida feliz a quem nunca fez nada
Vida alegre aos canalhas de gravatas
 
Resta para ti, ó santo povo ignaro…
Entrudo que se vai festejando no Carnaval do nada
Sem saber que entre uma dose de cachaça e um pó de arroz no rosto
Vão-te roubando a dignidade
Enquanto entoas a marcha dos deserdados.
Enquanto sambas tua miserável sorte,
Não percebes que bastam três dias para te levarem
- Por um ano inteiro –
À toda morte.
E sambas!
Sambas fagueiro como brasileiro trigueiro dos cantos dos teus verdugos.
Sambas sem saber que velas tua fome e tua falta de trabalho; teu filho sem escola e tua mulher pedindo esmola pelas esquinas do Brasil.
 
Sambas, ó brasileiros dos canaviais!
Sambas sem saber que todos os teus ideais vão ser furtados nos polpudos salários que irão sustentar a imoralidade dos “Sem-voto”, que se instalam nas mesuras senatoriais.

Sambas, ó letrados de fardas!
Sambas como carrascos que se escondem sob a toga das letras e do direito,
Sentados nas poltronas da inconsciência.

Sambas, ó poetas e trovadores brasileiros!
Sambas sob a inspiração do verso que não traz em si a dignidade da nação, mas sustentas no teu sonhar o verso lírico da alienação.

Sambas, ó trabalhadores, exército de desesperados!
Sambas sem a preocupação de saber que na quarta-feira serás apenas cinza…
E como cinza retornarás à cruz dos desempregados.

Enquanto isso, lá para bandas do planalto
Uma casta se refastela. Ri desbragadamente da tua desgraça. Bebe teu sangue como o mais puro champanhe. Come o teu fígado como o mais saboroso dos caviares.
E embriaga-se com vinho da tua inconsciência.
E dizem-se:
Viva! Viva! Viva!
Mil vezes viva!
E mais uma vez: Viva!

Viva a nação brasileira,
Viva a mulata trigueira,
Viva assim o brasileiro,
Povo manso e trigueiro.
Viva, ó Brasil varonil, viva!
Viva, ó irmão brasileiro,
Brinques o teu Carnaval
Deixai por nossa conta
Tomar em conta este canavial
Fazer do público dinheiro
Nosso eterno carnaval





CORPUS (soneto)

13 01 2008

© De João Batista do Lago

A argila

Carne que perambula

Vermes – e alma - Só tornará calma

Se argila tornar Ser

O barro não morre o corpo

Sedento de espírito vira anti-corpo!

E quando a morte se dera

Na alma do corpo que se fizera

Verás desta vida apenas quimera

Santificada seja a morte que me retorna à vida da terra!

Somente lá estarei concluído

Somente lá jamais serei vencido

Somente lá terei a paz sem guerra





PINGOS DE CHUVA

9 01 2008





SEPULCRO (soneto)

6 01 2008


Licença Creativa Das Terras comuns

SEPULCRO

© De João Batista do Lago

Ainda hoje tive notícias de ti
Soube do teu sepulcro em vida:
Carregas dor de não ser querida.
Pouco falaram, mas eu pressenti!

Toda infelicidade, ó como a senti!
O duro golpe de ser desvalida,
De não ser deusa, mas jóia corroída;
Anestesiada pelo sonho do jaborandi.

Eu que te venho amando por toda vida
Nada posso fazer por mim ou por ti
Nem minha paixão há tanto esquecida

Conseguirá salvar este amor, ó querida!
Viver solitário foi tudo que consegui;
Já nós dois somos nós no olhar da partida.





O DIA EM QUE O CÉU DO ORIENTE CHOROU FOGO

2 01 2008

O DIA EM QUE O CÉU DO ORIENTE CHOROU FOGO(1989)

(Revisto: 2008)

© De João Batista do Lago

Procurei todas as razões para entender as guerras

Nunca encontrei qualquer motivo que as justificassem

É por isso que não as entendo…

É por isso que não as compreendo.

Jamais aceitei a idéia da guerra como recurso para a paz. Jamais!

Nenhuma guerra é capaz de traduzir a paz. Nenhuma!

Todas são evolução da ignomínia do homem. Todas!

Em todas há a obsessão dada do poder e da ganância. Todas!

Não há razões para o fazer da guerra!

Que direitos são esses do Ocidente sobre o Oriente?

Oh, noite das noites!

Noites que se fazem meteoritos de estanho

Noites que se matam as crianças

Sem lhas dar as chances de saber da esperança

Oh, noite das noites!

Não posso cantar-te em meus versos

De ti resta-me o odor do sangue escarlate

Que jorra da terra como ouro negro

E que se compraz perseguir a alma dos mortais

Noite em que balas dançam pelos céus dos esquecidos!

Quem dera fosse essa noite o Apocalipse de João.

Quem dera!

Não teríamos o amanhã para chorar os sete arcanos

O céu não fumegaria o horror das bombas atómicas:

Buuuuuuuuuummmmmmmmmm…

Aqui uma cabeça; ali uma perna; mais adiante um braço…

Diante de mim vejo o corpo do amor no seu último abraço

Viro o rosto para não gravar tamanha desgraça…

Mas cai à minha frente um coração que pulsa: brasa!

Noites que rompem o tempo e se fazem espaço de guerras!

Pilhas de corpos que se amontoam sobre a relva

Corpos que depois de lavados são plantados em covas rasas

Covas que darão árvores daninhas no alvorecer do amanhã

Árvores que produzirão frutos de carnes humanas

Frutos que serão no teatro da vida o prato de predileção

Teatro onde se há-de encenar o ato seguinte da nova guerra

Guerra que consumará a vitória dos senhores donos do mundo

Vitória que será húmus da miserável guerra que renascerá na terra.

Ó, Senhor de todos os céus, será assim eternamente a sina dos mortais!?

Noites de miseráveis guerras! Noites assassinas da Paz!





CÂNTICO INVERSO

1 01 2008

CÂNTICO INVERSO

© De João Batista do Lago

Macacos me mordam!
Vê-se animais sagrando o não-Sagrado
Vê-se animais!
Desconfiados dão-se bênçãos
E sentam-se nos colos de assassinos e ladrões
E contentam-se com a miséria que se lhes nascem
E geram a desgraça do abraço
No afeto do beijo de fel: todo feto
Que se lhes apimentam a língua ferina
Que será comida como troféu

Vê-se animais!
Sim, vê-se animais
Nos arraiais do céu!