CUMPLICIDADE

25 09 2007

Cumplicidade

Oi, pai!
Faz dois anos
A gente não se vê.
Antes de partires havíamos combinado
Comemorar o meu aniversário, juntos.
Mas Deus nos pregou uma peça:
Na Sua divina pressa
Não lembrou da nossa promessa
E te levou para o eterno Olimpo
Para cumprir novos projetos.
Acho que Ele não foi legal
Deixando esta saudade descomunal
Num eterno vazio infernal
Uma dor que nem sei onde se aloja
Nem onde nasce, nem onde fenece.
Sabe, pai, aquela poesia que fiz
Ficou guardada no baú do meu ser
Ela só se revelará no nosso reencontro
No tempo e no espaço da nossa repetição
Onde retomaremos nossa conversação.
Aí, então, pai,
Mesmo que não aproves minha ação
Ralharei com deus e lho direi:
Não tornes novamente a nos separar
Se tentares não te perdoarei.
Oi, pai!
Estou te esperando para o meu aniversário…

(in EU, PESCADOR DE ILUSÕES)





AUTOCOMPREENSÃO

25 09 2007

Autocompreensão

Quando eu compreendera
que eu não sou eu, mas o outro;
Quando eu compreendera
que eu não sou o outro,
mas parte do eu e do outro;
Quando eu compreendera
que não sou parte do eu e do outro,
mas o todo da parte do eu e do outro;

Aí então terei aberto a janela
para descortinar o único universal:
seja na parte, seja no todo;
Aí então terei refletido minha incompletude;
Aí então terei assimilado
no eu,
no outro,
na parte
e no todo
O universo descortinado
em liberdade epistemológica
que terá sempre como gênese
o abstrato e o concreto,
o subjetivo e o objetivo,
o metafísico e o racional

(in EU, PESCADOR DE ILUSÕES)





APOSTASIA

25 09 2007

Apostasia

O cão amigo
do homem não-amigo
segue seu amo docilmente
mendigando sua solidariedade…
a palavra não fala na linguagem do cão

(ladra, late… e ladra uma vez mais
balança o rabo coital no balão do nada
ao pré-sentir do pontapé a porrada!)

O homem não-amigo
do amigo do homem
continua sua caminhada perfeita(!)
harmônica apostasia da espécie animal
do sacrário sujeito final

(in EU, PESCADOR DE ILUSÕES)





DIALÉTICA SERIAL

25 09 2007

Dialética Serial

Ser é o não-ser do ser
Do ser que não-é ser-se sendo
Matéria da não-matéria
Materialismo desmaterializado
Síntese dialética da não-dialética
Do substancialismo do não-idêntico
No imanente idêntico do ser

(in EU, PESCADOR DE ILUSÕES)





O CIO

25 09 2007

O Cio

A madrugada é primaveril
Lá fora não há calor nem frio
Da janela do meu quarto
Olho uns quintais com suas casas
Num dos quintais uma cadela no cio
Do outro lado da cerca de arame
Um cão tortura-se em amantes latidos
A cadela assanha-o ainda mais
Encosta o sexo na cerca e permite-lhe a lambida
O cão ensandecido de desejo rodopia de alegria
Corre de um lado para o outro em desarmonia
Tenta escalar a cerca de arame em agonia
Tudo em vão
Resta-lhe a condenação de ser apenas cão

(no meu quarto ouço uma serenata: Brahms)

Da janela do meu quarto
Interiorizo-me na alcova dos casais
Quantas mulheres com o sexo em brasa
Recostam em cada marido distante
Ressuam o corpo com o perfume exalante
Da flor-dos-amores em cio suplicante de carícias e beijos
Nenhuma cerca as separa de seus amantes
Apenas o ronco estridente e o ranger de dentes
Daqueles que outrora foram grandes amantes
E o cio assim dessas donzelas em cio
Aos poucos vai si morrendo a cada desafio
Sem saber se é mulher ou apenas calafrio
Numa noite de primavera
Onde não faz calor nem frio

(no meu quarto a serenata de Brahms finda)

(in EU, PESCADOR DE ILUSÕES)





SUJEITO

25 09 2007

Sujeito

Apenas os idiotas
Pensam que o “Eu” é
O único dos sujeitos

[...]

A maioria das
Marmotas – roedores por certo
“Si” sujeita na floresta do ser

(in EU, PESCADOR DE ILUSÕES)





DESCAMINHO

25 09 2007

Descaminho

Há uma pedra no caminho;
no caminho há um homem.

Há um homem no caminho;
no caminho há uma pedra.

Há um caminho sem uma pedra;
no caminho não há um homem.

Há um caminho sem um homem;
no caminho não há uma pedra.

Há uma pedra livre porque o caminho está livre do homem.
Há um homem livre porque o caminho está livre da pedra.
Há um caminho livre porque o caminho está sem uma pedra.
Há um caminho livre porque o caminho está sem um homem.

[...]

Há um caminho livre por quê não há nem homem, nem pedra!

(in EU, PESCADOR DE ILUSÕES)





VULCÃO

25 09 2007

Vulcão

O espaço é o meu corpo
talhado de aventuras.

Nele está tatuado toda marca
da esperança desesperada.

O tempo é o meu corpo
rio caudaloso e turvo.

Nele está singrante toda dor
da desesperada esperança.

(in EU, PESCADOR DE ILUSÕES)





QUEM SÃO?…

25 09 2007

Quem são?…

Donde vem essa corrupção
Há tanto instalada nos palácios
E nos cérebros desta nação
Que nem tanto tempo tem assim
A viver condenada a esta prostituição?
Quem são esses patrícios
Que vivem a entulhar de vícios
A proba população
Que pasmada fica anestesiada
Com medo de propor a reação?
Quem são esses canalhas
Que plantam verdadeiras muralhas
Em torno do coração do Brasil
Para lhes roubar cada vintém
E ainda tratam a sociedade com desdém?
Quem são esses políticos
Sanguessugas e vampiros
Anões e mensaleiros
Que abominam a razão e a ética
Imperadores da antitética?
E essas instituições quem são?
Abrigadoras de ladrões em porção
Que vivem a roubar os milhões
Desta jovem nação sem ação
Que aceita mansa a corrupção?

[...]

Quem são essas famílias?
Quem são essas igrejas?
Quem são essas escolas?
E as universidades, quem são?
[...]

A resposta a esta questão
reside em cada coração brasileiro
que não há de suportar tanta humilhação
como um povo manso e trigueiro.
Não é longe o dia da reação.
E quando ela se der como razão
este povo há de assumir sua missão
de tomar o seu brasão e implantar nesta nação
o mais belo pau-brasil.
Aí, sim, este povo será varonil.
Aí, sim, esta nação se fará…
e será um só Brasil.

(in EU, PESCADOR DE ILUSÕES)





NEGAÇÃO

25 09 2007

Negação

Não aceitarei jamais
A decisão faceira
De me enquadrares
Dentro do quadrado
Mágico da ordem
Bem-estabelecida.
Essa tua guarida
É pura morte
Morte da palavra
Que se calada
É morte da fala
Fica de toda ferida
Morte da linguagem viva
Nos currais da ordem.
Tirai o tapete estendido
Dele não me utilizarei.
Minha passagem será livre,
Será escarlate – bem sei.
Portanto não te ofereças tanto
A quem amor não te tem.
Quanto ao teu corrupto vintém
Assegura-o em tua desgraça
Ele não se fará mordaça
Da livre palavra que graça
Em toda praça com raça
Deste povo que não é chalaça.

(in EU, PESCADOR DE ILUSÕES)





EU

25 09 2007

Eu

Verei o teu fim e tu
Verás o meu final
A dúvida sempre se
Fará carnal, afinal…

No dever-ser da vida
Há apenas a morte
Ah! Quanta sorte não
Poderás tomá-la de mim

[...]

Esse dever ser de si
Traduz a substância
Que buscas em mim
Há de assisti-la como

Puramente minha
Não terás sobre ela
Algum poder supremo
Ela só me restará a mim

(in EU, PESCADOR DE ILUSÕES)





ANDRÓGENO

25 09 2007

Andrógeno

De toda minha prenhez
Sou criador e criatura
Não-sendo nem criador
Não-sendo nem criatura
Sou cultura arquetípica
Da não-cultura do humano
De toda não-literatura
Toda literatura de imagens
Que se revela apenas na matéria
Do não-humano do humano

(in EU PESCADOR DE ILUSÕES)





UBIQÜIDADE

25 09 2007

Ubiqüidade

Quanta confusão si faz
Quando permite o homem
Abandonar-se à razão fugaz
Unge-se de verdades
Sugere igualdades mas
Não passa de tolo escravo
Da verdade e da razão vulgar
Agora algoz implacável
Deste miserável ser miserável
Prenhe de desrazão sagaz

(in EU, PESCADOR DE ILUSÕES)





O CORVO E A POMBA

25 09 2007

O Corvo e a Pomba

Para Edgar Allan Poe, Fernando Pessoa e Machado de Assis
(in memória)

Ah, aquele dia, naquele dia…
Hora em que à hora é morta!
Cansado já desta síntese do ser,
pensava apenas desfalecer.
Muito pensara. Muito estudara.
Fatigado devera estar e ser.

(Assim falara Edgar Allan Poe:
“Once upon a midnight dreary, while I pondered, weak and weary
Over many a quaint and curious volume of forgotten lore -
While I nodded, nearly napping, suddenly there came a tapping,
As of someone gently rapping, rapping at my chamber door.
“’Tis some visitor, “I muttered, “tapping at my chamber door -
Only this and nothing more.’”)

A mente a pique de pensamentos diversos me extasiava.
De um lado a outro – dentro do quarto – fazia avenidas
Como quem buscava guaridas para sua alma em feridas.
De repente, naquela hora, ouço batidas à porta:
“- Quem será a esta hora?” – indaguei-me por um momento.
Mas ainda cheio de pressentimento relutei ao atendimento,
Apesar do temor rápido consenti-me saber de quem
o lamento.

Ainda ocorre-me à lembrança:
o acontecido foi na primavera.
Mês em que a mente gera quimera,
que faz de toda gente que desespera
do saber toda sabedoria da filosofia,
que antes de causar harmonia,
por certo, deixa o ser em agonia e
tormentoso por adquirir consciência,
e de toda ciência obter a leniência
da razão mais pura do espírito em folia.

É prudente, então, atender à porta e
saber que sombra há por detrás dela.
A porta escancarou e nenhum vulto assomou.
“- Será que estou ficando louco!” – exclamei.
“Por certo ouvi há pouco o leve toque de alguém”.
Lá fora tão-somente a noite lúgubre brandia
nas asas de um vento frio do sombrio negrume…
De repente… Nova batida leve a chamar;
agora não mais à porta, mas na janela a tilintar.
Abro-a… Como um raio uma ave entra a se instalar.

E como diz no verso de Pessoa
Do Corvo contumaz que dele soa:
“Não fez nenhum cumprimento,
não parou nem um momento,
mas com ar solene e lento
pousou sobre os meus umbrais”.

E assim sem qualquer argumento,
instalou-se a Pomba no meu assento,
sem qualquer linguagem de lamento,
auscultava meu espanto do momento.

E assim, abstrusa e vaga, reinava impávida
sobre minha pilha de muitos saberes,
sem comentários, sem quaisquer dizeres,
como se esperasse de mim o primeiro verbo.
“- De qual confins sucedes ó Pomba rara?”
E ela, tranqüila e calma, apenas me olhava
como quem sente pena de um espírito avaro.
“- Porvindoiro donde vindes?” – quis saber.
“- Venho de dentro do ser…” – resolveu esclarecer.
“- … donde só de lá se pode nascer”.

Não me fez clara aquela resposta vaga.
“- Senhora vou repetir: donde vens em tua saga”.

“- Liberdade não se amarra ao tronco;
não se a prende feito dona rara ou coisa cara,
tampouco dela se aproveita para tanto entorpecer,
não é simples saber da vilania para enriquecer,
não é apodrecer-se como árvore de podre saber,
nem mesmo é toda verdade já tão gasta de filosofia
abarrotada de ciências e iguarias fáceis
de tanto ditas – por isso malditas – já em cada renascer”.

“Esta ave delira” – pensei sem exclamar.
“Não me convém como Corvo a ela retaliar”.

“- Donde venho!? Já logo sabereis, ó Corvo,
antes é preciso dizer-te: – Não estou a delirar!”.

(Se confuso já estava
o Corvo mais espantado ficou.
Considerou um estorvo
quando seu nome ouviu, pois
não o dissera em momento algum
- disso tinha certeza -
como com tanta clareza
a Pomba o revelava com altivez?
Por certo aquilo era um sonho
já produto do cansaço.
Resposta do abandonar-se
num quarto vazio e frio
entregue ao compasso de passos
num vazio calafrio
trazido pelo primaveril
da noite febril
do viver ardil.)

- Por quê não voltas à tua origem?
Por quê insistes nesta miragem?
Nesta tua presença inoportuna
realizada de forma gatuna
roubando de mim o sono fugaz
todo meu descanso e toda minha paz?

- Nunca mais –
respondeu a Pomba com convicção.

E assim falou Machado de Assis:
- Estremeço. A resposta ouvida
É tão exata! é tão cabida!
Certamente, digo eu, essa é toda a ciência
Que ele trouxe da convivência
De algum mestre infeliz e acabrunhado
Que o implacável destino há castigado
Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,
Que dos seus cantos usuais
Só lhe ficou, na amarga e última cantiga,
Esse estribilho: “Nunca mais”.

“- Que dizes?!
‘- Nunca mais! -’
Então serei condenado a viver com tua sombra
a me torturar todas as noites (e dias)? Jamais.
Vai-te daqui para as profundezas ou
Some-te para tuas clarezas com tuas incertezas;
não te quero mais a atormentar meus ais.”

“- Nunca mais” – repetiu.

“- Já que te instala nos meus umbrais
serás companheira e confidente;
vou declarar-te todas as dores,
falar-te de todos meus amores,
cantar-te todos meus horrores,
tudo isso e coisas que tais.”

“- Nuca mais” –
sentenciou a Pomba.

“- Serás a férula dos meus pensamentos
terei em ti a balança de todos os juízos
assim estarei certo de chegar aos paraísos
às cortes donde não se dão os lamentos
e por toda eternidade serei par dos justos
sendo assim de todos os seres o Augustus”.

“- Nunca mais” –
insistiu a ave rara.

“- Então não me atormente a alma já cansada,
toma teu tino e some na negritude da noite
donde me apareceste num agouro brilhar
e desde aquele instante vives a atormentar
este velho Cavaleiro do Templo de Sofia
oráculo de deuses dionisíacos da sabedoria”

“Nunca mais” –
insistiu a criatura.

Ah, aquele dia, naquele dia…
Hora em que à hora é morta!
Cansado já desta síntese do ser,
pensava apenas desfalecer.
Muito pensara. Muito estudara.
Fatigado devera estar e ser.

(Já manhã o sol se fazia presente
refletindo luzes em demasia no meu rosto.
Ausente.
Consciente e inconsciente.
A noite foi uma orgia!
A noite foi pura fantasia!)

Nunca mais…
Nunca mais…
Nunca mais…

Um sonho, nada mais.

Nunca mais.

(in EU, PESCADOR DE ILUSÕES)





HOMO III

25 09 2007

Homo III

E neste claro nominalismo recalcitrante
Segue só este louco homem construindo
Sua ganância que a Natureza vai destruindo
Sem permitir às novas gerações que vão surgindo

Que a paz construa nos homens o verso lindo
E em cada ser do novo ser se vá obstruindo
A louca chama de guerras que se estão evoluindo
Nos campos dos petróleos se estão consumindo

Tolos são esses senhores donos do mundo
Perdeu-se a razão feito assassino vagabundo
Perdeu toda a Ciência o bem mais profundo

De garantir ao homem deste novo mundo
A sina de não ser apenas retirante moribundo
Deste universo que de ser em mim se faz fundo

(in EU, PESCADOR DE ILUSÕES)