MENINAS

26 11 2007

MENINAS

© by João Batista do Lago

Quanta saudade tenho
daqueles tempos de criança
daquelas meninas de trança
brincando na corrente mansa
do rio Itapecuru.

Lembro de toda molecada!
Era um verdadeiro sururu
quando saíamos da escola:
correndo em desabalada
íamos olhar as coxas peladas
das meninas de trança que
banhavam no rio Itapecuru.

Passou o tempo! Passa, enfim, a vida!
Passaram águas; ficaram saudades!
E eu, jaburu sem rio e sem guarida
estou à margem das iniquidades.
As meninas de tranças; coxas peladas,
onde andarão? Será que são amadas?
Que águas lavam aqueles mamilos retesados?

Quanta saudade tenho
daqueles tempos de criança
daquelas meninas de trança
brincando na corrente mansa
do rio Itapecuru.
__________

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HISTÓRIA DE POETA

25 11 2007

HISTÓRIA DE POETA

© by João Batista do Lago

O velho poeta descia a serra pontiaguda
Tão ligeiro como pedra desembalada.
No pé da serra esperava sua amada.
Mas, ao descer, teve a perna quebrada.

Coitado! Lá no meio da serra esparramado
Ficou o poeta – e sua dor – impossibilitado.
Não mais era possível alcançar a amada.
E ela, sem perceber, não sentiu a dor do amado.

No meio da serra, ao chão então estirado,
O poeta sentiu-se um miserável; desgraçado.
Chorou o abraço não dado na jovem amada.
E ela, sem perceber, não viu que havia-o passado.

Depois de alguns instantes de infinda espera
Resolve a jovem amada subir a serra.
E ao ver o poeta inanimado – como pedra –
Cai sobre seu corpo em pranto. Desespera.

Acaba assim a história do velho poeta:
Jaz na terra versos que se plantariam em sua amada!
Acaba assim a história da jovem amada:
Jaz por terra versos não plantados na Poesia amada!





PARMÊNIDES

24 11 2007

PARMÊNIDES DE ELÉIA – O Poeta do Ser

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Pois bem, esses primeiros versos – assim podemos defini-los – são o Prólogo, ou seja, o proêmio, do discurso poético-ontológico e antropomórfico de Parmênides, inserido nessa perspectiva e tentativa desesperada de fazer da Verdade o sentido do Ser. A Verdade é, metaforicamente, uma esfera: homogênea, compacta, única e sempre igual a si mesma. Se tomarmos como verdadeira essa minha conclusão empírica veremos que, na outra ponta, por assim dizer, do lado oposto à verdade, ocorre a Opinião (= Ideologia), que ali se encontra presente dentro de um substrato ideológico (não-verdade = ideologia), mas que pretende desconstruir a verdade para se dar sentido de Verdade (= Ser verdadeiro = Real = Uno). (Clique em ARTIGOS, no topo da página, para ler o texto completo)





SONHOS

23 11 2007

SONHOS

© by João Batista do Lago

Clara é a noite em que me envolvo
Nela me solto… Bato asas…
Saio do invólucro, quebro a casca do ovo
Voo sobre os telhados em brasas

Assento num galho de cada alma
Perscruto do amor todas as dores
Ó seres que dormem sem calma
Por quê sonhais todos esses horrores?

Sinto-vos nos sonhos desesperados (a)
Dor mais profunda do sol mais escuro (da)
Vida em transe… Espíritos desamparados!

Ó deuses de todo Ser: sepulcro do obscuro
Acordai! Levantai-vos de vossa iníqua solidão (e)
Cantai à vida em noite clara toda vossa paixão





NUVENS

22 11 2007

NUVENS

© by João Batista do Lago

Do universo do meu quarto
Vejo o infinito universo!
Lá ao longe as nuvens dançam
Num ballet magistral da natureza,
Capaz de criar em minha mente a
Figura da mulher amada que
Ficara quando me fora adolescente.
Instante de estética fenomenal, mas o
Vento – ciumento e atroz! – baniu a
Amada da minha mente, e para me
Indignar ainda mais, pintou nos
Céus nuvens de monstros, onde
Antes era a imagem genial de Themis,
Agora resta – tão-somente! – a realidade presente.





PASSAGEIRO DO EU

20 11 2007

PASSAGEIRO DO EU

© by João Batista do Lago

Sou-me – de mim -,
apenas eu – e eu mesmo -,
passageiro da própria passagem.

Espelhado em águas de mares
reclusos, como nau perdida em alto mar,
tornaram-me (re) excluso de portos seguros.

E assim, de posse da minha lepra e da minha loucura,
erguido como representação de anti-poder,
jamais fui construído sujeito mensurável para ser calculado.

Fizeram de mim um vivo morto – ou morto vivo! -
quando me beijou a face, o patrão, no horto das oliveiras,
quando me excluíram e me internaram no palácio dos leprosos.

Venturosos da nau dos loucos, de poderes moucos,
estabeleceram no campo das açucenas
quermesses de dominações sem quaisquer penas.

E lá recluso, e excluso, de mim e do mundo,
açoitado pelo poder como qualquer vagabundo
continuo louco, recluso e excluso, passageiro da própria passagem.

A nau – este mundo -, leprosário da minh’alma
reflete em águas profundas o impuro narciso do poder
num vai-e-vem de ondas mortais de loucos e leprosos.

E agora, já definitivamente condenados, todos – e eu -,
passageiro da própria passagem já não encontro portas de saída
para enfrentar o meu fetiche… Para deitar minha lepra e minha loucura!





QUEM É ESSE CIDADÃO?

17 11 2007

QUEM É ESSE CIDADÃO?
(Para Roberto Requião, Governador do Estado do Paraná)

© by João Batista do Lago *

Quem é esse guerreiro, que
Deblatera o tempo inteiro, que
Briga, que sofre, que se indigna, que
Reverbera a dor do povo brasileiro?

Donde veio esse cidadão, que
Fala do povo com paixão, que
Deseja ‘inda hoje a revolução, que
Briga contra a corrupção?

Quem é esse “sujeito”, que
Busca estabelecer o Direito, que
Traz no esquerdo peito toda
Utopia de ver o povo, um dia, “Sujeito”?

Quem é esse homem “truculento”, que
Persegue a Virtude como alento, que
Medo não tem de ir contra o vento, que
Chora seu povo há todo momento?

Quem é esse cobrador da Justiça, que
Grita contra a insensatez postiça que
Rege nos tribunais da injustiça, que
Fere de espada a impura Lei castiça?

Quem é esse guerreiro solitário, que
Traz no verbo o discurso libertário, que
Insiste desafiar os salafrários, que
Defende o dilapidado público erário?

Quem é esse ser político, que
Tenta romper o capital monolítico, que
Imagina seu povo sujeito crítico, que
Sonha seu país sem o consumo paralítico?

Quem? Quem? Quem é esse cidadão?
- Siga a voz do coração se pretendes a razão!
Não há outro que não seja você, meu irmão;
Outro não há que não seja um Requião.
__________
* João Batista do Lago é jornalista, poeta, escritor, pensador empiricista e pesquisador.





FANTASIAS

16 11 2007

FANTASIAS

(Para uma amiga)

© by João Batista do Lago

Ó fantasias que escondem
minh’alma pura, que me revelam
diante do meu eu-espelho, que me
segredam toda impura no
sacrário de um altar jamais revelado:
hóstia de essência imaculada,
refém da mandala sagrada.
Sei! Sou fiel depositária do
sonho desvelado, do
gozo nunca sentido, da
esperança macabra do falo que não fala a
linguagem do meu corpo em brasa,
corpo que se arrasta entre os lençóis da casa e que
voa nas fantasias d’uma ave sem asas.





LAMENTO

15 11 2007

LAMENTO

© by João Batista do Lago

Ó velhos porões de almas!
Ciganos errantes. Ledos.
Aluviões de antigos medos
que singram os mares com
seus degredos de sorte vil,
ilusões paridas d’um só covil.

Ó velhas embarcações de ossos!
Teus degredos… Teus medos
são fraturas expostas dos teus
crimes de lesa alma, que pungem
toda dor da miserável sorte de
ser, apenas, o ser da morte.

Ó velhas cangalhas de carne!
Tua pena é a cena do afastamento
da divinal condição do ser e
neste teu enclausuramento és,
enfim, todo triste lamento, do
humano que pretendera Ser.





ORFANDADE

14 11 2007

ORFANDADE

© by João Batista do Lago

O odor do enxofre dos ventres
Rasgados por obstetras da alma,
Não consegue perfumar o ser.

Ele perdeu-se na miséria
De ser parido de deuses;
Hoje órfão deseja renascer.

- Não há mais obstetras de almas!





MANHÃS DE CURITIBA

13 11 2007

MANHÃS DE CURITIBA

© by João Batista do Lago

Eternas são as manhãs de Curitiba
Quando frias esquentam a alma
Quando quentes reluzem o corpo

Eternas são as manhãs de Curitiba
Quando floradas produzem a calma
Quando esverdeadas revelam encorpo

São assim as manhãs de Curitiba:
Alma, corpo e vida!

Se chuvosas lavam as mágoas;
Se ensolaradas revelam toda lida.

As manhãs de Curitiba são assim:
Alimentam e encantam a vida;
Geram no ser rosas e flores
- Perfumes que embalam amores!





PRIMAVERIS

12 11 2007

PRIMAVERIS
(Para Themis)

© by João Batista do Lago

Tuas coxas de primavera
Primaveris!
Secretos segredos guardam
Da flor do sexo
Sequioso de
Embeber-te da
Mais pura e límpida água que
Brota como sumos da terra (da)
Mais pura terra que de mim há

Carregas em ti o
Centro da vida da primavera
Primaveris!
Almas que se segredam em
Secretos exalares da
Flor mais pura de cheiro mais túmido
Essência que se me preparas na
Alcova do teu corpo
Sacrário exótico da (minha) eterna paixão





POLUIÇÃO

11 11 2007

POLUIÇÃO

© by João Batista do Lago

As ventas de Deus
de tanto entupidas
já não respiram vidas!

E de tanta fumaça
já não mais há graça
no paraíso, que
perdeu o sorriso das
flores e das rosas;
e que aos poucos
cauteriza o
ventre da terra…

[…]

Estão entupidas
as ventas de Deus
pelo vírus do
consumo humano





INSIGHT

10 11 2007

INSIGHT

(Para Michel Foucault – in memoria)

© by João Batista do Lago

Trabalhe o homem sua loucura
Entregue à sua bravura do
Enternecer-se na violência candura
De miseráveis vidas.
Distantes da vida,
Sufocados pelo silencio do
Nada ser diante de si;
Encontro de eus sem o ser.
Ser que é nada,
Quando divaga sua loucura
Na ternura do seu ser!
Ser que de mim o é
Apenas violência candura da
Eterna magia de toda loucura!





ONIRISMO

8 11 2007

ONIRISMO

© by João Batista do Lago

Chove!
É madrugada na cidade.
Os néons dançam
Sobre os armários de gentes;
Gentes que dormem toda felicidade,
Gentes que roncam toda ganância,
E sonham… e sonham… e sonham.
Sonham!
Mil vezes sonham
A natureza do novo golpe
Que há de se perpetuar a galope
No humano mercado de
Humanas mercadorias
Que são compradas e vendidas
Na feira de vidas em alegorias.

Chove!
É madrugada na cidade.
Os néons dançam
Sobre as ruas-porões de gentes;
Gentes que dormem toda infelicidade,
Gentes que vomitam cachaça.
Não sonham!
Esperam o fim da desgraça.
Mercadorias!
São assim esses humanos:
Descartáveis calorias
Apropriadas para alimentar aos cães
Vadios e vagabundos das noites
Onde os sonhos não acontecem
Quando esses indigentes adormecem.

[…]

E lá no alto
Dos armários de gentes
Os néons dançam…
E bailam sorridentes
O equilíbrio do mercado
Sob a mísera sinfonia candente.