Identidades Culturais

19 01 2006
Cidades Multiculturais (II)
Identidades Culturais
Por João Batista Lago

O artigo anterior, muito embora não intencionado, fixa-se como intróito desta produção imagético-empirista. Penso que ele era necessário para poder, a partir de então, desenvolver toda esta temática: cidades multiculturais, aqui proposta.
Evidentemente que, com o avanço do conhecimento e da informação, tecnologias por certo, – inclusive tecnologia do saber – que se pautaram a partir de Século XVIII com o advento do Iluminismo, têm contribuído para as mudanças estruturais e conjunturais em todos os campos da atividade humana. E com certeza, o impacto dessas mudanças nos campos de governos, governantes e governados foi dos mais estudados até os dias atuais porquê afeta o ator principal desta tragédia: o ser humano, em toda a sua diversidade e busca de identificações culturais.
A construção da identidade – aqui retorno mais uma vez ao sociólogo Manuel Castells – é “o processo de construção de significado com base em um atributo cultural, (…) constituem fontes de significado para os próprios atores, por eles originadas e construídas por meio de um processo de individuação (…) são fontes mais importantes de significados do que papéis, por causa do processo de autoconstrução e individuação que envolvem, (…) organiza-se em torno de uma identidade primária (uma identidade que estrutura as demais) auto-sustentável ao longo do tempo e do espaço”.(4)
É precisamente aqui que se dá o majestoso problema de construção da identidade “da” e “nas” cidades. Por quê, então, isso acontece? Porquê o Príncipe tende a impor sua identidade pessoal, personalista mesmo, monopolista, onde seus, e apenas seus, objetivos são privilegiados, desintegrando, assim, toda cultura identitária; desconstruíndo, pois, outras culturas pessoais, mas com uma forte orientação para o igualitarismo e quaisquer processos de alteridade, ou seja: o reconhecimento do outro, o reconhecimento do diferente.
Ora, esse status quo ou conservadorismo, leva, com certeza, a governos despóticos, autoritários e nunca democráticos, posto que, a democracia (que perpassa hoje por muitos conceitos significantes) implica na construção das diferenças que, per se, é a identidade coletiva onde se estabelece o jogo das tensões culturais, sociais, políticas e econômicas.
Não é, pois, nenhuma exageração, aduzir que os novos prefeitos e todos os gestores – públicos ou privados – devem, ou deveriam, imiscuir-se no saber das cidades para, a partir daí, aprender-a-desaprender-para-aprender-de-novo. Esse modelo é muito pouco utilizado por razões até simplórias, por exemplo: a) falta de conhecimento e informação; b) desejo imanente de construir dominações; c) medo do novo. Surge, aqui, então, um tipo de paradoxo: o multiculturalismo implícito no corpo social é o principal responsável pela ascensão do seu algoz. Aqui surge, em meu entendimento, dúvida epistemológica: seria o multiculturalismo fonte de produção de dominação? Não arriscarei quaisquer respostas a esta hipótese, aqui e agora, por entender que não tenho estudos e pesquisas que me levem à emissão de qualquer tese. O importante mesmo é entender-se que os novos príncipes devem – ou deveriam, no mínimo – procurar compreender suas cidades a partir de uma visão, de um posicionamento, de um discurso e de uma imagem altamente multifacetados, permitindo dessa forma a introdução desses novos conceitos em cada Estado-Local. Sem isso, as tensões que muitas vezes são essenciais para fazer sentido, criar novas identidades e significados, não passam de senso-comum. (CONTINUA)





A Cidadania em Sociedades Multiculturais

17 01 2006




Em busca do "real"

14 01 2006

Em busca do “real”

Por João Batista Lagoj

Eis-nos, pois, diante de 2006.
Qual sujeito nos propõe sermos? Que verdade haveremos de deblaterar? Quais serão, no contexto do real, as nossas demandas?
Estas e outras questões estão implícitas neste tempo abstrato que conhecemos por “ano”. No caso presente: 2006. Esse modo de produção do tempo nos sintetiza, nos enfeixa num limite de temporalidade orgânica, nos enquadra na inconsciência e inconsistência do real, não nos permitindo vivenciar a materialidade da natureza das coisas, onde o real se dá consciente e consistentemente.
Diante dessa perplexidade ficamos ao largo do sujeito. Em geral somos pura e tão-somente indivíduo metamórfico abstrato que não se constitui, que não faz sentido de ser, que não é real. E no curso desta antinomia existencial vivemos todos os paradoxos dicotômicos entre as proposições e as negações diante dos pressupostos que se impuseram como incontestáveis ao pensamento, portanto, ao indivíduo.
Ora, tendo isto como verdadeiro é forçoso imaginar que só nos damos conta de nós, isto é, só ficamos prenhe de sentido quando nos percebemos na infra-estrutura, ou seja, dentro do real, no contexto das matérias que queremos manipular, que queremos trabalhar. Acredito que somente no campo infra-estrutural encontramos o capital efetivo para o desenvolvimento de um modo de produção capaz de sugerir, ainda que em doses diminutas, a constituição do sujeito.
E de todas essas matérias – creio – a Política é a principal. É neste campo que devemos nos ver como sujeitos. É nessa infra-estrutura que devemos problematizar as coisas e nos problematizar para escapar das biases tão próprias ao senso comum. A Política não pode ser interpretada simplesmente como um lócus do modo de produção de falsas verdades. A Política deve ser entendida e vivenciada como modo de produção do sujeito, ou seja, da verdade, do real. Não a verdade ou o real do indivíduo, tampouco o indivíduo da verdade ou do real. Mas, a verdade real. A verdade não secularizada.
Então, qual sujeito nos propõe sermos?
Esse imbróglio, por menos que queiramos admitir, nos arrasta para o campo acadêmico onde somos banhados por um tipo de caldo metatípico a partir de imersões conceptuais que redundam numa práxis política distante da infra-estrutura, mas que se reproduz, inversamente, num processo de semicultura, ou seja, no conjunto das atividades humanas tendentes a criar as condições indispensáveis à existência da sociedade e, particularmente, à atividade material, à produção. E é exatamente neste momento que se dá a falsa consciência da constituição ou construção do sujeito, privilegiando, assim, o status quo do indivíduo, do individualismo, do poder individual, do poder individualista.
Nessa homocromia calcinatória, onde o poder individual ou o poder individualista gera-se igual no contexto da coletividade, produz-se uma determinada tipologia de mimetismo: o sujeito excluso a partir de toda ideologia da inclusão. Em verdade o que se estabelece é a exclusão guetizada dos sujeitos. Ora, assim guetizados, eles (os sujeitos) perdem o contato com a matéria prima do real, distanciam-se do campo da verdade, e ficam envoltos por um tipo de acriticismo que lhos cega e que lhos reduz à condição secularizada de indivíduo. Eis aí, então, o indivíduo burguês contextualizado na igualdade burguesa, ou seja, a negação do sujeito.
Mas é possível evitar este viés. E o primeiro elemento constitutivo deste novo sujeito é a nolição coletivizada, ou seja, o estabelecimento de uma ação política de vontade negatória, uma ação política de oposição ao status quo dado, uma ação política que contraste os cogitos apriorísticos. Para tanto é indispensável que se elimine a matéria do sagrado e se consagre a matéria da natureza das coisas, onde há latente toda verdade, todo o real.
Não é da natureza humana a desigualdade, a fome, a doença, a miséria. Tudo isso é um tipo de abstração de um construto da natureza burguesa. Mas é da natureza humana a revolucionária igualdade, o direito à comida, à saúde e à riqueza. Mas, para alcançar efetivamente esta natureza é indispensável que saibamos atuar, criticamente, no campo da infra-estrutura, isto é, no real, onde se prefigura não o indivíduo, mas o sujeito prenhe de sentidos.
j João Batista Lago é jornalista, consultor de marketing político e pesquisador.





Lula e o "Corporativismo de Estado"

14 01 2006

Lula e o “Corporativismo de Estado”

Por João Batista Lago[1]

É constrangedor admitir. É difícil acreditar. É humilhante assistir. Mas é a dura realidade nacional bafejada na semicultura escatofágica.
Sua Excelência, o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil, inaugurou, na quinta-feira, 16/12, em Pernambuco, ao lado do presidente da Venezuela, Hugo Chaves, mais um pronuntiatio. Para minha surpresa vi uma Instituição em débâcle, após o resultado negativo de uma pesquisa realizada pelo Ibope, sob os auspícios da CNI (Confederação Nacional da Indústria), que prefigurava sua derrota nas futuras eleições de outubro de 2006.
Mas, surpresa ainda maior foi constatar que o Presidente Lula inaugurou mais um paradigma: um anômalo e atemporal Corporativismo de Estado. Corporativismo, afirme-se: de tez fascista, onde as corporações devem ser subordinadas ao Estado. E, neste caso, o Estado seria o próprio. Mais uma vez o Presidente revela-se, num processo de reificação, um sujeito, um Príncipe, obcecado pelo Poder. Essa tipologia de corporativismo sugere uma superestrutura panregional onde deva existir, entre os Estados, razões de solidariedade que suplantem a lógica das diferenças sócio-políticas.
Quando Sua Excelência criticou acerbamente a Imprensa brasileira, numa analogia à Imprensa venezuelana, quis fazer crer que exista uma campanha (por parte da imprensa nacional) para desconstruir o governo, que começa a ser negado pelo seu próprio partido, o PT. Um verdadeiro asneirão performático. Será que o Rufião sul-americano pensa-se presidente dum pressuposto (impossível acreditar) Sindicados dos Estados do Mercosul e América Latina?
A ideação deste corporativismo atávico-latente, para felicidade geral da nação, não é, sequer, uma pré-qualquer-coisa. Ainda bem. Só imaginar arrepia-me. Amedronta. Apavora.
Mas é preciso que se diga: essa ideologia – mesmo que atávica, mesmo que em estado de latência – deve ser escorraçada da Política. A diferença, como lógica, é o campo da democracia. E a democracia tem custado muito caro ao povo brasileiro.
Quanto à imprensa propriamente dita não a considero como Quarto Poder (como imaginam muitos ideólogos). E ao não considerá-la poder quero enfatizar sua característica de antipoder – seja como função, seja como papel. Contudo devo admitir que a imprensa, esse sujeito abstrato, é uma estrutura que pressupõe em si um tipo de poder mimético, o que nos leva à formulação de um teorema, que não cabe aqui ser dissecado. Mas, para lembrar ligeiramente: o poder da imprensa, como o vejo, é um fenômeno empiricamente observável, diferente do conceito de Poder oriundo da jurisdição, e por conseqüência da burocracia.
Neste ponto, pois, quero fazer o seguinte recorte: a imprensa tem que agir como antipoder para assegurar a informação, garantir a liberdade de expressão e fortalecer a democracia. Ora, sendo a imprensa o “sujeito abstrato” ela contrasta o Poder do Estado (ou do Príncipe) denunciando para o corpo social todas as mazelas, toda corrupção, toda falcatrua, toda idéia ou conjunto de idéias abstrusas.
Por ventura, a imprensa brasileira, com relação à crise política que se estabeleceu no país, a partir das denúncias feitas pelo ex-deputado federal Roberto Jefferson (PTB-RJ), está divulgando inverdades? Por ventura, as CPI’s não estão apurando e provando que há corrupção no Estado brasileiro? Por ventura, o Partido dos Trabalhadores – partido do Presidente da República – deixou de admitir, publicamente, que em sua estrutura havia uma cultura de corrupção introjetada na sua máquina política?
Tomando como base somente estas questões verifica-se, de pronto, que as acusações presidenciais, contra a imprensa brasileira, são infundadas e carecem de verdadeiro apego à verdade dos fatos. Olhando daqui de baixo, da planície, o que se percebe é que o atual inquilino do Estado sofre de miopraxia (condição de inferioridade ou insuficiência funcional de um órgão, de um aparelho ou de um sistema do organismo).
Para finalizar: as deblaterações presidencialísticas contra a imprensa brasileira não passam (tendo por fundamento conceitos oriundos a Teoria do Discurso) de uma forma de deslocamento, ou seja, uma tentativa de evitar que se perceba o significante vazio que é o Presidente da República.
[1] João Batista Lago, maranhense, jornalista, consultor de Marketing Político e Pesquisador do Irpop Pesquisas. E-mail: joaobatistalago@yahoo.com.br