Por João Batista do Lago
O que pode nos revelar a poesia?
Uma sequer?
Tudo.
Chego a esta conclusão após fazer umas releituras da poesia anglo-lusófona - “Naquela Hora” -, de Heloisa PB. Poesia que, aos meus olhos, é muito mais uma prosa poética ou “poemar” - expressão da autora - em prosa (a distinção entre a prosa e a poesia é um tema recorrente no circuito dos especialistas na matéria. E não menos freqüente é o estudo da mescla entre os dois gêneros, sob o rótulo de prosa poética e poesia em prosa. Embora as denominações sejam historicamente recentes, o fenômeno é muito antigo, remontando ao século V a. C., notadamente entre os adeptos da “Segunda Sofística”, em que “a pura poesia em verso é sucedida pela pura poesia em prosa” [Perry 1967: 177 e ss.] – in DICIONÁRIOS DE TERMOS LITERÁRIOS, Massaud Moisés 2004: 373) que, propriamente, poesia formal e formalista, reduzida aos seus campos metodológicos, fixos, rígidos, inflexíveis, muitas vezes arcaicos que aprisionam o pensar poético em métricas, e rimas, pura e tão-somente.
Entre uma e outra releitura do texto de Heloisa, cada vez mais, assumia-me o desejo de defini-lo como “coisa”. Não “coisa” sociológica, segundo pensamento durkheimiano ou husserliano. Nem tampouco “coisa” de senso comum conotativo ou denotativo de certo atributo pejorativo. Não. Mas “coisa” segundo Martin Heidegger, em A Origem da Obra de Arte, sobretudo quando o filósofo suíço-alemão, dos mais influentes do século XX, pergunta: “Como uma coisa pode se tornar arte?”. Heidegger apresenta três fórmulas de conceituar a “coisa: 1) como suporte de propriedade, 2) a coisa como unidade de múltiplas sensações, e 3) a coisa como matéria enformada”. Em todas, ele nos mostra como a “coisa” permanece impensada. Mas, para ele, toda obra de arte tem o caráter de “coisa”. Portanto, em Heidegger, antes de tudo, é necessário que saibamos distinguir o que a “coisa” é – e o que a “coisa” não-é. Diz-nos ele: “a coisa é, como todos julgam saber, aquilo em torno do qual estão reunidas as propriedades” – (A Origem da Obra de Arte, edições 70, 2000, p. 16).
Penso que, agora, encontrei o fio da meada para principiar a análise de “Naquela Hora”, de Heloisa BP, que, em princípio, confesso humildemente, levou-me, falsamente, a constituí-lo como um texto desconstituído de qualquer atributo enformador, devido a sua dissimetria, seu langor e sua extensão versicular (e devo aqui admitir que isso, de certa maneira, atrapalha o bom entendimento dessa poetisa que, em geral, traz no seu “poemar” essas características), ou seja, des-formado dos contextos de “características” e de “propriedades”. Tudo não passou de mero engano, ilusão e mal-interpretação iniciais. E que engano! Bem o seja assim: engano tão-somente.
Logo na primeira estrofe do poema se vêem instauradas as características e as propriedades, conforme o pensamento heideggeriano. Senão vejamos:
Naquela Hora
Em que o Sol
Já cansado de brilhar
Cerrou as cortinas
Do Céu
E se foi deitar…
Eu sentei-me numa Pedra:
- Pedra Redonda –
Perdida
No meio do Nada!
E… ali sentada
Me pus a pensar!
Diz-nos Heidegger: “Uma simples coisa é, por exemplo, este bloco de granito. É duro, pesado, extenso, maciço, informe, rude, colorido, ora baço, ora brilhante. Tudo que acabamos de enumerar podemos encontrar na pedra. (…) – (Idem)”. Eis, pois, aqui, a síntese do poema de Heloisa BP. Tudo aqui se contém. A coisa-em-si se contém, ou “tem-nas”.
E o belo deste poema está exatamente na metáfora da “Pedra”. Pedra, sustentáculo do poema. Pedra, representação do Universo, mundo ao mesmo tempo metafísico e real. Pedra, redonda como a terra, o sol e a lua. Pedra, interior e exterior. Pedra, material e imaterial. Pedra filosofal. Pedra “coisa” onde estão, “no meio do nada”, sentados os atores Sol e Lua, e o artista, e a poetisa, e a obra… representações do humano, “plantados eternamente/ cada um na sua metade/ em seu próprio mundo/ eternamente condenados/ ao seu fado-destino/ (…) consumidos de desejo e de dor”, sob o olhar do próprio humano expectador que vê, em toda essa abstração, o auto desígnio (o retrato) da espécie humana.
É assim a “coisa” poética, como obra de arte, de Heloisa BP: uma pedrada no nosso “bestunto” (termo cunhado pelo poeta Mhário Lincoln); uma pedrada na nossa consciência; uma pedrada no nosso pensamento irracional imanente; uma pedrada na nossa incapacidade de amar; uma pedrada na nossa irracionalidade, incompetência e incompreensão do existir num mundo de alteridade; uma pedrada na inexistência da multicultura; uma pedrada, enfim, na falta de reconhecimento do não-idêntico.
Ao ler e reler o poema chega-se a sentir pena e dor, e dó, do Sol e da Lua:
Sol e Lua
- Rei e Rainha -
Cada um em seu dossel de estrelas
Nunca saberão da ternura de um abraço!
Porventura saberão, o homem e a mulher, o ser humano enfim, “da ternura de um abraço!”. Difícil dizer. Difícil negar. Difícil afirmar. Mas é certo que estamos sentados sobre a pedra observando a nossa incoerência humana. Somos um e a mesma coisa, mas como o sol e a lua, estamos condenados a jamais nos amar um ao outro. É certo que estamos pintando o nosso auto-retrato!
A irracionalidade do mundo pós-moderno, o mundo real em que vivemos, o inculcamento de culturas de poder, seja político, econômico-financeiro ou cultural, não nos permitem materializar o amor, assim como o sol e lua, ambos matéria, mas ao mesmo tempo imateriais no infinito tempo:
Eles
Se olham!
Se sentem!
Se pressentem!
Mas… jamais se darão a mão!
E…
Assim, os tempos vão,
(…)
Chora a Lua
Disfarçando lágrimas em vítreos sorrisos!
Chora o Sol
Disfarçando surdos gritos (…)
Porventura não somos todos esses disfarces! Difícil dizer. Difícil negar. Difícil afirmar. Mas é certo que estamos sentados sobre a pedra observando a nossa incoerência humana. É certo que estamos pintando o nosso auto-retrato!
Assim é, pois, “Naquela Hora”, poema-pedra, “duro, pesado, extenso, maciço, informe, rude, colorido, ora baço, ora brilhante”. Assim é a “coisa” poética não mais impensada, mas pensada e racionalizada, e materializada em obra de arte. Assim podemos, agora, saber o que a “coisa” é - e o que a “coisa” não-é. Assim posso falar dessa coisa-poesia irresponsavelmente enformada em suas propriedades imanentes, maravilhosamente bela, esteticamente irreverente, assimétrica, voluptuosa, revolucionária…
Assim é, pois, que os convido a tomar mais um gole, mais uma taça, entre tantas, desse “Vinho de Falerno” que é a poesia de Heloisa BP. Não tenham medo de embriagar-se, pois, esse “porre” é suave e saudável. Tomemos lugar ao banquete. Deixemos-nos levar pelas bacantes dionísicas nascidas da mente dessa poetisa luso-anglófona.
Bem seja Heloisa BP!
Viva a Poesia!