O Corvo e a Pomba
Para Edgar Allan Poe, Fernando Pessoa e Machado de Assis
(in memória)
Ah, aquele dia, naquele dia…
Hora em que à hora é morta!
Cansado já desta síntese do ser,
pensava apenas desfalecer.
Muito pensara. Muito estudara.
Fatigado devera estar e ser.
(Assim falara Edgar Allan Poe:
“Once upon a midnight dreary, while I pondered, weak and weary
Over many a quaint and curious volume of forgotten lore -
While I nodded, nearly napping, suddenly there came a tapping,
As of someone gently rapping, rapping at my chamber door.
“’Tis some visitor, “I muttered, “tapping at my chamber door -
Only this and nothing more.’”)
A mente a pique de pensamentos diversos me extasiava.
De um lado a outro – dentro do quarto – fazia avenidas
Como quem buscava guaridas para sua alma em feridas.
De repente, naquela hora, ouço batidas à porta:
“- Quem será a esta hora?” – indaguei-me por um momento.
Mas ainda cheio de pressentimento relutei ao atendimento,
Apesar do temor rápido consenti-me saber de quem
o lamento.
Ainda ocorre-me à lembrança:
o acontecido foi na primavera.
Mês em que a mente gera quimera,
que faz de toda gente que desespera
do saber toda sabedoria da filosofia,
que antes de causar harmonia,
por certo, deixa o ser em agonia e
tormentoso por adquirir consciência,
e de toda ciência obter a leniência
da razão mais pura do espírito em folia.
É prudente, então, atender à porta e
saber que sombra há por detrás dela.
A porta escancarou e nenhum vulto assomou.
“- Será que estou ficando louco!” – exclamei.
“Por certo ouvi há pouco o leve toque de alguém”.
Lá fora tão-somente a noite lúgubre brandia
nas asas de um vento frio do sombrio negrume…
De repente… Nova batida leve a chamar;
agora não mais à porta, mas na janela a tilintar.
Abro-a… Como um raio uma ave entra a se instalar.
E como diz no verso de Pessoa
Do Corvo contumaz que dele soa:
“Não fez nenhum cumprimento,
não parou nem um momento,
mas com ar solene e lento
pousou sobre os meus umbrais”.
E assim sem qualquer argumento,
instalou-se a Pomba no meu assento,
sem qualquer linguagem de lamento,
auscultava meu espanto do momento.
E assim, abstrusa e vaga, reinava impávida
sobre minha pilha de muitos saberes,
sem comentários, sem quaisquer dizeres,
como se esperasse de mim o primeiro verbo.
“- De qual confins sucedes ó Pomba rara?”
E ela, tranqüila e calma, apenas me olhava
como quem sente pena de um espírito avaro.
“- Porvindoiro donde vindes?” – quis saber.
“- Venho de dentro do ser…” – resolveu esclarecer.
“- … donde só de lá se pode nascer”.
Não me fez clara aquela resposta vaga.
“- Senhora vou repetir: donde vens em tua saga”.
“- Liberdade não se amarra ao tronco;
não se a prende feito dona rara ou coisa cara,
tampouco dela se aproveita para tanto entorpecer,
não é simples saber da vilania para enriquecer,
não é apodrecer-se como árvore de podre saber,
nem mesmo é toda verdade já tão gasta de filosofia
abarrotada de ciências e iguarias fáceis
de tanto ditas – por isso malditas – já em cada renascer”.
“Esta ave delira” – pensei sem exclamar.
“Não me convém como Corvo a ela retaliar”.
“- Donde venho!? Já logo sabereis, ó Corvo,
antes é preciso dizer-te: – Não estou a delirar!”.
(Se confuso já estava
o Corvo mais espantado ficou.
Considerou um estorvo
quando seu nome ouviu, pois
não o dissera em momento algum
- disso tinha certeza -
como com tanta clareza
a Pomba o revelava com altivez?
Por certo aquilo era um sonho
já produto do cansaço.
Resposta do abandonar-se
num quarto vazio e frio
entregue ao compasso de passos
num vazio calafrio
trazido pelo primaveril
da noite febril
do viver ardil.)
- Por quê não voltas à tua origem?
Por quê insistes nesta miragem?
Nesta tua presença inoportuna
realizada de forma gatuna
roubando de mim o sono fugaz
todo meu descanso e toda minha paz?
- Nunca mais –
respondeu a Pomba com convicção.
E assim falou Machado de Assis:
- Estremeço. A resposta ouvida
É tão exata! é tão cabida!
Certamente, digo eu, essa é toda a ciência
Que ele trouxe da convivência
De algum mestre infeliz e acabrunhado
Que o implacável destino há castigado
Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,
Que dos seus cantos usuais
Só lhe ficou, na amarga e última cantiga,
Esse estribilho: “Nunca mais”.
“- Que dizes?!
‘- Nunca mais! -’
Então serei condenado a viver com tua sombra
a me torturar todas as noites (e dias)? Jamais.
Vai-te daqui para as profundezas ou
Some-te para tuas clarezas com tuas incertezas;
não te quero mais a atormentar meus ais.”
“- Nunca mais” – repetiu.
“- Já que te instala nos meus umbrais
serás companheira e confidente;
vou declarar-te todas as dores,
falar-te de todos meus amores,
cantar-te todos meus horrores,
tudo isso e coisas que tais.”
“- Nuca mais” –
sentenciou a Pomba.
“- Serás a férula dos meus pensamentos
terei em ti a balança de todos os juízos
assim estarei certo de chegar aos paraísos
às cortes donde não se dão os lamentos
e por toda eternidade serei par dos justos
sendo assim de todos os seres o Augustus”.
“- Nunca mais” –
insistiu a ave rara.
“- Então não me atormente a alma já cansada,
toma teu tino e some na negritude da noite
donde me apareceste num agouro brilhar
e desde aquele instante vives a atormentar
este velho Cavaleiro do Templo de Sofia
oráculo de deuses dionisíacos da sabedoria”
“Nunca mais” –
insistiu a criatura.
Ah, aquele dia, naquele dia…
Hora em que à hora é morta!
Cansado já desta síntese do ser,
pensava apenas desfalecer.
Muito pensara. Muito estudara.
Fatigado devera estar e ser.
(Já manhã o sol se fazia presente
refletindo luzes em demasia no meu rosto.
Ausente.
Consciente e inconsciente.
A noite foi uma orgia!
A noite foi pura fantasia!)
Nunca mais…
Nunca mais…
Nunca mais…
Um sonho, nada mais.
Nunca mais.
(in EU, PESCADOR DE ILUSÕES)