CHORO

30 10 2009

CHORO

© DE João Batista do Lago

Sonhei-te por toda noite
Vagando esmo entre pensares
Assimétricos, mas escorreitos,
Lânguidos como a tísica doença que
Empoeira os pulmões do mundo.

Oh! Os velhos sinais dos tempos meus,
Que de tão meus prostraram por terra
Os tempos teus vazados pelos poros
Salientes de nossos corpos, dormentes
Nas frias madrugadas curitibanas,
Vão-se longes e distantes da
Ausente presencialidade que
Torpedeia meus caminhares ilháticos nas
Sorumbáticas noites de versos sem poesia.

Meus cantos internos estão tristonhos,
Meus olhares fraternos cansados estão… E
Meus andares sobre os paralelepípedos
Tropeçam nas sarjetas de almas condenadas
Pelo escárnio do senhor de todos os senhores.

Entre todos, São Luis – maior dos ilhéus –, já é morta!
Agora condenada à presencialidade das misérias,
Frutos condecorados no Palácio dos Leões,
Reverbera no caldo da diversidade
Toda cultura da maranhensidade
Prostrada no verbo que não rima um sujeito, mas
Constrói indivíduos que perambulam pela cidade,
Outrora versos praguejados nas cachaças dos abrigos…
Os bondes levaram todos para a eternidade.

Quanto a mim resta-me o choro de todas as saudades!





SONETO QUEBRADO

29 10 2009

SONETO QUEBRADO

© DE João Batista do Lago

Vasos quebrados (e)
Espalhados pela casa
Perseguem meus caminhares
Órfãos de emoções e razões

Oh! Madrugadas insólitas
Cosmopolitas
Vagas em mim como putas vagabundas
À procura duma naca de felicidade

Mas depois do gozo fatal
Emolduras-me nos umbrais dos esquecidos
Donde todos os meus silêncios são gritos adormecidos

Ecos que vibram na minha caverna
Solitária de emoções e razões
Onde apenas flores podres viscejam um pétala já morta





AUTORRETRATO

29 09 2009

AUTORRETRATO

© DE João Batista do Lago

Como se me parece
Cansativa
Esta caminhada solitariamente
Só com o sol na cabeça
Varando estradas pelas madrugadas

Como se me parecem longas
Estradas de precipícios
Entre montanhas de espíritos
Que uivam como lobos de florestas
Encarnadas nas almas dos humanos

Como se me parece
Eu
Tristonhos e acabrunhados
Entre sarjetas viscerais
Que promulgam o advento da passagem

Como se me parecem
Tudo e todos
Diante do altar dos condenados
À espera da santa hóstia
Que nos conduzirão aos infernos

Como se me pareceram
Pedro e Madalena
Diante do sagrado
Prostrados à cruz
O beijo do escárnio final





Utópica Intuição (VI)

11 09 2009

Utópica Intuição (VI)

© DE João Batista do Lago

Há um mundo lá fora…
Bem lá fora, bem distante
Onde aconchego minh’alma
Torturada
Amargurada
Angustiada…

É lá neste mundo que me acalmo
Que me encontro como ser
Que me o vejo jogado na minha prima casa:
Meu corpo
Leve e translúcido como o instante do nascer

E nesta minha casa
Tenho tantos e quantos compartimentos…
Mas onde gosto mesmo de ficar
É na soleira donde posso ver e auscultar
Todas as minhas dores compartimentadas
Todas minhas paixões… todos meus amores…
Todos pendurados no meu umbral





Cacos

10 09 2009

Cacos

© DE João Batista do Lago

Hoje quero juntar cacos
Pedaços de mim que ficaram
Espalhados pelos caminhos (e)
Que se fizeram sujeitos ao
Longo das estradas…

Hoje quero juntar cacos
Encalhados nas praias…
Submergidos nos mares…
Andantes das correntezas dos rios…
E aqueles que ficaram adormecidos
Nas almas e nos corações dos homens…

Hoje quero juntar todos os meus cacos
Untá-los com o óleo da esperança plena
Em raiares de sóis esplendorosos (e)
Prenhes da mágica luz
Que nos conduz ao éter esférico
Onde todo saber… E toda sabedoria
São todos os cacos espalhados pelos caminhos…





Declaração para (T)i

9 09 2009

Declaração para (T)i

© DE João Batista do Lago

Amei uma só mulher por toda vida
Dela jamais recebi um carinho
Andei por vales de solidão, sozinho
Vaguei a minha paixão sem guarida
Hoje estou só. Ela também só está!
Vivo cada dia amando-a aos pouquinhos
Ela, sem me saber… Nem mesmo me notar…
Desfila para outros seus afagos e carinhos
Se ela soubesse: mesmo assim aind’a amo
Com a mesma esperança de adolescente
E a desventura de não tê-la. Mas não reclamo.
Há-de um dia ser-me de lua nascente:
Ela se quedará no meu colo… No meu peito…
E distantes de passarelas… de caminhos…
Nós dois, sozinhos, nos amaremos
Entre pergaminhos de nossas histórias
Entre sedas e veludos de nossos corpos em desalinhos





CLAMOR

1 09 2009

CLAMOR
(Dedicado ao poeta russo Maiakóvisky)

© DE João Batista do Lago

Estranhamente acordo pensando Maiakóvsky!
Coisa estranha!
Ou talvez nem tão estranha assim!
Sinto-o dentro da minha carne
Como alma prenhe de versos inacabados…

Por onde andas, ó grande irmão?
Por que te fostes me deixando tão só?

Sinto tua presença nos meus versos
Eles são tão angustiados quanto os teus:

“Levantei-me como um atleta,
levei-o como um acrobata,
como se levam os candidatos ao comício,
como nas aldeias se toca a rebate
nos dias de incêndio.
Clamava:
“Aqui está, aqui! Tomai-o!”
Quando este corpanzil se punha a uivar,
as donas
disparando
pelo pó, pelo barro ou pela neve,
como um foguete fugiam de mim.
- “Para nós, algo um tanto menor,
algo assim como um tango…”
Não posso levá-lo
e carrego meu fardo.
Quero arremessá-lo fora
e sei, não o farei.
Os arcos de minhas costelas não resistem.
Sob a pressão
range a caixa torácica.”

Eis-me, aqui, personagem da tua poética
Carregando o meu velho fardo:
Agonia que não me transcende
Que não me permite arremessá-lo
Para além da minha caixa torácica

A pressão de me viver é tanta e quanta
Tanto e quanto é o desejo de me arremessar
No vazio da eternidade profana
Onde poderíamos fazer um poema universal
Próprio do mundo imaterial, mas sem os valores espirituais das seitas

Garbo, assim, ó grande irmão
Nas fileiras de homens sem hoste. Sem coração.
De homens condenados a inanição
De gentes que rangem entre costelas
A falta do emprego que lhe garanta o pão

(- “Para nós, algo um tanto menor,
algo assim como um tango…”)





Utópica Intuição (V)

25 08 2009

Utópica Intuição (V)

© DE João Batista do Lago

Rasgo meu coração atormentado
Viscerado pelas madrugadas indormidas
Cálido dos calores humanos
Destruídos pelos hinos das insônias
Soçobradas dos cansaços vomitados pelas almas

Hoje à noite quero o sono mais profundo
Adormecer no colo da utopia que me segreda
Como a criança ‘inda não nascida
Como a esperança ‘inda que desesperada
De todas as vidas desaparecidas nos campos de guerras

Hoje à noite quero a eternidade de todas minhas paixões
Quedá-la no meu peito com profundidade
Qual punhal (!)
Estraçalhando meu coração em mil paixões
E desta visceral volúpia arrancar-me de dentro como antihumano

Quero, enfim, nesta noite sacrossanta
Batizar-me de todos meus desejos
Tomar o corpo da minha amada, minha Temis!
E deitá-lo no mais profundo dos meus gozos
E sabê-lo eterno no tempo da eternidade que me restara





Utópica Intuição (IV)

12 08 2009

Utópica Intuição (IV)

Trago em mim todas as
Razões do possível
Realidade imanente de
Todas minhas possibilidades reais
– Ai, quem me dera poder sê-las! –
Eis, então, minha utopia
Eternamente guardada
– e segredada! – no meu
Peito-sacrário

Se ela eu pudesse a
Todos ofertar como
Única possibilidade de si
Seria a coisa sui:
Sem o calvário
Sem a árvore
Sem o beijo
Sem a falsa liberdade das correntes

Mas ela me há como coisa única!
É tanta e quanta que se me extrapola
E se revela como hóstia do não-sagrado
E se derrama pelo corpo que sangra
Todas as dores acumuladas pelos tempos

(Sou assim
E então
A não possibilidade real
Que corre nas veias de
Todo ser)





Utópica Intuição (III)

10 08 2009

Utópica Intuição (III)

© DE João Batista do Lago

Teu discurso viés
Antes ser uma utopia
É tua distopia
Deblaterada a toda nação.

Vê-se nele o topos
Da tua indignidade
Que como sátira é
Deblaterada do teu púlpito
Solitário
Onde só os vermes
São capazes de
Absorverem como alimento
Sagrado:
Hóstia que te impões
Diante dos olhos de
Súditos (também!) inconfessos
Nos quais te apóias
Para sustentar o teu
Oráculo.

Nossa utopia é a
Dignidade
É toda virtude
Efetivada no canto da sereia
Prestes a parir a
Paidéia.





Utópica Intuição (II)

6 08 2009

Utópica Intuição (II)

© DE João Batista Lago

Lavas minha utopia
Que do teu corpo sangra
Da mais profunda cavernosidade
A possibilidade única do existir…

E desse eterno ventre
Ouço apenas o fremir do
Verbo que jamais será carne
Na tessitura das almas…

(todas as almas!)





Utópica Intuição

5 08 2009

Utópica Intuição

© DE João Batista do Lago

Intuo da minha utopia
Toda possibilidade da
Minha mundidade vérsica
Distendida no Corpus da presença

Vago-a mundanamente
Entre meus dedos prenhes de
Mãos vazias sequeladas pelo tempo
Donde todos instantes são agora irrealidades

… . … . … . … . … . … . … . … . … .





Sincronicidade

27 07 2009

Sincronicidade

© DE João Batista do Lago

Aquietai-vos!
Minhas palavras são apenas marcas duma razão instintiva
Provocadas pela ânsia de séculos de solidão
Não há, portanto, qualquer razão
Para o choro convincente de almas penadas
Gemas de ovos que circundam a eternidade

Entendei-me!
Não vos falo da ignorância do ser do indivíduo
Convoco-os, entretanto, para a ceia da possibilidade do sujeito:
Tudo que se diz de si é sempre poesia
E nem mesmo as tormentas das maresias
Há-de sangrar o verbo feito da mais pura carne

Compreendei-vos!
Sois tão somente a vossa possibilidade de ser
Estrutura suprema dos vossos conheceres
Não vos percais no deserto a morrer de sede
Caminhai em direção ao poço de água rara
Donde, só de lá, saciarás a tua palavra cara





Somos apenas isso!

24 07 2009

Somos apenas isso!

(Poema dedicado ao poeta Luis Augusto Cassas)

Luis Augusto Cassas

© DE João Batista do Lago

Sinto-me diante da minha impotência
Sentado à mesa do meu nada
Saboreando meus Onthos
Donde escrevo saladas (e)
Vomito verbos…

Minha sânscrita entidade
Reverbera-me na eternidade
Donde sempre fui o que não o sou:
Analgésico da cânfora mágica (que)
Encanta a miserável carne…

Escrevo assim minha sistina
Povoada de parábolas santas
Metáforas de possibilidades
Donde me ocorre ser o que não o sou:
Apenas excremento ontológico…





Dialética da sarjeta

9 07 2009

Dialética da sarjeta

© DE João Batista do Lago

As palavras estão nas sarjetas
Escorrem fazendo pequenas ondas
Olas que se confundem em si mesmas
Num breve instante onde o tempo
Disseca o vilipêndio dos discursos
Eivados do niilismo de todas as gentes

Quantas elucubrações prestadas
Na divina ceia dos que calam (e)
Não se assemelham na fala
Que veem das poses dos discípulos
Instalados nos púlpitos dos poderosos
Bem-aventurados do verbo-nada

Há que se juntar cada palavra
Arrastada pela lama que corre nas veias das cidades
Já transformadas em antros de sacerdotes podres
Que uivam versículos num latido frenético dos mercados
Onde um só deus assassina santos e demônios
Para consumi-los como hóstia do deus-mercado

Há que juntá-las para a criação única do obreiro
Para que se possa em procissão tributá-la ao oleiro
Sustento de luzes que não se apagam com quaisquer lamas
Nem se arrastam como cobras d’águas
Vilipendiando a palavra com o doce da maçã (ou)
Com o mel de promessas vãs