Artigo

23 03 2006

A Favela-arte é alegre

João Batista Lago[1]

Como categorizar ou classificar o documentário “Falcão…” exibido na noite do último domingo, 19, pelo programa “Fantástico, o show da vida”, da Rede Globo de Televisão, do Brasil, sobre as reais condições de vida dos viventes em favelas, no Rio de Janeiro – Cidade Maravilhosa? O que dizer do impacto que causou (o que não deveria, pois, essa é uma realidade comum a todos nós) ao outro lado, – à burguesia deificada pelo pós-modernismo imanente no imaginário da identidade brasileira -, ao ver-se refletida no espelho surrealista da grotesca sociedade nacional? Que caminhos tomar, a partir deste evento “espetacular e mitológico”, desta fantasmagoria, desse babelismo favélico, que nos faz alegres e nos remetem a pensamentos tais quais: “ainda bem que não sou eu…”, “o que eu tenho a ver com isso se não moro no Rio de Janeiro…”, “isso é problema dos governos…”, “eu faço a minha parte…”, “venha para o meio…”?
Permito-me dizer que o relatório final (ou quase final!) da pesquisa feita em diversos morros favelados da suburbana “Princesinha do Mar”, que resultou neste documentário filmático, é uma obra de arte… Arte do submundo fantástico! Arte da degradação do ser! Arte da história do homem! Arte da história da consciência humana! Arte da teoria da sociedade! Arte da crítica e da razão! Arte do Aufklärung! Mas, também, é preciso dizer: é arte da afirmação da burguesia pós-moderna que canta em verso e prosa toda a alegria da favela-arte que é mercantilizada no imaginário do mercado animista. É, sobretudo, a afirmação de uma arte inclusiva da exclusão… arte da reclusão… arte da guetização… arte da segregação…
O documentário desvela, ao mesmo tempo, uma tipologia de dialética do Eu-louco foucaultiano numa direção rastreadora do mimetismo e da metamorfose kafkiana. Gostaria mesmo de não ter essa representação imagética desse sanatório mas, no entanto, só ela me é possível após as imagens do real, do realismo puro, apresentadas em rede nacional de televisão. Pena que três quartos (ou mais até!) dos expectadores foram dormir sem quaisquer ânsias de vomição, pois, senso comum: a pobreza, a fome, a miséria, a desigualdade, a falta de trabalho… – e tudo o mais! – regem, como mitos sacralizados, a vida dessas almas seculares que não mais são tocadas pelos dedos dos deuses capazes de lhes proporcionar a felicidade na terra. Mesmo que momentaneamente amarguradas serão embaladas nesta noite pelos sonhos opiáticos da burguesa solidariedade (ou pena!?) cristã. Que pena!
A cavernosidade do documentário é tanta que nos provoca uma tal letargia imanente não nos deixando eliminar o monstro e toda sua monstruosidade latente imbricada numa filosofia niilista que veda os olhos da esperança por mais otimistas que queiramos ou desejamos ser. E ainda que o fato se dê no aqui e agora, ele revela a pré-história do ser humano incapaz de resolver seus antagonismos, mesmo que cada dia mais se eleve ao nível das tecnologias esperançosas (nada mais que falsas verdades!) de uma alteridade capaz de resgatá-lo num progresso sei-lá-de-quê. Não há como não desesperançar quando nos interiorizamos ou retornamos a essa caverna do humano onde somos assassinados após ver toda a beleza da luz, do sol, da lua, do dia, da noite, dos rios, dos pássaros, das árvores, das rosas, das flores!… Não há como não desesperançar quando nos vemos apenas um mercado onde o modo de produção é a miséria… a fome… a desigualdade… a injustiça…
Por fim, o que esperar desta obra de arte que retrata e reflete o eu-nós-eu-em-si nessa droga de favela-arte da droga da arte-favela?
- O burguês prêmio por mostrar a cultura da Favela-arte que será comercializada no mercado negro da ética – uma pré-história do idealismo, da imanência, do espírito exaltando-se a si mesmo, da subjetividade dominadora, em que é preciso enfatizar as configurações do mito e da pós-modernidade, da natureza e da história, do antigo e do novo, do sempre idêntico e do outro, da decadência e da salvação (Benjamim-Adorno-Horkheimer).
Curitiba (PR), 19 de março de 2006. (Domingo)
[1] João Batista Lago é jornalista, consultor de marketing político e pesquisador.