ALIENATÓRIO

30 09 2007

Trabalhador

http://www.carfweb.net/gritos/images/trabalhador.jpg

 

Lá vai um homem
Para o seu trabalho
Para o seu trabalho
Lá vai um homem…

 

Todo dia é sempre tudo igual
A “Coisa” toma sua dose letal…

 

Lá vem um homem
Para a sua casa
Para a sua casa
Lá vem um homem…

 

Todo dia é sempre tudo igual
A “Coisa” prepara seu ato final…

 

Quando vai para o trabalho
A “Coisa” não desespera…
Espera!
Quando vai para sua casa
A “Coisa” espera…
Desespera!

 

Toma uma cachaça no boteco
Tira-gosto com lingüiça…
Espreguiça-se no balcão do nada
Troca um lero-lero com a rapaziada…
E aí vai pra casa ruminando a liça

 

Assoviando um bolero…
Cantarola:
“Eu não sou cachorro, não
para viver…”

 

Todo dia é sempre tudo igual!





ALIENAÇÃO

30 09 2007

alienação

O que faço
neste espaço?

Solitário e só
planto-me
em campos
de alienação
já sem-esperança
de ser-me a mim
tão-somente em mim.

Se puro nascido
logo alienado
fui produzido
no úbere da mater,
da santa família,
da educação,
da religião.

Alienado eu sou – então –
desde o primeiro chão
no suor da labuta;
e assim – desde sempre -
em confusa luta,
tateio (vida-ermo) feito
solitário errante-enfermo.

[...]

O que faço
neste espaço?

A Terra, meu cangaço…
O Humano, meu assassino…
A Palavra, minha hipótese…
Deus, meu condomínio…

O que faço
neste espaço?!

= = = = = = = = = =

 

Crédito da ilustração:

http://www.mgrande.com/weblog/images/partosdepandora/davidalfarosiqueiros_angustia_masp2.JPG





CHORO DA MADRUGADA

29 09 2007

vale.jpg

http://www.anjo-da-morte.blogger.com.br/Vale.jpg

Nesta noite a madrugada abraçou-me
levou-me ao peito lancinante de dor…
E chorou!
Chorou todas as dores guardadas no
infinito instante da solidão profunda;
chorou como quem chora o
pressentimento;
chorou como quem chora o
lamento;
chorou como quem sabe não poder sustentar
o mais perfeito verbo já perdido na selva do humano;
chorou enfim para acalmar a vergonha de ser o tempo
onde se eterniza a Viscissitude que
vampiriza as almas deambulantes.

04:31 29/9/2007





POEMA PARA O PRESIDENTE LULA

26 09 2007





SER POETA

26 09 2007

Ser Poeta

Sou filho de Lógos
Minha matéria é a palavra
Minha terra a linguagem
Meu ofício a Poesia

Sou o Princípio e a Unificação
Dou ritmo a toda espécie de vida
Do universo quero a Justiça
Do tempo e do espaço a Harmonia

Entre o Sensível e o Inteligível
Sou o Mediador e a Razão
Há os que me pretendem Profeta
Mas sou apenas da vida o Poeta

(in EU, PESCADOR DE iLUSÕES)





MERCADORIA HUMANA

26 09 2007

Mercadoria Humana

O homem-trabalho: mais-valia
e neste eterno mercadejar-se
lucra-o na mercadoria.
O homem-mercadoria: menos-valia
e neste eterno vender-se
lucra-se na eterna luta da anomia.

(in EU, PESCADOR DE ILUSÕES)





FERA ENCURRALADA

26 09 2007

Fera Encurralada

Nos currais do meu céu
a Palavra tem pasto livre
ama e odeia feito besta fera
encurralada nos labirintos
de Gaia já quase morta

No verbo e no lógos
não vos permitirei me aprisionarem
com os grilhões da palavra substancialista
que me deseja inerte na essencialidade
subjetiva da objetiva razão do senso comum

(in EU, PESCADOR DE ILUSÕES)





AUTOCÍDIO

26 09 2007

Autocídio

morro-me a cada instante
da desesperada dor da fome
morro-me em cada semblante
que se consome
no desesperado desabrigo
morro-me nos olhos
da criança abandonada
morro-me na juventude drogada
morro-me no pai sem trabalho
morro-me no filho sem atalho
morro-me na mãe
que se morre na família
morro-me na falta da floresta
morro-me quando se morre
o lago, o riacho, o rio e o mar
morro-me, enfim,
quando Pandora morre-se

(…e de tanto me morrer a cada instante
morro-me na palavra que se morre!)

(in EU, PESCADOR DE ILUSÕES)





FOTOGRAFIA

26 09 2007

Fotografia

Neste ensaio imagético
vejo-te inclusa neste meu solitário cósmico
deste meu campo excluso.

No meu laboratório de visões
busco toda tua presença.
Nela não me há…

Há um branco total.
Nenhuma imagem.
O filme está queimado.

A burguesa igualdade não me deixa amar-te em toda a tua ebanicidade. E mesmo na cidade dos meus sonhos, na loucura das minhas noites,
és escondida em prostíbulos onde o amor se dá como propriedade num modo de produção pós-modernista incapaz de permitir-se os fulgores amantes da multiculturalidade.

As mentes diafragmáticas estão fechadas…

O flash não mais dispara feito clarão relâmpico
para iluminar todo o breu da minha escuridão notúrnica que precisa urgentemente dessa tua imagem resplandecente para reacender o fogo e dissipar a diáspora para o Tártaro mais profundo da existência de Gaia.

(Amanhã será outro dia e nele a certeza da tua foto hei de imprimir!)

(in EU, PESCADOR DE ILUSÕES)





FOTOGRAFIA DO MITO

26 09 2007

Fotografia do Mito

Não fora tu
Ó mito desencarnado
Da terra
Não me nascera
Não me crescera
Não me vivera
Não me morrera

Não fora tu
Ó mito desencarnado
Da terra
Deus não me Era
O sacrifício não me dera
O pecado não me fizera
A alma não me desidera

Não fora tu
Ó mito desencarnado
Da terra
Verdade houvera?
E a vida essa quimera?
E a alma que desespera?
E a morte sempre uma espera?

Não fora tu
Ó mito desencarnado
Da terra
Não me construíra dúvida
Não me espelhara sem dúvida
Na infinita finita dor do ser do não-ser
Do não-existir no eterno existir

Não fora tu
Ó mito desencarnado
Da terra…
Deus não houvera
Eu não me era

(in EU, PESCADOR DE ILUSÕES)





LIBERTAÇÃO

26 09 2007

Libertação

Essa ambígua ordeiricidade brasileira,
e conseqüentemente, do seu povo:
país do carnaval!, da mulata brasileira!
país do futebol!, da malandragem fagueira!
é ufanismo trigueiro da burguesa “Luzes”
subjetivismo do discurso da dominação.

Sob este manto praticam-se
o terrorismo social e o econômico,
o político e o cultural, abstrusos,
mas coesos no seu conjunto ideológico
incrustado no terrorismo de Estado,
que não permite aos comuns cidadãos
perceberem, desde sempre, a condenação
de suas almas numa constante subjugação.

A tudo isso se junte, ainda,
a medíocre “democracia racial”:
falsa consciência da inclusão
sob o beneplácito das elites,
da classe média e da burguesia.

E os ladrões de sempre,
que roubaram, que roubam e, por certo,
roubarão este povo que teima em não acordar,
que continua “dormindo em berço esplêndido”,
continuam nos palácios a nos encantar
com a máxima da escravidão:
“O Brasil é uma nação ordeira” – dizem.

E assim continuamos nossa sina
com o apoio do burguês trabalhador
que vendeu sua dignidade,
que teve seu espírito comprado,
que se esconde sob a proteção de sindicatos
fascistas e sustentados pelo Estado terrorista
que assalta, que furta o trabalhador comum
compulsoriamente dilapidando o miserável salário,
que se lhe arranca da boca a comida,
do intelecto a educação,
do corpo a moradia.

Não menos indulgente
é a burguesia intelectual
que num eterno louva-deus
locupleta-se com migalhas furtadas
comprantes das ideologias de plantão
que lhes permite assegurar
o quinhão da dominação.

Da mesma maneira
o ramo podre da religião assim também age
utilizando o campo do sagrado
como fonte inexorável de opressão
fazendo cair sobre os desgraçados da sorte
o fogo do inferno se porventura desejarem a libertação.

No mesmo ritual teleológico
segue o burocrata, o empresário e o político,
os três Poderes:
o Judiciário,
o Executivo,
o Legislativo – a “representação do povo”!

Não é, pois, o momento da indignação?
Porventura não é chegada a hora da libertação?
A nação não pode condescender
com seus detratores, com seus ladrões,
com seus usurpadores, com seus facínoras,
com seus ditadores – falsos democratas,
antiprofetas da salvação.

Prestai atenção, ó brasileiros!
Ó povo dos trabalhadores,
povo deserdado,
vexado e proscrito!
Povo que é aprisionado,
que é julgado e que é morto!
Povo ultrajado, povo marcado!
Não sabes que mesmo para a paciência,
mesmo para a dedicação, há um limite?
Não deixarás de dar ouvidos a estes oradores do misticismo que te dizem para rezar e esperar, pregando a salvação pela religião ou pelo poder e cuja palavra veemente e sonora te cativa?
Teu destino é um enigma que nem a força física,
nem a coragem da alma,
nem as iluminações e o entusiasmo,
nem a exaltação de nenhum sentimento pode resolver.
Aqueles que te dizem o contrário enganam-te
e seus discursos servem apenas para retardar a hora de tua libertação, que está preste a soar.
O que são o entusiasmo e o sentimento?
O que é uma poesia vã diante da necessidade?
Para vencer a necessidade
há apenas a Necessidade,
razão última da natureza,
pura essência da matéria e do espírito.

Dá-me, agora, ó brasileiros,
um pouco da vossa atenção!
Tomai como vosso este poema
e cantai em toda praça a todo cidadão.
Sustentai este grito de alerta,
de levante,
de atitude revolucionária
contra os vituperadores que tomaram esta nação:
é uma convocação para a revolta,
é uma ode à desobediência civil,
é um convite à marcha contra os canalhas,
é uma incitação à derrubada do Estado terrorista.

Mas também quero vos alertar:
os ladrões do Brasil e de seu povo,
a camarilha instalada nos três poderes,
a elite, a classe média e os burgueses,
jamais concordarão com este deblaterar.

E dirão com certeza:
- Não passa de um ‘esquerdista radical’,
um ‘maoísta’,
um ‘leninista’,
um ‘marxista’,
enfim…
‘de um comunista’.
Ou, no mínimo, dirão:
um “revoltado”,
um “louco”…

Aí então deverás, desde sempre,
rechaçar e repelir veementemente
a prosa ditirâmbica dessa camarilha de ladrões.
Não dareis, jamais, o direito de te definirem,
de te identificarem,
de te marcarem (feito gado encurralado)
segundo seus conceitos,
seus preceitos,
seus preconceitos.

E direis:
- Tens agora, ó indignos bufões,
o vicejar de um novo sujeito,
tens, aqui, por certo,
o discurso da indignada nação,
que não quer ver o seu povo,
por toda eternidade, dirigido pela corrupção,
que não deseja ser representado
por congressos de ladrões,
governado por rufiões do poder
que se escondem sob a toga da inquisição.

E afirmareis a sentença da libertação:
“Se os apelos dos movimentos urbanos
não são atendidos,
se os novos caminhos políticos
permanecem fechados,
se os novos movimentos sociais
não se desenvolvem totalmente,
então, tais movimentos
- utopias reativas que tentarão iluminar o caminho a que não tinham acesso –
retornarão, mas dessa vez,
como sombras urbanas,
ávidas por destruir as muralhas cerradas de sua nação cativa”.

(in EU, PESCADOR DE ILUSÕES)





GUARNECIMENTO

26 09 2007

Guarnecimento

I

Irmãos dos campos
latino-americanos
ficai atentos!

É chegada a hora
de guarnecer:
o Leviatã do Norte
blasfema do alto império
contra as liberdades
e identidades latinas.

II

Não vos deixai acomodar na
insana e ignóbil comodidade individualizante.
Deblaterai todos vós…
É preciso!
Gritar é preciso!
Lutar é preciso!
Antes que o monstro vos destrua com suas falsas verdades
- garras bélicas hiperbólicas -
armazenadas em um mundo futuro
de fome, miséria e sangue.

III

Atentai, pois, para o fogo das ventas…
escarradas palavras balísticas.

IV

Não vos deixai entorpecer pelo verdejar vil
onde o fogo queimante destrói a floresta-ser
guardai-vos, pois, enquanto há tempo
do falso verdejamento de fraque e cartola
que embotam as consciências e as bitolam
e as atolam na lama vermelhante
que calcina almas marânhicas
que falseia a consciência do ser num
cântico ascético do bel prazer lucrático

[...]

(in EU, PESCADOR DE ILUSÕES)





VACA SAGRADA

26 09 2007

Vaca Sagrada

A vaca de Ébano
Viajando pelo mundo
Transforma o belo
No teatro do imundo.

A vaca de Ébano
Pretende-se multicultural
Mas transforma o mundo
Em um imenso curral.

… E com esse cabedal
Vê-se deusa planetária, mas
Confusa na sua diasporia
Mente a todos como igualitária.

(in EU, PESCADOR DE ILUSÕES)





SOLIPSISMO

26 09 2007

Solipsismo

Nenhuma dor
É tamanha
Que nela
Não me contenha

Dor do parto
Quando parto
Dor da morte
No existir da sorte

(é assim enfim a dor da vida)

É qualquer guarida
No limiar do ser
Que se finda no perecer
Do abstrato concreto

(in EU, PESCADOR DE ILUSÕES)





SAPIÊNCIA

26 09 2007

Sapiência

Sapo Cururu
Na beira do Itapecuru
Há tanta saudade mirim
Do Itapecurumirim

[...]

Mergulhar é preciso
Sem as peias do medo
Renovar o enredo
De nascentes nascer
E a cada novo existir
Do mergulho profundo
Abortar o imundo do mundo
O enxofrado perfume do cão
Que atazana a alma do nada
E tatua a vida mergulhada
Na pobrez do renascer
De cada imersão
Quanta solidão!
É pois preciso
Retornar ao chão
Para encontrar o curumim
Do rio Itapecurumirim

[...]

Sapo Cururu
Na beira do Itapecuru

Há tanta saudade mirim
Do Itapecurumirim

(in EU, PESCADOR DE ILUSÕES)