Libertação
Essa ambígua ordeiricidade brasileira,
e conseqüentemente, do seu povo:
país do carnaval!, da mulata brasileira!
país do futebol!, da malandragem fagueira!
é ufanismo trigueiro da burguesa “Luzes”
subjetivismo do discurso da dominação.
Sob este manto praticam-se
o terrorismo social e o econômico,
o político e o cultural, abstrusos,
mas coesos no seu conjunto ideológico
incrustado no terrorismo de Estado,
que não permite aos comuns cidadãos
perceberem, desde sempre, a condenação
de suas almas numa constante subjugação.
A tudo isso se junte, ainda,
a medíocre “democracia racial”:
falsa consciência da inclusão
sob o beneplácito das elites,
da classe média e da burguesia.
E os ladrões de sempre,
que roubaram, que roubam e, por certo,
roubarão este povo que teima em não acordar,
que continua “dormindo em berço esplêndido”,
continuam nos palácios a nos encantar
com a máxima da escravidão:
“O Brasil é uma nação ordeira” – dizem.
E assim continuamos nossa sina
com o apoio do burguês trabalhador
que vendeu sua dignidade,
que teve seu espírito comprado,
que se esconde sob a proteção de sindicatos
fascistas e sustentados pelo Estado terrorista
que assalta, que furta o trabalhador comum
compulsoriamente dilapidando o miserável salário,
que se lhe arranca da boca a comida,
do intelecto a educação,
do corpo a moradia.
Não menos indulgente
é a burguesia intelectual
que num eterno louva-deus
locupleta-se com migalhas furtadas
comprantes das ideologias de plantão
que lhes permite assegurar
o quinhão da dominação.
Da mesma maneira
o ramo podre da religião assim também age
utilizando o campo do sagrado
como fonte inexorável de opressão
fazendo cair sobre os desgraçados da sorte
o fogo do inferno se porventura desejarem a libertação.
No mesmo ritual teleológico
segue o burocrata, o empresário e o político,
os três Poderes:
o Judiciário,
o Executivo,
o Legislativo – a “representação do povo”!
Não é, pois, o momento da indignação?
Porventura não é chegada a hora da libertação?
A nação não pode condescender
com seus detratores, com seus ladrões,
com seus usurpadores, com seus facínoras,
com seus ditadores – falsos democratas,
antiprofetas da salvação.
Prestai atenção, ó brasileiros!
Ó povo dos trabalhadores,
povo deserdado,
vexado e proscrito!
Povo que é aprisionado,
que é julgado e que é morto!
Povo ultrajado, povo marcado!
Não sabes que mesmo para a paciência,
mesmo para a dedicação, há um limite?
Não deixarás de dar ouvidos a estes oradores do misticismo que te dizem para rezar e esperar, pregando a salvação pela religião ou pelo poder e cuja palavra veemente e sonora te cativa?
Teu destino é um enigma que nem a força física,
nem a coragem da alma,
nem as iluminações e o entusiasmo,
nem a exaltação de nenhum sentimento pode resolver.
Aqueles que te dizem o contrário enganam-te
e seus discursos servem apenas para retardar a hora de tua libertação, que está preste a soar.
O que são o entusiasmo e o sentimento?
O que é uma poesia vã diante da necessidade?
Para vencer a necessidade
há apenas a Necessidade,
razão última da natureza,
pura essência da matéria e do espírito.
Dá-me, agora, ó brasileiros,
um pouco da vossa atenção!
Tomai como vosso este poema
e cantai em toda praça a todo cidadão.
Sustentai este grito de alerta,
de levante,
de atitude revolucionária
contra os vituperadores que tomaram esta nação:
é uma convocação para a revolta,
é uma ode à desobediência civil,
é um convite à marcha contra os canalhas,
é uma incitação à derrubada do Estado terrorista.
Mas também quero vos alertar:
os ladrões do Brasil e de seu povo,
a camarilha instalada nos três poderes,
a elite, a classe média e os burgueses,
jamais concordarão com este deblaterar.
E dirão com certeza:
- Não passa de um ‘esquerdista radical’,
um ‘maoísta’,
um ‘leninista’,
um ‘marxista’,
enfim…
‘de um comunista’.
Ou, no mínimo, dirão:
um “revoltado”,
um “louco”…
Aí então deverás, desde sempre,
rechaçar e repelir veementemente
a prosa ditirâmbica dessa camarilha de ladrões.
Não dareis, jamais, o direito de te definirem,
de te identificarem,
de te marcarem (feito gado encurralado)
segundo seus conceitos,
seus preceitos,
seus preconceitos.
E direis:
- Tens agora, ó indignos bufões,
o vicejar de um novo sujeito,
tens, aqui, por certo,
o discurso da indignada nação,
que não quer ver o seu povo,
por toda eternidade, dirigido pela corrupção,
que não deseja ser representado
por congressos de ladrões,
governado por rufiões do poder
que se escondem sob a toga da inquisição.
E afirmareis a sentença da libertação:
“Se os apelos dos movimentos urbanos
não são atendidos,
se os novos caminhos políticos
permanecem fechados,
se os novos movimentos sociais
não se desenvolvem totalmente,
então, tais movimentos
- utopias reativas que tentarão iluminar o caminho a que não tinham acesso –
retornarão, mas dessa vez,
como sombras urbanas,
ávidas por destruir as muralhas cerradas de sua nação cativa”.
(in EU, PESCADOR DE ILUSÕES)