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Arquivos Diários: Setembro 26th, 2007
SER POETA
Ser Poeta
Sou filho de Lógos
Minha matéria é a palavra
Minha terra a linguagem
Meu ofício a Poesia
Sou o Princípio e a Unificação
Dou ritmo a toda espécie de vida
Do universo quero a Justiça
Do tempo e do espaço a Harmonia
Entre o Sensível e o Inteligível
Sou o Mediador e a Razão
Há os que me pretendem Profeta
Mas sou apenas da vida [...]
MERCADORIA HUMANA
Mercadoria Humana
O homem-trabalho: mais-valia
e neste eterno mercadejar-se
lucra-o na mercadoria.
O homem-mercadoria: menos-valia
e neste eterno vender-se
lucra-se na eterna luta da anomia.
(in EU, PESCADOR DE ILUSÕES)
FERA ENCURRALADA
Fera Encurralada
Nos currais do meu céu
a Palavra tem pasto livre
ama e odeia feito besta fera
encurralada nos labirintos
de Gaia já quase morta
No verbo e no lógos
não vos permitirei me aprisionarem
com os grilhões da palavra substancialista
que me deseja inerte na essencialidade
subjetiva da objetiva razão do senso comum
(in EU, PESCADOR DE ILUSÕES)
AUTOCÍDIO
Autocídio
morro-me a cada instante
da desesperada dor da fome
morro-me em cada semblante
que se consome
no desesperado desabrigo
morro-me nos olhos
da criança abandonada
morro-me na juventude drogada
morro-me no pai sem trabalho
morro-me no filho sem atalho
morro-me na mãe
que se morre na família
morro-me na falta da floresta
morro-me quando se morre
o lago, o riacho, o rio e o mar
morro-me, enfim,
quando Pandora morre-se
(…e de [...]
FOTOGRAFIA
Fotografia
Neste ensaio imagético
vejo-te inclusa neste meu solitário cósmico
deste meu campo excluso.
No meu laboratório de visões
busco toda tua presença.
Nela não me há…
Há um branco total.
Nenhuma imagem.
O filme está queimado.
A burguesa igualdade não me deixa amar-te em toda a tua ebanicidade. E mesmo na cidade dos meus sonhos, na loucura das minhas noites,
és escondida em prostíbulos onde [...]
FOTOGRAFIA DO MITO
Fotografia do Mito
Não fora tu
Ó mito desencarnado
Da terra
Não me nascera
Não me crescera
Não me vivera
Não me morrera
Não fora tu
Ó mito desencarnado
Da terra
Deus não me Era
O sacrifício não me dera
O pecado não me fizera
A alma não me desidera
Não fora tu
Ó mito desencarnado
Da terra
Verdade houvera?
E a vida essa quimera?
E a alma que desespera?
E a morte sempre uma espera?
Não [...]
LIBERTAÇÃO
Libertação
Essa ambígua ordeiricidade brasileira,
e conseqüentemente, do seu povo:
país do carnaval!, da mulata brasileira!
país do futebol!, da malandragem fagueira!
é ufanismo trigueiro da burguesa “Luzes”
subjetivismo do discurso da dominação.
Sob este manto praticam-se
o terrorismo social e o econômico,
o político e o cultural, abstrusos,
mas coesos no seu conjunto ideológico
incrustado no terrorismo de Estado,
que não permite aos comuns cidadãos
perceberem, desde [...]
GUARNECIMENTO
Guarnecimento
I
Irmãos dos campos
latino-americanos
ficai atentos!
É chegada a hora
de guarnecer:
o Leviatã do Norte
blasfema do alto império
contra as liberdades
e identidades latinas.
II
Não vos deixai acomodar na
insana e ignóbil comodidade individualizante.
Deblaterai todos vós…
É preciso!
Gritar é preciso!
Lutar é preciso!
Antes que o monstro vos destrua com suas falsas verdades
- garras bélicas hiperbólicas -
armazenadas em um mundo futuro
de fome, miséria e sangue.
III
Atentai, pois, [...]
VACA SAGRADA
Vaca Sagrada
A vaca de Ébano
Viajando pelo mundo
Transforma o belo
No teatro do imundo.
A vaca de Ébano
Pretende-se multicultural
Mas transforma o mundo
Em um imenso curral.
… E com esse cabedal
Vê-se deusa planetária, mas
Confusa na sua diasporia
Mente a todos como igualitária.
(in EU, PESCADOR DE ILUSÕES)
SOLIPSISMO
Solipsismo
Nenhuma dor
É tamanha
Que nela
Não me contenha
Dor do parto
Quando parto
Dor da morte
No existir da sorte
(é assim enfim a dor da vida)
É qualquer guarida
No limiar do ser
Que se finda no perecer
Do abstrato concreto
(in EU, PESCADOR DE ILUSÕES)
SAPIÊNCIA
Sapiência
Sapo Cururu
Na beira do Itapecuru
Há tanta saudade mirim
Do Itapecurumirim
[...]
Mergulhar é preciso
Sem as peias do medo
Renovar o enredo
De nascentes nascer
E a cada novo existir
Do mergulho profundo
Abortar o imundo do mundo
O enxofrado perfume do cão
Que atazana a alma do nada
E tatua a vida mergulhada
Na pobrez do renascer
De cada imersão
Quanta solidão!
É pois preciso
Retornar ao chão
Para encontrar o curumim
Do [...]
PROFECIA
Profecia
O nobre vetusto
cavalheiro dos pampas
alertara todas as gentes:
- Nascerá da vossa carne o “sapo”
que vos falará da esperança…
E o escárnio se fez verbo.
Mataforizou-se.
Hamletianamente amébico
construiu-se.
Concebendo-se Príncipe diprotodóntico,
destilando-se de sofismas panegíricos,
vendo-se convertido pela igreja do Norte,
não transcendeu à expulsão paradísica
resultando-se, pois: significante vazio.
No sopé do palácio a alvorada da
esperança súdita desespera, desesperada…
Já transfigurada pela falsa ascese fácil
De [...]
LOUCURA
Loucura
Ah, como eu queria ter podido
ficar com todas as putas
sentir o não-gozo de todas suas fodas
matar a fome do mundo
mamando em suas tetas
e ao final gritar:
Enfim… a êxtase em mim
já não mais é essente
Ah, como eu gostaria
de rasgar todos os manuais
todos os manuscritos
somente para perceber
se depois teria linguagem
ou seria apenas fala
Ah, como eu gostaria de [...]
A QUIMERA DA REPETIÇÃO
A quimera da repetição
(…) e de repente de novo o povo é convocado para uma nova quimera
(…) e de repente de novo o povo atende ao apelo mesmamente
estamos diante de uma nova eleição
parece festa de São João
os brincantes meus-bois-bumbás
não percebem que se encontram currulados
nos arraiais da nação
que seus amos estão sempre-alertas
para lhes arrancar a língua
e [...]
INDIGNAÇÃO
IndigNação
A nação indignada
assiste inerte ao balé cretino
- humilhante desatino -
dos atores inescrupulosos
que não sabem bem-dizer
a bênção sagrada da plebe roubada
que chora sua fome
que reclama da deseducação
que morre nas filas dos hospitais
que enfeita o cordão dos desempregados
que se encarcera na insegurança
que já não sabe onde a esperança habita
Quanto tempo ainda para tanta indignação!?
Tomai pois a hóstia [...]
CONGENIAL
Congenial
Do centro de mim
nasce a voz perfeita
insatisfeita
quase sempre
com voz tangente
que tenta no imanente ser
ser diferente
do congênito
humano: destotal
(in EU, PESCADOR DE ILUSÕES)
GÊNESE
Gênese
O verbo é logos no Homem.
E logo meta-linguagem
no silencio da existência
almagórica de prazeres
carnais
A vagina da terra
ainda me resta e guarda
de mim o resto gozo final
encapsulado na forma bruta
e pura do existir
(in EU, PESCADOR DE ILUSÕES)
ESTRANGEIRO
Estrangeiro
Sem pátria fui construído:
exílio!
Minhas memórias:
signo…
significado…
significante…
Um vazio movimento, no
Movimento toda representação.
Desenraizado perambulo,
sem língua… sem pátria…
Anarquista babélico
Multicultural do único ser-de-si
No adverso tempo sem espaço
Dialogista em algum
“espírito” comum hei de
encontrar a torre
de todas as torres.
E lá, na minha babel,
onde apenas o pecado se dá
na mente metafísica
vejo o verdejar do real
o campo diferencial
a matéria dialética - serial
onde as deidades
são [...]
ELEMENTO
Elemento
O ventre da terra
É o único espaço
Que me cabe a mim
Desesperado de sentido
Sem fazê-lo no entanto
O canto tanto prometido
Que de tanto canto
Transforma este ser em Tântalo
De tanto cântico somático
(Prometeu continua acorrentado!)
(in EU, PESCADOR DE ILUSÕES)
A HORA DO ÂNGELUS
A hora do Ângelus
Queres impor-me a não-razão
sugeres que eu viva tua moral
niilismo bem-aventurado
hóstia letal do povo desgraçado
encantado pelo divino coral
da espúria sacristia divínica
donde surge o Ângelus mortal
sobre as consciências vérmicas
que teimam em si acreditar
Narcisos de sombras cavérnicas
(Nos teus hinos crísticos
Sugeres a minha negação
Todos são delírios acríticos
São met(a)- de toda geração)
(in EU, PESCADOR DE ILUSÕES)
ENIGMIA
Enigmia
Tudo decorre ao poeta:
o enigma do caos presente
faz-se no Eu absoluto
satisfaz-se no Si relativo.
Tudo decorrido ao poeta:
o enigma do caos transcende
faz-se raiz no Eu absoluto
satisfaz-se raiz no Si relativo.
(Qual hipótese identitária
subjaz na natureza do poeta?)
(in EU, PESCADOR DE ILUSÕES)
DESERTO
Deserto
Contrastando os muitos “deuses”
Não fui gerado poeta
Não nasci verseja(dor)
Da dor me construí linguageiro
Palavreiro de tantos signos
Fui construído João
Poeta que poetisa… poetiza(dor)
Que palavreia no internato
Do mundo deserto
Feito um palavra(dor)
Eis então a minha arena
O meu teatro ama(dor)
Estou cercado de sós
sob o sol de desertos
Estou só no oásis de sós
Caminho seguindo rastros estreitos
tentando encontrar a voz perdida
de velhos [...]
DESCONEXO
Desconexo
Estou debruçado na janela do mundo
O mundo que não é mundo
apenas representação do mundo
que trago dentro do meu “espírito”
que não é espírito; que se pensa real
mas nele não há realidade alguma
Quero dizer uma palavra, mas a palavra não fala
Estou mudo no meu grito que grita todas as dores
que são amores indormidos nas almas das gentes
que [...]
ESTA MULHER
Esta Mulher
Vejo hoje esta mulher
(ou seria apenas uma semimulher?)
de tantas lutas, de tanta força
consumida e consumindo-se nos dias do dia-a-dia
vê-se nela
a ausência
da carente
alegria
não-presente!
O tempo maldito no espaço da vida
- há tempo – que lha toma o tempo sem pena de morrê-la…
Cadê os brilhos dos seus olhos?
Para onde foi sua juventude?
E aquela garra que só ela [...]